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Como o cabelo afro virou símbolo de resistência na MPB


Por:

Daniela de Jesus

Fotos: Reprodução/Rádio Senado

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Em diferentes momentos da vida, Itamar Assumpção cantou sobre sua inconfundível cabeleira. Do seu primeiro disco – Beleléu, Leléu, Eu (1980) – em "Nego Dito" até o final da vida – "Cabelo duro", gravada 2001 para o disco Isso Vai Dar Repercussão (2004)Nas faixas, o artista busca afirmar essa característica como parte de sua identidade e da força construída através de sua aparência. Do cabelo às roupas, o visual é uma ferramenta de construção de autoestima.

Cabelo "duro", "desleixado" ou "ruim" são alguns dos adjetivos utilizados para descrever cabelos crespos, cacheados e de estilos black power, com tranças ou dreads, e qualquer um que não se enquadre na estética eurocêntrica do cabelo liso. A rejeição à estética afro, somada à falta de representatividade, transformou a atitude de assumir o cabelo natural em um ato revolucionário. 

Segundo Giovanna Xavier, autora do livro “História social da beleza negra”, a adequação às expectativas por pressão estética significa menos trabalho e o desvio de comentários negativos. Na obra, ela traça um paralelo do surgimento da indústria da beleza e a aclamação da aparência branca como a única possível para definição do “belo”.

Em 2022, a rapper paulistana Drik Barbosa lançou “Quem Tem Joga”, feat com Karol Conká e Gloria Groove, onde exalta a força cabelo black power e a beleza dos traços afrodescendentes. A faixa faz parte do EP Nós (2022), novo trabalho colaborativo, dedicado à ancestralidade negra por meio de uma leitura pautada pelo afeto. “O meu cabelo é a minha roupa que eu quero e vou mostrar pro mundo. Eu sou feliz em ser eu mesma”, afirma a cantora.

Como forma de fugir dos comentários sobre sua aparência, Drik Barbosa lembra que seu primeiro contato com alisamento capilar foi na infância: “Muitas mães faziam nas filhas para tentar protegê-las de piadas racistas e brincadeiras maldosas. Mantive o alisamento durante minha adolescência até a vida adulta, quando quis apresentar meu cabelo natural pro mundo. Entendi a minha ancestralidade no meu cabelo natural. Vivi esse reencontro comigo mesma". 

Já o hairstylist soteropolitano Samir Pereira, co-fundador da marca VIXEVIXI, lembra que era incentivado a cortar o cabelo e manter os fios baixos. “Muitas vezes até raspado para pertencer ao padrão estabelecido. Isso sempre foi um ponto de questionamento: quem pode ou não ser quem se é”, diz o cabeleireiro. A pressão de manter o cabelo “controlado” e “domado” parte de uma necessidade, muitas vezes involuntária, de se enquadrar nos padrões para ser socialmente aceita. 

No texto “Alisando o Nosso Cabelo”, a escritora estadunidense bell hooks narra o ritual feito pelas mulheres negras de sua família para alisar os fios com um pente quente, e como esse momento marcava a transição de menina para mulher. “Na minha mente, não estava associado ao esforço de parecermos brancas, de colocar em prática os padrões de beleza estabelecidos pela supremacia branca. Estava associado somente ao rito de iniciação de minha condição de mulher”, escreve a autora.

Em contrapartida, reflete como os comentários negativos, somados à exaltação da beleza branca, incentivou as pessoas negras a se desvencilhar de suas aparências para serem aceitas: “Dentro do patriarcado capitalista – o contexto social e político em que surge o costume entre os negros de alisarmos os nossos cabelos –, essa postura representa uma imitação da aparência do grupo branco dominante e, com frequência, indica um racismo interiorizado, um ódio a si mesmo que pode ser somado a uma baixa autoestima”. No texto, também narra momentos em que pessoas pedem para tocar em cabelos afro e se surpreendem como eles são macios e não ásperos. “As respostas aos estilos de penteado naturais revelam comumente como o nosso cabelo é percebido na cultura branca: não só como feio, como também atemorizante”, pontua hooks. 

No país, canções abordam essa situação. Outro exemplo é do compositor Macau, autor de "Olhos Coloridos", letra eternizada na voz de Sandra Sá. “Naquela época, o cabelo afro solto era tido como mendigo, como farrapo", lembra. A faixa, apesar de ser considerada um hino de afirmação da estética negra, surgiu a partir de um caso de racismo sofrido pelo artista.

Na década de 1970, em meio ao período de repressão política, Macau visitava uma exposição, quando foi abordado por um policial militar, que o levou à força quando questionou o motivo da abordagem. Na delegacia, foi ofendido pelo oficial que julgava seu cabelo, sua aparência e seu local de moradia, a Cruzada São Sebastião. 

Após ser liberado, e em lágrimas de frente para o mar, a letra de “Olhos Coloridos” surgiu como uma forma de processar essa dor. O artista se orgulha de levar conhecimento através da música e celebra como as informações sobre a estética negra vem sendo cada vez mais difundidas e celebradas. “O cabelo é minha história. O cabelo é arte. Hoje a coisa evoluiu, você pode fazer o que quiser com o seu cabelo, usar da forma que você quiser. A sua imagem é o seu documento, seu corpo é sua arte e a minha arte é o meu cabelo", explica.  

Aparência atrelada à arte é um dos motores da multiartista carioca Janice Mascarenhas, eleita uma das 100 criativas mais importantes do mundo, segundo a revista inglesa Dazed. “Quando se é negro, existir vira sempre um evento, porque é nesse lugar que colocam a gente. Eu busco sempre entender isso de uma forma artística e menos opressiva", afirma a trancista. Durante a gestação de sua segunda filha, aos 21 anos, Janice assumiu os fios naturais, pois viveu uma gravidez de alto risco.

Foi nesse momento que entendeu o quão performática ela poderia ser através do cabelo, e como eles podem ser uma extensão da sua forma de se expressar. “Cabelo depende do humor, da roupa, das ideias que quero passar sobre mim, e às vezes das mentiras que eu conto. É libertador se encontrar nas muitas possibilidades", explica.  

Sem miolo mole e com sangue quente. Seja afro-brasileiro puro ou sarará crioulo, mas jamais em cima do muro. Fazendo, acontecendo e botando pra correr, com esse cabelo, com essa cor e com essa roupa. A afirmação da estética negra segue como ponto essencial de autoconhecimento e representatividade na sociedade, como ressalta bell hooks: “devemos lutar diariamente por permanecer em contato com nós mesmos e com os nossos corpos, uns com os outros.

Especialmente as mulheres negras e os homens negros, já que são nossos corpos os que frequentemente são desmerecidos, menosprezados, humilhados e mutilados em uma ideologia que aliena. Celebrando os nossos corpos, participamos de uma luta libertadora da mente e do coração”.

Por:

Daniela de Jesus

Fotos: Reprodução/Rádio Senado

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