ceu (1)

Do baú: Céu lembra bastidores da primeira turnê internacional


Por:

Revista NOIZE

Fotos: Acervo/Céu

COMPARTILHE:

* Escrito por Céu - entrevista Damy Coelho

Fui aprendendo na estrada. Minha trajetória engrossou minha casca, porque viajei muito no esquema rock and roll: “vamos aí fazer o que a gente sabe fazer, aprender, ralar”. Nada de glamour. Eu lembro quando peguei a estatueta do Grammy e, logo depois, tava comendo hot dog no sujão da rua com todo mundo. Foi uma caminhada muito bonita, mas de operária da música: de ir, aprender, melhorar, botar o pé no chão e fazer acontecer.

Eu nunca tinha ido à Europa. Chegando lá, tocamos em lugares importantes, como o Paris Plage, um evento de verão na beira do Sena, e o La Flèche d’Or, uma casa mais underground. Era a banda vivendo intensamente a experiência: ninguém tinha visto neve, estávamos aprendendo sobre o primeiro mundo, dividindo pratos – e eles não têm muito isso na Europa, cada um com seu prato, e a gente querendo provar o de todo mundo. Vinho custando dois euros, aquela química boa da banda.

A Europa recebia muito bem nossa música, que eles chamam de world music – mas sempre detestei esse rótulo. Quando dizem “world”, estão partindo do princípio de que eu sou world, e vocês não? Desculpa, mas pra mim, vocês são world music. Eu batia de frente nas entrevistas. Fui entendendo quem eu era ali: uma latino-americana passeando no primeiro mundo, vendo privilégios em decorrência de uma história complexa, e refletindo sobre o que significa cantar em português para um público que ama, mas que é nicho do nicho. Somos latino-americanos que não falam espanhol. A minha força vinha desse entendimento, também.

Viajei muito com o primeiro disco. Ele me levou pra tudo quanto é lugar que você possa imaginar. Estados Unidos, Canadá, Europa, foram turnês de ônibus, 40 dias estrada adentro. Abrimos para o duo Rodrigo y Gabriela, que era enorme na época. Recebi convite até para tocar com Kenny G!. Recusei, porque não tinha nada a ver comigo, com meu mundo musical. 

Eu era a única mulher na banda. Tinha horas em que eu queria matar os meninos, mas era muito divertido, eu dava muita risada. Também fui entendendo o que era a vida na turnê: chegar em lugares que eu sempre sonhei – sei lá, nos Alpes Suíços – e não poder aproveitar. Você chega, toma banho, se arruma, toca. No dia seguinte, cinco da manhã já está saindo. As pessoas falam: “nossa, que incrível, você esteve nos Alpes Suíços!”. Sim. Mas eu nem vi.

Nesse processo, fui entendendo meu corpo. Aprendendo a lidar com ansiedade, medo e desgaste físico. Tempos depois, teve um show clássico em que simplesmente me deu um apagão. Eu tava no La Cigale, uma casa tradicional de Paris. Eu tenho referências, mas não sou uma cantora de jazz, mas  estava abrindo pra Tania Maria, referência da música brasileira. Eu não tinha comido direito, não tinha dormido, estava nervosa, e quase desmaiei. Lembro de segurar o microfone e pensar: “daqui eu não caio”. Orgulhosa mesmo. Foi uma colher de sal que me salvou.

Então, eu passei por tudo. Grandes festas, grandes alegrias, grandes diversões. Realmente, foi muito intenso. Esse primeiro disco me deu uma casca, vamos dizer assim. Pra tudo que eu era verdezinha,  de repente eu estava: “se vira aí, amor. Vira, encara, vamos embora, porque a vida urge”.

Por:

Revista NOIZE

Fotos: Acervo/Céu

COMPARTILHE:


VER MAIS

RECEBA NOVIDADES POR E-MAIL!

Inscreva-se na nossa newsletter.