
Gaía Passarelli é muitas. Talvez você a conheça da MTV, quando apresentava o programa Goo, em 2011. Mas ela é jornalista musical de longa data, responsável pelo primeiro site de música eletrônica do Brasil, o Rraurl, que entrou no ar em 1997.
Ela também é escritora — já publicou Mas Você Vai Sozinha? (Globo Livros, 2016) e Tá Todo Mundo Tentando (Editora Nacional, 2024) — e hoje toca uma newsletter de sucesso no Substack, chamada Tá Todo Mundo Tentando. Agora, é também a Gaia do livro Deslumbre —Histórias de Obsessão Musical.
Lançado pela editora Terreno Estranho — que conta com outros ótimos títulos musicais —, o livro-ensaio destrincha a relação de Gaia com a música e todos os seus deslumbramentos.
Nele, a escritora aborda quatro fases de sua vida: a pré-adolescência, marcada pelo pós-punk e pelas noites no extinto clube Retrô, em São Paulo, passando pela juventude, a primeira viagem para Londres e a descoberta do eletrônico (e das primeiras experiências lisérgicas), culminando no momento em que música deixa de ser hobby para se tornar profissão: do site Rraurl à MTV e sua visita ao reduto de John Peel, icônico radialista da BBC falecido em 2004.

O livro é também um passeio delicioso pelas mudanças da noite paulistana e pelos clubes que não existem mais. O leitor ainda ganha um presente: os capítulos são permeados por playlists que ajudam a ambientar cada fase, do pós-punk ao indie dos anos 2000.
Gaía nos recebeu no seu apartamento em Santa Cecília, na capital paulista. O bairro também foi cenário de seu primeiro deslumbramento musical, quando passou o olho pela Folha de S. Paulo, ainda pré-adolescente, e se deparou com uma foto de góticos posando em frente à igreja do bairro.

Foi quando ela percebeu que não estava sozinha: outros jovens também curtiam o mesmo som que ela ouvia sozinha, no quarto. Próximo dali, ficava o Retrô, um dos clubes marcantes que ela frequentou. O espaço ajuda a contar a história de uma cidade que também passou por diversas mudanças a partir dos movimentos musicais que abrigou.
Para o nosso papo, Gaía separou algumas das preciosidades que ela guarda em mídia física e que foram fundamentais para a sua formação — e para a feitura deste livro, consequentemente: um vinil do Peel Sessions do Siouxsie and The Banshees, de 1977; o Hunky Dory, do David Bowie, que ela considera um dos melhores da carreira do ídolo. Uma VHS de um documentário sobre a cena punk e diversos cadernos onde anota seus pensamentos.
Ao revisitar os próprios deslumbramentos, Gaia fala também dos nossos — das obsessões que nos tiram do quarto, nos levam aos clubes, nos conectam a estranhos e constroem comunidades inteiras em torno do som.
Confira o papo na íntegra abaixo:
Em Deslumbre, você passa por fases distintas da sua vida. Dá para eleger uma como mais especial?
Eu não acho que dê para eleger só um momento mais importante, porque todos são especiais de alguma forma — por isso, estão no livro. Mas tenho um carinho especial pelo período da música eletrônica, uma fase que vivi com muita intensidade. Foi na virada dos 20 anos, que é um período crucial pra definir nossa personalidade, né.
Durante a escrita do livro — num processo de mais de um ano — ouvi muita música de todos esses períodos, mas gostei especialmente de voltar a mergulhar no techno house dos anos 2000. Foi uma fase que me fez muito feliz. E também são lembranças de festas muito, muito legais — então, foi bom olhar para isso de novo.
E tem algum vinil que você cita no livro e ainda guarda?
Pois é. Uma outra coisa que fiz durante o livro foi resgatar a minha coleção de vinil. Apesar de nunca ter ligado muito para CD, tenho muito vinil. Teve um momento em que eu literalmente abri um baú de madeira onde eu guardava esses discos havia mais de 15 anos [risos]. Resgatei alguns e separei dois para mostrar para vocês [neste momento, Gaia pega dois vinis e um VHS].
Esse daqui aparece no livro, o Peel Session do Siouxsie and The Banshees. É o disco que tem “Love in a Void” e “Metal Postcard”, de 1977. Eu lembro do dia em que o encontrei na galeria da 24 de Maio — não a Galeria do Rock, mas aquela do lado, onde ficava a Bizarre. Comprei vários Peel Sessions, e foi aí que comecei a prestar atenção no nome do John Peel. Eu também tenho o Peel Sessions do The Cure.
Agora, outro disco: o Bowie é, de longe, o artista mais importante da minha vida, que acompanho desde a infância até hoje. [O prólogo de Deslumbre, inclusive, é uma frase do David Bowie]. Eu tenho todos os discos dele, do final dos anos 60 até a virada para os anos 80, todos originais. Esse aqui é o Hunky Dory da RCA.
É difícil falar qual é o melhor álbum do Bowie, mas esse talvez seja um deles. É ele no auge. Tem muitas músicas que todo mundo conhece, como “Changes”. Deu um trabalho montar essa coleção, porque eu tive que ir atrás, comprar de colecionadores e tudo mais. Mas eu tenho muito apreço por ela, fico muito feliz de ter esses discos guardados aqui em casa!
Já isso aqui [diz, pegando o VHS] também é mencionado no livro. É o documentário Punk the Movie, do Don Letts, que tem cenas de apresentações de várias bandas que passaram pela Inglaterra nos anos 70. Tem bandas super conhecidas, comoSex Pistols, The Clash e Siouxsie, mas também tem Undertones, Stranglers e Buzzcocks.
É muito legal. Eu não lembro onde arrumei esse VHS, mas sei que ele está comigo há muito tempo. Espero que ainda funcione, porque eu não tenho aparelho para rodar VHS [risos]. Mas tem no YouTube para quem quiser ver.
Qual sua relação com a mídia física?
Tenho visto as pessoas falarem muito sobre essa volta da mídia física, de resgatar hábitos como ouvir iPod, ouvir CD, fazer colagens, escrever em diário. Eu acho super legal que isso esteja acontecendo, mas nunca deixei de usar mídia física.
Bom, eu tenho quase 50 anos, né [risos]. Inclusive, até hoje eu escrevo em caderno: tudo o que eu escrevo é à mão, e depois eu passo para o computador.
Falando em mídia física, teve algum livro sobre música — ou algum ensaio mais pessoal — que te inspirou durante a escrita?
Ah, super! A autobiografia da vocalista do Pretenders é incrível [o livro de Chrissie Hynde, Reckless: My Life as a Pretender, de 2015]. Ela é foda. Tem várias histórias que eu não fazia ideia. E Só Garotos, da Patti Smith, que é um clássico. É um livro de memórias que coloca as lembranças mesclado ao que estava acontecendo no mundo naquele momento. Ela escreve super bem, tem uma prosa muito poética, muito bonita.
E, claro, um sobre o Bowie: um livro chamado The Man Who Sold the World. Ele é super nerd [risos]. Conta a história de cada gravação, de cada música do Bowie durante os anos 70 — a história por trás, como as músicas foram escritas.
Se eu começar a citar livros de música aqui, vou ficar horas falando [risos], mas tem um em específico que é muito importante para mim, o Mate-me por Favor, a história oral do punk. Eu li há muito tempo e lembro de pensar: “Meu Deus, isso é foda”.
Não só porque conta uma história muito rica, interessante e revolucionária, mas pela forma como é contado, a partir dos relatos dos personagens. Às vezes, uma pessoa conta uma história e outra conta a mesma história, mas de um jeito diferente. Então, enquanto exercício de história, é muito importante perceber que um mesmo relato pode ter vários lados.
Para a gente fechar: de todas as artes que te atravessam — cinema, literatura — por que você acha que a música causa, ou causou, esse deslumbramento na sua vida?
O livro é sobre música, então ela aparece muito, mas eu tenho deslumbramentos com outras coisas também. Sou muito ligada ao cinema, obviamente à literatura. Mas eu acho que a música, especialmente quando você é jovem, tem uma qualidade agregadora: ela faz você encontrar sua turma, conviver com as pessoas e repartir isso com os outros.
Isso ainda acontece muito hoje. A gente vê fandoms se organizando de forma muito intensa na internet. Então, apesar da digitalização do mundo, acho que a música ainda tem esse poder agregador — e sempre vai ter. Eu não fiz grandes amigos por causa de filmes, mas fiz grandes amigos por causa da música, com certeza.





