
Aos 18 anos, a paulistana Maria do Céu foi estudar música em Nova York. Não tinha como seu destino ser muito diferente da carreira artística: filha de Edgard Poças, que compôs sucessos do Balão Mágico, e da artista plástica Carolina Whitaker, ela cresceu rodeada por canções, do samba ao bolero, tendo o pai como primeiro professor.
Já nos Estados Unidos, abraçou a oportunidade, conciliando os estudos de música com o trabalho como garçonete. Voltava pra casa com discos como o The Miseducation of Lauryn Hill (1998) tocando no fone de ouvido. Dividiu o apartamento com Antonio Pinto, filho de Ziraldo, que assinou trilhas sonoras como a de Central do Brasil (1998) e tornou-se figura fundamental na sua carreira.
O retorno a São Paulo, no ano seguinte, não a fez sentir “americanizada”, tal qual ironizava Carmen Miranda. Pelo contrário – o samba e a bossa nova se firmaram ainda mais na sua essência musical. Mas aquelas referências sonoras gringas, do rap ao reggae, a acompanhariam definitivamente. Sentiu que era hora de juntar umas letras guardadas na gaveta para lançar seu primeiro CD.
Chamou Antonio e o amigo Beto Villares, também atuante nas trilhas de cinema, para dividir com ela a produção. Compartilhava com eles o desejo de misturar referências próprias e criar um som novo. Eles também viram o potencial da cantora: aquela bricolagem sonora, tal como acontece na montagem dos filmes, dava liga para uma narrativa original.
Lançado pela Urban Jungle e Ambulante Discos, Céu (2005) veio ao mundo, misturando samba, hip hop, reggae e trip hop, com influências de Dorival Caymmi a Bob Marley, sob scrathes de discotecagem e uma voz aveludada muito particular. Rapidamente foi sucesso de público e crítica. Ganhou destaque internacional e abriu portas para outros artistas, algo pouco usual para um disco independente.
Com ele, foi indicada ao Grammy Latino e Internacional, figurou na Billboard Hot 100, teve músicas em trilhas de novelas da TV Globo. Hoje, assinando apenas como Céu, a cantora é considerada uma pioneira no mercado indie brasileiro no exterior, abrindo portas para outros artistas independentes.
20 anos depois, com uma carreira consolidada em sete álbuns de estúdio, Céu revisitou o trabalho para o lançamento deste vinil e também para uma turnê comemorativa, que lotou o Circo Voador, no Rio de Janeiro, em sua estreia. Ela entrou no palco acompanhada por Lucas Martins no baixo, Sthe Araújo na percussão, Leonardo Mendes na guitarra, Pedro Lacerda na bateria, Zé Ruivo nos teclados e DJ Marco.
O show teve direção artística assinada por Luiza Lian e figurino de Alexandre Herchcovitch. “Chamei a Luiza porque era importante trazer uma cantora do mesmo ecossistema que o meu, alguém para quem esse disco também é referência. Acho bonito legitimar a história do álbum. Sempre vi nela uma artista do som e da visualidade, que tem muito esmero no que faz. Acho importante empoderar e dizer: Vai, faz’”. Já a escolha por Herchcovitch foi uma forma de homenagear São Paulo, capital onde nasceu e se forjou musicalmente, sua “concrete jungle” pessoal.
Hoje, Céu enxerga essa estreia com afeto, maturidade e a segurança de quem pode revisitar o passado com orgulho – sabendo o quão longe aquele primeiro passo a levou. “Esse álbum, pra mim, significou uma fuga. Eu era muito jovem e encontrava na escrita, na criação e na melodia, um refúgio para me entender”, conta ela. Pra nossa sorte, Céu decidiu compartilhar esse refúgio musical com o mundo. Desde então, sua vida nunca mais foi a mesma.
Queria te propor uma viagem no tempo, para aquele 2005, quando você estava prestes a lançar o álbum. Quais expectativas você tinha quando colocou sua estreia no mundo?
Esse álbum foi uma espécie de fuga, sabe? Eu era uma jovem que encontrava na escrita, na criação e na melodia um refúgio para me entender como pessoa. Se eu for pensar mesmo, comecei esse disco muito nova – eu tinha 18 anos. Foi quando comecei a me entender como compositora. Comecei a escrever coisas, a sair um pouco daquele lugar de preciosismo da música brasileira, que também faz parte da minha formação.
Tive o privilégio de ter grandes professores na minha vida: meu pai, meu irmão, minha avó, Nena, que estudou com Mário de Andrade, meu avô que tocava Chopin à noite. Fui uma criança com acesso a tudo isso e essas referências me formaram. Mas, de repente, eu era uma jovem querendo encontrar um lugar que fizesse sentido para o meu corpo naquele momento.
Acho que esse disco representa exatamente esse lugar do tipo, “meu Deus, para onde eu vou? O que está acontecendo no mundo? Quem eu sou?”. E aí, comecei a escrever. Então ele era uma fuga mas no final virou uma descoberta, um encontro, sabe? Eu me encontrei. Me encontrei como compositora.
Nem achava que era compositora, mas hoje acho que sou muito mais compositora, até. Me entendi como artista.
Como foi assimilar essas realizações pessoais enquanto lapidou sua visão artística?
Eu fui elaborando, né? Esse corpo no mundo, entendendo quem era essa pessoa, fui assimilando as minhas referências e levando para uma amálgama orgânica, entendendo o que que eu estava moldando. Eu não tinha uma expectativa, eu tinha um mundo: meu mundinho era o das minhas referências, pensando nessas músicas e imaginando se um dia eu conseguiria lançá-las.
Ser jovem artista é difícil. Você conseguir assimilar toda a sua sensibilidade num mundo cruel de números, de mercado. Eu não tinha uma estratégia, não tinha um desejo de performar incrivelmente, buscava me entender. Acho que esse disco tem uma força muito grande, considerando o que ele se propôs naquele momento e o quanto ele realmente vingou.
Ao longo desses 20 anos, ele se concretizou musicalmente e continua fazendo sentido, tanto para a nova geração quanto para quem o acompanhou na época. Então, sinto que ele tem uma força incrível, que fui entendendo cada vez mais nessa caminhada de duas décadas.
Como foi seu processo de composição? Mas também a escolha por esse repertório, que conta com canções suas, mas também versões de João Bosco e Aldir Blanc (em “Ronco da Cuíca”) e Bob Marley (em “Concrete Jungle”).
Dentro de tudo que eu tinha como parâmetro, eu queria fazer algo que realmente me agradasse, que me deixasse feliz e que tivesse uma certa temporalidade. Isso era muito importante para mim, porque sempre fui uma artista ligada à contemporaneidade. Eu gosto do que está acontecendo hoje na rua, no jeito de falar, no português que muda, nas gírias, nas palavras antigas.
E eu fui entendendo fazendo. Eu tive a sorte de contar com o estúdio de um amigo, o Alec Haiat, que foi precioso nesse processo. Ele foi um anjo, uma pessoa que acreditou no projeto e se dedicou. Ele tinha um estúdio na casa dele, um casarão, e eu chegava lá e pensava: ‘Meu Deus, que lugar é esse!’ [risos]. Eu ia para lá com meu brother, o Luquinhas [Lucas Martins], que toca comigo até hoje, e a gente passava as tardes fazendo uma espécie de brainstorming de composição – o que hoje chamam de songcamp, mas de outro jeito. Ficávamos ali mexendo, tentando…
Eu tive esse privilégio de ter essa pessoa incrível que me abriu essa possibilidade. De dia, eu trabalhava de garçonete e, à tarde, ia para o estúdio do Alec fazer esses estudos. À noite ainda me jogava na coisa música, da rua, nas jams sessions, em projetos – me virava como dava. Essa era a minha vida naquele momento, buscando encontrar minhas composições.
Sobre as músicas que gravei e que não são minhas, acho que elas funcionam para situar o disco. Penso como se fosse um painel, um patchwork. Eu precisava contar que carregava também essas outras referências. O Marley, a música jamaicana e o reggae, por exemplo, que depois se mostraram tão impactantes na minha carreira – quase todos os meus discos têm reggae.
Da mesma forma, o Aldir também me situa no lugar da música brasileira que eu amo. Eu gosto da tradição do violão brasileiro. Quando comecei a me descobrir compositora, estava fora do Brasil, mas fiz questão de voltar para lançar um disco de uma brasileira que mora no Brasil, e não de uma brasileira que tá com uma visão gringa do mundo.
Eu sempre tive essa coisa de Brasil acima de tudo [risos]. No fim, é como uma receita. Você vai sentindo: falta um pouco de sal, de açúcar, farinha… e vai colocando, até dar forma.
E esse disco vai para o mundo, é lançado e recebe uma recepção maravilhosa. Você alcança um público internacional logo de primeira. Como foi viver isso?
Pois é, foi um turbilhão, mas confesso que, quando vi o disco pronto, sabia que ele ia acontecer. Isso é muito louco, esquisito, até.
Mas é porque eu sabia da força do disco, daquele conjunto de pessoas, daquele momento. Parecia que tudo estava acontecendo na hora certa.
Claro que me surpreendeu muito, mas principalmente porque jogou na minha cara o meu despreparo para tudo que viria. Eu ainda estava aprendendo a cantar na frente das pessoas, entendendo o mundo sozinha, do meu jeito. Então tinha, sim, uma certa imaturidade ali, mas eu fui indo. Nunca parei, sabe? A estrada me deu uma casca grossa.
Você falou das pessoas que te procuram contando o quanto você foi referência. Eu me lembro de quando entrevistei o Jean Tassy, ele me disse que as primeiras descobertas que ele teve de hip hop misturado a outros estilos, foi ouvindo sua música.
Nossa, sim. Ele já me falou isso, e eu acho ele incrível. Um artista super talentoso, eu acho o máximo. Eu fui muito conectada com a música de rua, com a música urbana – na verdade, já disse algumas vezes que, pra mim, esse termo “música urbana” nem existe. Eu sempre quis trazer essa referência da rua, do rap, do jazz, do soul, do balanço.
Então, tinha o DJ Marco, do rap, um cara nascido e criado dentro desse universo, ali do meu lado no estúdio, gravando minhas vozes, colocando os scratches, construindo as camadas comigo. Ele era a pessoa certa para soltar os samples que criamos no disco, mas usando a forma dele de mexer nas minhas vozes, de alterar, sem medo de arriscar.
No show era ainda mais louco, porque eu sempre tive coros nas músicas e ele soltava aquilo como se fosse um vinil ao vivo. Era muito doido levar um DJ para o lugar de músico, e o rap é isso. Pra mim, fechava muito o encaixe da parada. Pessoas do rap, gente que se identifica com o gênero, começaram a dizer: “Caramba, que legal”. Tinha um encaixe ali, naquele momento, que fazia muito sentido.
Vamos falar desse legado: olhando para esse disco 20 anos depois, como é a sua visão sobre ele hoje? Como você o enxerga dentro da sua discografia e da sua trajetória, especialmente agora, retomando esse trabalho na turnê comemorativa?
Olha, eu me sinto uma mulher nova. Apesar dos 45 anos, hoje nessa idade, a gente ainda é jovem. Nossa, se alguém me perguntasse se eu gostaria de voltar aos 20, eu diria “Deus me livre” [risos]. Eu me sinto muito melhor agora, muito mais preparada. Não sou mais aquela menina que estava insegura no tapete vermelho… Hoje eu tô querendo mais e curtir! Onde é a festa, amor? Eu vou!
Quando comecei a revisitar esses 20 anos, não queria cair na nostalgia. Comecei a ver a importância do disco pela galera da nova geração.
Eu sabia que tinha sido um trabalho que abriu caminhos, que tinha força, mas não tinha dimensão do quanto ele atravessou outras mulheres que estavam escrevendo. Em vários shows, meninas vinham me dizer: “Eu comecei a escrever depois desse álbum. Você registrou o que estava na minha cabeça e eu não conseguia falar”. Percebi que era um disco que tinha mexido com muita gente, e que valia celebrar por esse viés.
Quando comecei a ensaiar o repertório, fiquei ainda mais emocionada. Eu gosto dos meus discos. É óbvio que eu vejo vulnerabilidades, coisas que poderiam ter sido feitas diferentes em todos eles. Mas me debruçar nesse álbum de novo me fez voltar pra aquela menina de 20 anos atrás, entender todos os steps by steps dela. “Por que eu fiz isso? O que eu estava buscando aqui?”. Acho muito bonitinho, hoje estou vivendo essa fase de acolher aquela menina de 20 anos atrás. Até as vulnerabilidades eu consigo entender com mais clareza: eram parte de uma elaboração necessária para chegar onde cheguei, dentro de uma indústria super machista, um medo de “ferir a música brasileira” com essas coisas disruptivas, misturadas.
E de trazer pensamentos que hoje são quase ingênuos depois de tudo o que a gente evoluiu – e ainda nem chegou perto de evoluir. Como a questão da racialidade e eu escrevi uma música sobre isso, “Rainha”. Eu estava elaborando isso na minha cabeça, de um jeito muito embrionário da parada. Ou sobre feminismo, em “Bobagem”, quando eu reflito sobre não ser a mulher objetificada – eu posso ser a mulher que eu sou. Eu acho que eu tava numa construção que, naquele capítulo, fazia muito sentido. Remexer esse baú hoje é muito legal. É como pegar uma lupa e olhar tudo com detalhamento. E perceber que, “putz, deu tudo certo, cara”. Poder me acolher mesmo, sabe? Isso é muito bonito.








