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Além do BaianaSystem: conheça a história do maestro Ubiratan Marques


Por:

Peu Araújo

Fotos: Filipe Cartaxo

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Ubiratan Marques anda pelo Pelourinho como se estivesse em seu quintal. E está. Ele circula pela região cumprimentando as pessoas com a desenvoltura de quem conhece as entranhas daquelas ladeiras. Depois de saborear um macchiato no Café & Chocolate, bem em frente ao local onde Michael Jackson protagonizou uma de suas cenas mais icônicas no clipe “They Don't Care About Us”, sobe os 49 degraus da íngreme escada da Casa da Ponte Maestro Ubiratan Marques, projeto que mantém na região desde 2018 com aulas regulares, ensaios da Orquestra Afrosinfônica, também fundada e regida por ele em 2009. O espaço ainda reserva uma sala de gravação para o BaianaSystem e foi ali, na ladeira de paralelepípedo em que os turistas têm os braços pintados de “Timbalada”, que parte do álbum O Mundo Dá Voltas (2025) foi produzido. 

Com uma autoridade carinhosa, ele passeia pelo casarão. Os funcionários e alunos o chamam de "maestro". Outras pessoas também, às vezes alguém o chama de mestre e beija sua mão em sinal de reverência. Ubiratan Marques veste bem essa carapuça de griô. Assim como as roupas brancas, a sabedoria lhe cai bem. Mas antes de se fixar no alto de sua casa, aos 60 anos, o maestro percorreu um longo e ancestral caminho.

“Minha bisavó, que me ensinou a tocar, é de 1889, Carolina”, ele explica. Essa parte da família do maestro, a paterna, é de Belmonte, no litoral sul-baiano e tem uma importante linhagem num terreiro de candomblé. A avó, Guiomar de Ogum, é mãe de santo. O lado materno é de Pé de Serra, cidadezinha do sertão baiano. “É aquela coisa gonzagueana, do cangaço”, ele conta. “Eu nasci dentro do tambor. Tanto do tambor do sertão, que era o pessoal tocando procissão, zabumba e também do tambor dos terreiros.”


Entre esse violão intuitivo, praticamente autodidata, da bisavó e a formação como maestro, o acaso fez um belo trabalho. Ele explica. “Quando eu cheguei ao ginásio, naquela época, todo mundo escolhia um curso técnico… eletrônica, mecânica, qualquer coisa. Quando eu cheguei ao [Colégio] Severino [Vieira], a menina falou: ‘não tem mais vaga para nada, agora só tem artes’”. Para não perder o ano letivo, Ubiratan se matriculou num curso de dança, música, teatro e artes visuais. “Eu liguei pra casa e mainha disse: ‘meu filho, se matricule, senão você vai perder essa vaga, não vai estudar. Ano que vem você muda”. Já se passaram 43 anos e ainda não chegou o ano que vem. 

Em 1986, entrou no curso de música da Universidade Federal da Bahia (UFBA), mas o ambiente era menos acolhedor do que a varanda da bisavó ou o ginásio. “Eu não consegui ficar dois anos na Universidade, porque já era um olhar completamente diferente, totalmente eurocêntrico, onde a música de fora desse contexto era a música de esquina e eu já estava com o pé na música de esquina.” Ele relembra uma cena desta época.

“A professora ficava mandando tocar Bach, essas coisas, mas quando ela saía, como eu não tinha piano, eu usava aquele para estudar. Eu estava tentando tocar as coisas de Caetano"

Ubiratan Marques ainda se recorda das palavras dela: "Me lembro exatamente quando ela voltou e me viu tocando outras coisas. Ela me disse: ‘Então quer dizer que, quando eu saio, você fica estudando essas porcarias?' Música nobre é essa aí que você está estudando. Você já não tem muito talento, você não tem instrumento e fica tocando essas porcarias.”

A música de esquina o chamou. Ele fez parte da banda Frutos Tropicais e pouco tempo depois, em 1987, entrou na Banda Reflexu’s — um fenômeno midiático e a primeira grande banda do que veio a se tornar o axé music com hits como “Madagascar Olodum” e “Canto Para Senegal”.

O maestro pega o álbum Da Mãe África e, antes de falar sobre a banda, cobre as letras R-E-F-L e deixa aparente apenas o EXU’s. “Reflexu’s é uma banda toda preta. Uma banda que tinha fundamento no nome, as letras tinham fundamento. Os nomes dos álbuns eram Serprente Negra, Kabiêssile.”

Ele fala com carinho sobre esse período. “Quem me deu instrumento foi a Banda Reflexu’s, quem me deu toda a estrutura para poder estudar e até mesmo para me ajudar a desenvolver aquilo que minha família já trouxe”. Mas revela também o motivo da saída. “O pacto foi quebrado e o dinheiro começou a valer mais do que a história.”

Ainda em seu mergulho no pop axé music em apresentações no Chacrinha, o maestro tinha uma inquietação. “Eu preciso estudar orquestração, mas tem que ser orquestração de música brasileira”. Pensou em sair do Brasil, mas ao ver o preço teve que rever o tamanho de seu sonho e encontrou uma saída na Universidade Livre de Música Tom Jobim, em São Paulo. Para se ajeitar no começo, tocou na banda de Mara Maravilha — à época apresentadora de um programa infantil no SBT e cantora — e depois se ajeitou por conta própria. 

“Em São Paulo ninguém vai passar a mão na sua cabeça. Aqui (em Salvador) todo mundo, qualquer coisinha é ‘não, filho, pra que você tá assim?’. É muito acolhimento, lá já não tinha e isso me fez crescer muito.”

Nesse período, Ubiratan pode aprender com Naná Vasconcelos, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, César Camargo Mariano, Dominguinhos, entre outros grandes nomes da música brasileira. E, em meio a mestres, virou professor na mesma escola onde aprendeu e passou pouco mais de 10 anos em São Paulo — mas sempre com longas estadias na Bahia, tanto no verão quanto no São João.

Os caminhos até a Orquestra


Voltou à Bahia em 2007, mas deixou importantes legados na capital paulista como o Projeto Guri e a Orquestra Zumbi dos Palmares, trabalho sinfônico voltado à cultura negra com jovens. Em Salvador, dois anos depois do retorno, Ubiratan Marques fundou a Orquestra Afrosinfônica. “Eu já estava com essa ideia. Eu quero fazer na Bahia uma orquestra parecida com a Jazz Sinfônica, que faz música brasileira, mas tinha que ser afro”. E ele tinha outro sonho. “Uma escola que seja voltada para a música brasileira”. Em 2009 nasce a Orquestra Afrosinfônica e entre idas e vindas, em 2018, surge a Casa da Ponte Maestro Ubiratan Marques. 

E toda essa história deságua mais recentemente na relação com o BaianaSystem. O maestro conta que a primeira música que chamou sua atenção, há mais de 10 anos,  foi “Terapia” e num desses encontros de camarim, lembra de ter dito para os músicos: “Que onda é essa aí? Essa música que vocês estão fazendo já é, vai acontecer a qualquer momento”. 

Mas a relação musical entre eles surgiu mais recentemente. “Em 2016, eu liguei pra eles e falei assim: ‘Ó, eu tô com uma ideia, da gente gravar uma música de bloco afro.” Com esse projeto em mente, o maestro foi à casa de Beto Barreto e teve o primeiro contato com a canção “Fogo”. Desse primeiro encontro, Ubiratan Marques começou a desenvolver outra faixa, “Água”, que juntas viraram primeiro um compacto e fizeram parte do álbum O Futuro Não Demora (2019). Das 13 músicas do disco, ele está em cinco. 

O maestro participou do Navio Pirata em 2017 e seguiu próximo. Em 2018, Russo Passapusso ligou com uma pergunta: “ Venha cá, cê faz o que final de semana?” Ubiratan Marques disse que ficava em casa com os cachorros descansando da rotina da orquestra e da escola. Um tempo depois, Beto Barreto, mais pragmático, fez o convite para ele tocar com o BaianaSystem nos shows. Ele relutou, disse que não queria atrapalhar com sua agenda, mas hoje faz parte dos shows sempre que pode. 

Em O Mundo dá Voltas (2025), participa de 10 das 13 canções, seja como compositor ou tocando piano, minimoog, hammond, teclado entre outros instrumentos. Ubiratan Marques está ali e empresta sua elegância sonora ao BaianaSystem em faixas como “Batukerê” e “Ogun Nilê”, para citar apenas duas. 

E nesse processo fluido como a água e intenso como o fogo, Ubiratan Marques é, entre outras tantas coisas, parte integrante e basilar do BaianaSystem. É também o menino autodidata que pegou o violão da bisavó e o jovem que se recusou a negar a música de esquina. É um artista pop do axé music, um maestro, arranjador, professor, um griô que com suas teclas encanta. Um homem que percorreu vários caminhos, mas todos eles levaram à música.

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Peu Araújo

Fotos: Filipe Cartaxo

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