
Quando Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes anunciaram um disco juntos, muita gente deve ter se perguntado: como isso não aconteceu antes? O projeto permaneceu em segredo durante toda a produção e só veio a público com o lançamento de Vice-Versa, em setembro. Mas, para quem acompanha a trajetória dos dois, a parceria parecia fazer sentido faz tempo.
Os sinais estavam em encontros pontuais, mas cheios de sintonia musical: é o caso de “Para Lá”, parceria registrada na discografia de ambos; da versão famosíssima de Adriana para “Saiba”, faixa de Arnaldo, repertório do projeto infantil Partimpim; e do show que fizeram juntos no Coala Festival, em 2024, que deixou um gosto de "quero mais" e foi a faísca para uma nova perceria. Agora, eles se preparam para levar o projeto a diferentes palcos brasileiros na tour Vice-Versa.
O título foi escolhido por Adriana - ela brinca que precisava inventar um "código" para falar sobre o projeto com Arnaldo sem que ninguém desconfiasse (eles realmente se empenharam em guardar o segredo), e sintetiza bem um disco de dois artistas singularmente complementares.
Vice-Versa tem dez faixas compostas pelos dois, que transitam entre o pop rock, o samba e até um baião modernizado, num jogo de contrastes entre letras contemplativas e faixas dançantes que dá ainda mais sentido ao título. No repertório, tem ainda “Na Minha Carne Viva”, parceria dos dois com Marisa Monte, e “Sorriso Livro”, releitura do Timbalada.
Pupillo, que já havia trabalhado com Arnaldo em Novo Mundo, assina a produção musical e também toca bateria e percussão no disco. Já a banda que os acompanha é composta por Pedro Sá (guitarra), Vitor Araújo (piano e sintetizador) e Lucas Martins (baixo).
O método do Ed Motta
Durante a entrevista, os artistas esmiuçaram o processo de composição conjunta. Adriana falou sobre as diferenças entre os métodos "americano" e "europeu" de composição, que ouviu do Ed Motta. Ele contou que, no método "americano", cada um envia sua parte da música à distância, já no “europeu”, a ideia é encontrar para criar junto, com direito a vinho, charuto e vinil (no caso específico de Ed Motta). Adriana logo cravou que queria o método americano mesmo, porque era mais tímida. E assim começou a compor com Arnaldo.
“No início, a gente fez como em "Para Lá’": ela me mandava uma melodia, eu fiz a letra”, contou Arnaldo. Até que eles acharam melhor arriscar o método europeu. E deu certo. Teve um dia lá em casa que fizemos três canções”, completa Adriana. “Juntos! É totalmente inédito pra mim”.
A experiência também chamou a atenção de Arnaldo, justamente pela intimidade que construíram ao longo de anos de trabalhos e encontros pela música. “É como se a gente tivesse passado esse tempo todo retendo energia para, agora, sair um disco cheio". Como resultado, o disco foi gravado em uma semana, e uma das faixas nasceu já no estúdio.
Vice-Versa também se desdobra no audiovisual, com vídeos para as onze faixas dirigidos por Daniela Thomas. Em um dos cenários, Adriana e Arnaldo dançam entre espelhos, no mesmo compasso, mas cada um à sua maneira. A imagem traduz bem a dinâmica do disco: duas identidades que não se dissolvem uma na outra, mas se encontram num mesmo ritmo.

O cuidado com a palavra é um ponto alto desse encontro. Amantes da poesia, para os dois, a feitura da letra é uma busca constante pela melhor palavra. Por isso, muitas vezes apelam para o dicionário, como faziam os Dadaístas ou os poetas concretos que ambos admiram. Arnaldo resume:
“Buscar palavra mais justa é uma tarefa muito necessária para os dias de hoje, em que os discursos estão tão mentirosos e distorcendo tanto a realidade. Os artistas têm que prezar a clareza e a precisão”
Ao mesmo tempo, o trabalho também deu espaço para experimentações. Adriana conta que Arnaldo mostrou a ela o “jeep”, uma letra provisória (que geralmente não faz o menor sentido no contexto) usada só para ocupar a melodia enquanto não encontram a palavra certa: “Eu amei [risos]. A gente pode colocar uma palavra para evoluir a ideia e voltar nela depois. Às vezes, até deixamos daquele jeito mesmo”.
As bancas de jornais
Um dos destaques do disco é a faixa “As Bancas de Jornais” — que deve ser onipresente nas pautas dos jornalistas que os entrevistam, por motivos óbvios. Ao cantarem que as bancas de jornais já não vendem mais jornais, mas “chicletes diet e capinhas de celular/Refrigerantes light/Códigos de barras pra acessar”, eles desenham o cenário de transformação desses lugares ameaçados de extinção da forma como os conhecemos.
Mas em versos como “Pilhas, Bíblias, aparentemente inofensivos instrumentos de matar/Loterias e bonés, chaveiros, adesivos/Do comando militar” a dupla está também refletindo uma espécie de distopia do tempo presente.
Vice-Versa, a consagração da parceria de ambos, hoje é um disco e um projeto audiovisual e, em 2027, será uma turnê, com ingressos já à venda. Quando questiono o que podemos esperar do show e da interação entre ambos no palco, Arnaldo prefere deixar na surpresa: “A performance é aquilo que não se ensaia". Já estamos curiosos para ver esse improviso.
DATAS E LOCAIS DA TURNÊ VICE-VERSA:
6 de março de 2027 — São Paulo — Espaço Unimed
20 de março de 2027 — Rio de Janeiro — Qualistage
3 de abril de 2027 — Belo Horizonte — Minascentro
10 de abril de 2027 — Recife — Teatro Guararapes
23 de abril de 2027 — Porto Alegre — Auditório Araújo Vianna
24 de abril de 2027 — Curitiba — Teatro Positivo
Ingressos no site oficial do projeto.














