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A estrada de ferro de Milton Nascimento: como os trens e as despedidas fazem parte da sua música


Por:

Erick Bonder

Fotos: Divulgação/Bob Wolfenson

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A estrada de ferro de Milton Nascimento: desde a estreia, os trens, os deslocamentos e as despedidas fazem parte da poética do artista. Neste mês, o artista retorna ao NOIZE Record Club com Tarde (2025), álbum que reúne versões acústicas das grandes composições de sua carreira. Não à toa, mergulhamos na sua discografia para pincelar alguns discos essenciais para qualquer fã.

Travessia (1967)

“Solto a voz nas estradas/ Já não quero parar”, canta Bituca na faixa que dá nome ao álbum. A parceria com Fernando Brant apresentou o artista ao resto do país no Festival Internacional da Canção. No disco, que flerta com o samba-jazz, ele está acompanhado pelo Tamba 4, grupo formado por Luiz Eça, Bebeto Castilho, Rubem Ohana e Dório Ferreira. O impacto do trabalho foi tamanho, que chamou a atenção de Elis Regina, que gravou a faixa título e “Canção do Sal". No repertório, há parcerias com Márcio Borges, Ronaldo Bastos e Fernando Brant. “Três Pontas”, uma homenagem a sua cidade de criação, traz imagens recorrentes do seu trabalho: “Vem depressa na estação/ Pra ver o trem chegar”. 

Clube da Esquina (1972)

O disco é o fruto luminoso de uma grande amizade e uma das obras-chave da música brasileira — não apenas pela força de suas composições, mas pela rica rede de colaborações entre compositores, letristas e músicos. Entre eles, Lô Borges, Márcio Borges, Beto Guedes, Toninho Horta, Alaíde Costa, Fernando Brant e Ronaldo Bastos. Dessa união nasceu o movimento Clube da Esquina.

Minas (1975)

Após Milton (1970), Clube da Esquina (1972) e Milagre dos Peixes (1973), o compositor já ocupava posição de prestígio na metade da década de 1970. Com produção de Ronaldo Bastos e direção musical de Wagner Tiso, o registro demonstra sua maturidade artística. Inclusive, o título faz alusão às iniciais do nome e sobrenome do músico. O projeto reúne gigantes da MPB: Caetano Veloso co-assina “Paula e Bebeto", Beto Guedes participa de “Fé Cega, Faca Amolada", já os vocais contam com Joyce, Nana Caymmi, Fafá de Belém e MPB4. Completam a banda: o baixista Novelli, o percussionista Chico Batera, o saxofonista Nivaldo Ornelas e o baterista Paulinho Braga. A letra de “Ponta de Areia” reafirma os temas recorrentes na sua obra: “Caminho de ferro/ Mandaram arrancar/ (...)/ Maria Fumaça/ Não canta mais”. 

Geraes (1976)

Há um diálogo entre os dois discos seguidos, pois “Fazenda”, que abre este álbum, começa com o último acorde de “Simples”, composição de Nelson Ângelo, que encerra o trabalho anterior. Por aqui, há referências de estilos latinoamericanos, como a parceria com a argentina Mercedes Sosa – “Volver a Los 17”, de Violeta Parra – e com os chilenos do Grupo Agua. Fora eles, há Chico Buarque, em “O Que Será (A Flor da Pele)”, e Clementina de Jesus, em “Circo Marimbondo”. Na banda do disco, está acompanhado do baterista Robertinho da Silva, os pianistas Francis Hime e João Donato, e o acordeonista Dominguinhos. O trem, que não está nas letras, aparece na capa com a ilustração da assinatura do cantor.

Sentinela (1980)

Com produção de Marcio Mazzola, o cantor traz  canções folclóricas no repertório. Ao lado de Tavinho Moura, adapta a música marujeira “Peixinhos do Mar”; “Caicó (Cantigas)” vem da versão de Heitor Villa Lobos e Teca Calazans. O repertório conta ainda com “Canção da América", uma das canções mais conhecidas da sua discografia, e cuja gravação traz participação do Boca Livre. O trabalho traz amigos recorrentes, caso de Fernando Brant co-autor de seis letras, Wagner Tiso, Robertinho da Silva e Toninho Horta. Há ainda vocais de Mercedes Sosa, em “Sueño Con Serpiente” (do cubano Silvio Rodríguez), e Nana Caymmi, em “Sentinela”. Aqui, Minas Gerais e sua via férrea são representadas na faixa “Itamarandiba”, na qual é narrado o caminho dos trilhos do Vale do Jequitinhonha: “Passarás por Turmalina/ Sonharás com Pedra Azul/ Viverás em Diamantina”.

Encontros e Despedidas (1985)

Influenciado pela música dos anos 1980, o álbum traz baterias eletrônicas e solos de saxofone, referências à sonoridade dos grupos da época. No entanto, misturam-se a isso o som de instrumentos percussivos como caxixis, ngomas e tumbadoras. Há a colaboração dos músicos americanos Hubert Laws e Pat Metheny. Na banda, os amigos do peito, mas também novos parceiros, como Nico Assumpção no baixo, Ricardo Silveira na guitarra, e Jaques Morelenbaum no cello. Lágrimas do Sul” é dedicada a Winnie Mandela, militante na luta contra o apartheid, esposa de Nelson Mandela e Ministra da Cultura da África do Sul. Já a letra de “Raça” celebra artistas fundamentais da cultura brasileira – Clementina de Jesus, Monsueto Menezes, Grande Otelo e Naná Vasconcelos. Por fim, na faixa que batiza o álbum, mais uma vez, a movimentação aparece nas letras: “E assim chegar e partir/ São só dois lados da mesma viagem/ O trem que chega é o mesmo trem da partida”. 

Por:

Erick Bonder

Fotos: Divulgação/Bob Wolfenson

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