
Jorge Drexler mergulha profundamente na música tradicional uruguaia em seu 15º álbum, Taracá (2026). Unindo a sofisticação de seu violão aos tambores do candombe, a música do artista segue exalando suingue e romantismo, em letras que abordam o amor e as conexões contemporâneas. Agora, a missão de Drexler se expande para a defesa da memória cultural de seu país: em Taracá, ele exalta o candombe, manifestação cultural afro-uruguaia advinda dos candomberos e baseada em três tambores, chico, repique e piano. Lançado em março, Taracá agora ganha edição especial em vinil, já em pré-venda pelo NRC+.
O disco nasce de um chamado: reconectar-se ao Uruguai após três décadas vivendo na Espanha. O cantor decidiu retornar seu olhar ao país de origem após a morte dos pais, num movimento natural do luto. Em Montevidéu, as rodas de candombe estavam tomando as ruas da capital uruguaia por meio de uma nova geração. Essa poética do reencontro se reflete no repertório do disco: o single “¿Cómo se ama?” ganhou um clipe gravado na cidade natal do artista.
Candombe, samba e a memória afro-latino-americana
A caneta de Jorge Drexler segue inspirada: a excelente “Ante la duda, baila”, funciona como um resumo do candombe e das tentativas que essa e outras manifestações musicais de origem africana tiveram de apagamento. Enquanto ouvimos um tambor em transe, Drexler declama: “Em 1807/Um decreto do Governador de Montevidéu,Francisco Javier de Elío/resolveu proibir as danças, tangos e candombes…Mas a história às vezes muda/Diante da dúvida, dance”.
A letra ainda passa por medidas proibitivas do reggaeton em Porto Rico, que nos fazem lembrar de outras proibições culturais que têm, no fundo, o preconceito racial e social. Basta pensar no samba ou no estigma que até hoje carrega o funk. Ritmos que nasceram da afrodescendência, dos subúrbios, das festas que nascem das frestas.
Ja faixa “El Tambor Chico” funciona como um manifesto dessa nova proposta: tem o “taracá”, onomatopéia para o barulho do toque do tambor que dá nome ao álbum, enquanto a letra exalta: “De todos os contratempos/Que a gente encontra na vida/Eu prefiro o candombe/O contratempo do tambor chico”. Aqui, o “contratempo” faz referência tanto aos percalços que a vida pode trazer quanto ao tempo rítmico do toque do tambor.
Mas os brasileiros podem se apegar mais a ¿Qué será que es?” que, em espanhol refere-se a “O Que É, o Que É”, clássico de Gonzaguinha. “Essa música é um hino nas rodas de samba do Brasil”, diz o cantor à Noize, em português fluente. “Tem essa ideia espiritual de viver sem vergonha de ser feliz, ao mesmo tempo em que traz perguntas ontológicas muito profundas. É uma canção extremamente celebratória e realmente importante para mim”.
Então, Drexler assumiu para si a missão de levar a mensagem de vida que essa canção traz para outras partes da América Latina. “Queria apresentar quem foi Gonzaguinha, a história dele, o contexto da ditadura brasileira e o significado espiritual que a música carrega nas rodas de samba”, explica.
O cantor e compositor construiu ao longo da carreira uma relação próxima com o Brasil. Vencedor do Oscar pela canção “Al Otro Lado del Río”, trilha do filme Diários de Motocicleta (2004), o uruguaio já colaborou com nomes como Marisa Monte, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Gadú.
Taracá ainda inclui participações dos uruguaios Américo Young e da Rueda de Candombe, da porto-riquenha Young Miko, da cantora espanhola Ángeles Toledano, da pianista e compositora catalã Meritxell Neddermann, do violonista uruguaio Julio Cobelli e da murga Falta y Resto, uma das mais emblemáticas do carnaval de Montevidéu.
O disco também traz conexões contemporâneas, a exemplo de “¿Hay alguien A.I.?”, em que Drexler faz um questionamento sobre a autenticidade em tempos de inteligência artificial e criatividade delegada à máquina. Já “Nuestro trabajo / Los puentes”, com participação do conterrâneo Américo Young, é uma espécie de work song, mostrando que o trabalho do artista é ajudar a construir pontes. Como ele canta na faixa que encerra o disco, "Las palabras”: “as pessoas passam… mas as palavras ficam”.
Essas temáticas também fazem relação direta ao título. Mesmo remetendo à ancestralidade, “taracá” também alude à expressão “estar acá”, ou “estar aqui”, no presente — sendo esse presente, o Uruguai que se volta para o passado a fim de explicar o próprio futuro.
TRACKLIST:
- Toco madera
- ¿Cómo se ama?
- El tambor chico (part. Rueda de Candombe)
- Ante la duda, baila
- Te llevo tatuada (part. Young Miko)
- ¿Qué será que es? (part. Rueda de Candombe)
- Amar y ser amado (part. Meritxell Neddermann)
- ¿Hay alguien A.I.?
- Cuando cantaba Morente (part. Ángeles Toledano, Julio Cobelli)
- Nuestro trabajo / Los puentes (part. Américo Young)
- Las palabras (part. Falta y Resto)













