
Depois de construir uma discografia marcada pela inquietação rítmica e pela mistura de linguagens — de Achados e Perdidos (2003) e Japan Pop Show (2008) a Arrocha (2012) e Boca (2017) — Curumin passou alguns anos sem lançar um disco. O hiato, atravessado também pelo período pandêmico, acabou se transformando a maneira como ele se conecta com a música.
A seguir, Curumin comenta os álbuns que o reconectaram à criação — obras que falam de ancestralidade, música como ritual e expressão de identidade.
Aguidavi do Jêje - Aguidavi do Jêje (2023)
Uma das coisas mais legais lançadas no Brasil ultimamente. Já vinha acompanhando eles há um tempo, desde antes do disco. É isso que a gente fala de autenticidade, que é a grande riqueza da expressão artística: buscar aquilo que se tem de mais único. Cada pessoa tem uma história para mostrar. Quando você faz uma busca profunda do que é seu e mostra isso de verdade, sai bem diferente de todo o resto. E esse disco é isso: uma coisa única, cheia de profundidade, algo que eu tenho valorizado cada vez mais na música.
João Donato - Lugar Comum (1975)
O João é uma figura super especial. Tem uma história muito boa: ele falava que não gostava de fazer música triste. Quando começava uma música e ela ficava meio triste, ele logo parava. Não queria. Achei isso interessante, eu também não sou do tipo de artista que gosta de fazer música triste. Depende, mas nem tanto assim – sem emo, sem sofrimento demais [risos]. Existe essa mística de que o artista tem que sofrer, tem que “revolver as entranhas”…. E eu acho que eu sou um tipo de artista que gosta de uma coisa mais solar. Pedra, apesar de tudo, tem esse lado mais solar.
Kasai Allstars - Beware The Fetish (2014)
O Kasai Allstars me despertou, me inspirou muito para fazer o Pedra – especialmente na ideia de fazer música de uma forma não tão planejada. Aqui, a música é um momento de expressão do artista. Tem muito esse sentido. É uma música super regional, com instrumentos pouco convencionais. Você escuta e pensa: “Cara, que é isso?”. É um negócio estranho porque parece que você está no meio do mato, ouvindo uns bichos. Tem um mistério que é muito maravilhoso pra mim. Eu falo que não estou muito numa de religião – mas a música é uma religião pra mim. Ela realmente me leva pra lugares sagrados.
Mestre Sombra - Vozes de Senzala (2013)
Tenho gostado muito de ouvir música de capoeira. É uma música que me faz bem. Não tenho muito como explicar, mas é isso: ela me reconecta. Tem esse sentido quase espiritual. Eu ouço e me transporta a um lugar muito profundo.
Paulo Flores - Kandongueiro Voador (2017)
Outra coisa que escutei muito durante a criação do disco – e que foi muito – inspiradora foi o semba. Esse som renovou os meus votos com a música. O semba é um som angolano que conversa diretamente com a cultura brasileira. Inclusive, várias palavras do nosso vocabulário vêm do kimbundu, dos dialetos angolanos da região dos Bantus. E esse disco do Paulo mexe muito comigo. Ouço muito até hoje.














