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Da Tropicália a Pitty e BaianaSystem: o que a música baiana tem?


Por:

Isabela Yu

Fotos: Divulgação/Jorge Daux, Thereza Maciel, Aislan de Paula, Vine Ferreira, Pedro Ommã, Liz Dorea; Reprodução/Acervo Pessoal

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"Você está bem na fita se 20% do seu line up for de artistas baianos", brinca Fabrício Nobre, a mente por trás do festival goiano Bananada, que há mais de 20 anos movimenta o cenário independente. A porcentagem é um chute do programador de shows, mas é 100% baseada na realidade. Afinal, você se lembra há quanto tempo está cantando o refrão de "Lucro" do BaianaSystem? E que tal "Banho de Folhas", da Luedji Luna? Ambos exemplos já passaram pelo palco de Fabrício, assim como se apresentaram em muitos outros eventos espalhados pelo país. 

Entre atributos naturais, culturais e ancestrais, a música feita no estado pulsa há décadas como o coração da música popular nacional. Para Gabriel Junqueira de Andrade, do Coala Festival, as explicações são inúmeras: "Entendo que é um fenômeno decorrente do contexto histórico da Bahia, da diáspora africana, do encontro desses diferentes povos, do período colonial e também de coisas intangíveis que resultaram nessa identidade cultural única."

Para além do circuito alternativo e midstream, também podemos pensar no mainstream e no underground. Como um organismo vivo, em constante simbiose e com diferentes estímulos, essa música é original, ao mesmo tempo em que inova com os ritmos do passado. Giovani Cidreira, cantor e compositor baiano, busca jogar com essas dinâmicas: "Saber a origem das coisas, mas não tratar a tradição como algo cristalizado. A gente é um povo inquieto, a música baiana está sempre fora de seu lugar. Quando lhe colocam no trono, a gente joga tudo pra cima, quebra a coroa e vai atrás de outra coisa. Me identifico muito."

Convidamos aqui artistas nascidos na Bahia e profissionais do mercado da música para comentarem esse processo e refletirem: afinal, o que é que a música baiana tem? 

Carol Morena (Festival Radioca)

A minha mãe é baiana e, em casa, na Paraíba, sempre escutamos muita MPB, consequentemente, muita música daqui – me mudei para Salvador em 2010. À medida que fui crescendo, comecei a me ligar na turma do rock. Só depois de morar aqui passei a entender como é forte a cultura local e como isso está presente no dia a dia. Um momento marcante para mim foi quando me abri para a música brasileira, na passagem da adolescência e vida adulta. Tinha a vivência da música gringa, mas foi natural embarcar na música nacional, é a nossa origem.

Pensando desde os anos 1960, acho que os grandes nomes e o grande alicerce da música brasileira bebem muito da Bahia. Desde Gil, Caetano, Gal, Bethânia, essa turma. São influências provenientes de referências de matriz africana, como os blocos afro, os afoxés e o samba reggae. 

Mas há também renovação de geração em geração sempre. Agora, isso está em evidência para o resto do país. Acho interessante e característico dessa geração: o fato de serem afastados de um só tipo de música. São diversos grupos de estilos completamente diferentes, do rap ao rock, música experimental, instrumental, orquestra...

Hiran (Rapper)

Acredito que a gente está sempre se renovando. Falo do ponto de vista de um artista baiano, que convive com muita gente daqui; minhas inspirações, meus amigos são daqui. Temos a preocupação de enviar músicas que façam link entre o ancestral e o novo, de criar essas novas janelas de futuro, ainda ligadas com o passado. 

Essas noções de tempo, que permeiam a nossa existência: do dia depois do outro, de passado, de futuro… Isso nos excita muito. Sinto isso em mim, muita gente daqui também. A ligação com a ancestralidade é muito forte, a religiosa também. Temos uma sede para que isso não morra, mas que ganhe novas formas. Não tenho propriedade para falar de outros lugares, mas acho que sempre estamos vivendo um novo momento. Quando as coisas se repetem, a gente já está vivendo outro momento. Se acontece de novo, não é igual à primeira vez. 

Muito doido, sempre que escuto sobre "nova Bahia", nova música baiana, vejo que é uma forma de colocar tudo em uma caixa só. Sendo que há coisas muito distintas, que nascem de outros pontos musicais, além de terem outras inspirações. Apesar de poderem ou não se encontrar em algum momento, como nas narrativas e preocupações, sempre apresentam coisas novas. 

Jadsa (Cantora e multi-instrumentista)

No geral, o Brasil é rico musicalmente. Nos quatro cantos do país, tem um pedaço de ritmo. A influência que a Bahia dissemina é a de ser marcante. Já ouviu “um baiano, um coco. Dois baianos, dois cocos. Três baianos, uma cocada. Quatro baianos, uma baianada”? É basicamente isso. Baiano consegue fazer muito com pouco e acredita até o fim nesse feito. É uma terra viva de criatividade. Não tinha como a Bahia, berço do Brasil, não ser original. 

Josyara (Cantora e violonista)

Vale ressaltar a Bahia além de Salvador. Os interiores contam muito e contribuem para essa fonte criativa. O que os livros não contam, a música revela. Vale ressaltar a Bahia além de Salvador. Seja contando, batucando ou poetizando memórias de um povo.

Está no ar, no mar, na caatinga, no mangue... Temos que apreciar e reconhecer a relevância. Vejo e sinto. Só posso dizer que sigo me inspirando porque me comove, consumo, convivo. 

Gabriel Andrade (Coala Festival)

Minha relação começou na infância, no rádio e na televisão. Sempre ouvi os clássicos: Caetano, Gil, João Gilberto, Dorival Caymmi e também os grandes nomes do axé music. O meu despertar consciente aconteceu quando passei a frequentar a Bahia. Nessas viagens, descobri um outro universo e mergulhei em um mar de referências que me fez querer estudar mais a fundo as diversas sonoridades que compõem a música baiana. 

Acho que existe esse novo momento há um tempo e ficou mais nítido com o sucesso do BaianaSystem, que jogou um holofote muito grande por lá. Existe, sem dúvida, uma nova geração de artistas e que vem exercendo um papel importante de renovação da música baiana – e brasileira. Pensando historicamente, se olharmos os artistas e os ritmos que a Bahia nos deu, vamos ver que muito do que se conhece por “música brasileira” veio de lá.

Giovani Cidreira  (Cantor e multi-instrumentista)

A música é um aspecto muito marcante no estado. A gente é um povo muito musical, que gosta de festa, casa cheia… Em todos os cantos da cidade, você escuta som de atabaque ou de tambor, isso também mostra a influência da cultura negra. No Recôncavo, existe uma força muito grande na música, do samba de roda, do batuque ligado ao culto dos orixás. O samba de roda teve início como uma forma de preservar a cultura dos negros escravizados. Desde bossa nova, tropicália, axé music… Até novos ritmos como arrocha e pagodão baiano. Quando vim pra Salvador no ano passado, fiquei feliz e me deparei com uma cena completamente diferente depois de dois anos morando em São Paulo. A galera, principalmente da periferia, sempre vai mostrar o caminho.

Lembro que a primeira coisa que me encantou em música foi a festa de São João, que é algo completamente tradicional. No interior, em Castro Alves, passeava de casa em casa para comer as comidas, soltar os fogos, esquentar a fogueira e ouvir forró. Triângulo, zabumba, acordeon. Lembro que quis chorar na primeira vez que escutei essas coisas e as músicas de Luiz Gonzaga.

Entrei em um estado de encantamento que nunca mais foi embora. Parte da minha família é em Santo Amaro e o samba de terreiro na casa da minha avó foi algo que me marcou, principalmente pela parte mágica e espiritual. Depois, em Salvador, me deparei com as primeiras bandas de rock, aqui é a terra de Raul Seixas! Tudo isso me deixou sem crivo, sem saber os limites, se era samba, pop, a gente faz o que dá na telha. Basta cantar com coração, esse é o grande lance da música da Bahia. Passar um tempo em Salvador é como voltar aos trilhos. Consigo olhar para minha música com mais calma, pensar para quem e por que estou fazendo isso e de onde eu vim. Voltar pra casa me faz lembrar do motivo principal que é fuder o mundo todo. 

Fabrício Nobre (Festival Bananada)

Sendo adolescente nos anos 1990, foi impossível evitar a música da Bahia. Axé, Daniela Mercury e os meus favoritos: Olodum, Timbalada e Luiz Caldas. Claro que, depois, também ficou na cabeça Caetano, Gil e Gal. Mas o que mais me chamou a atenção foram as bandas de rock da Bahia, da minha geração ou "um pouco mais velhos que eu". Chapei em Brincando de Deus, The Dead Billies, Dr Cascadura, Dois Sapos e Meio... Mesmo Inkoma ou a ultra indie Jupiterscope. Depois, isso tudo junto virou a turma da Pitty e do meu velho camarada Rogério BigBross. São meus amigos até hoje. 

Esses caras começaram a rolar na MTV, nas TVs e revistas maiores e os discos e fitas passaram a chegar em Goiânia. Chapei na possibilidade de existir uma cena foda mesmo com a sombra do axé. Era como sair da sombra do sertanejo em Goiânia. Rolou uma conexão, somos amigos até hoje. Lançamos discos do Cascadura, Brinde e Retrofoguetes, por exemplo.

A cena da Bahia é potente e relevante desde sempre, se confunde com tudo que é legal na música do Brasil... Não tem explicação, dá para debater por dias, mas certamente é um lugar onde a influência da música negra penetrou e permeou tudo. E a música negra é a música que move tudo. 

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Isabela Yu

Fotos: Divulgação/Jorge Daux, Thereza Maciel, Aislan de Paula, Vine Ferreira, Pedro Ommã, Liz Dorea; Reprodução/Acervo Pessoal

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