
No último sábado, 28/3, o relógio marcava 19h30 quando Gilberto Gil subiu ao palco do Allianz Parque e parou o tempo. Após um ano na estrada e mais de 30 apresentações no Brasil e na América do Sul, chegava a hora do último capítulo de Tempo Rei, a turnê de despedida de um dos maiores artistas do nosso tempo e de todos os tempos.
O local escolhido para esse show emblemático não foi Salvador, sua terra natal, ou o Rio de Janeiro, eternamente lindo em “Aquele Abraço”. Mas a cidade de São Paulo, casa dos festivais que o projetaram ao lado de Caetano Veloso e ponto de encontro entre os baianos e nomes como Rita Lee, Tom Zé, Os Mutantes e outros que forjaram a Tropicália no final dos anos 1960.

Como forma de retribuir a escolha, a Terra da Garoa entregou uma noite quente, de clima tipicamente soteropolitano ou carioca, mesmo no início do outono. O calor aqueceu o público, que já começava a tomar o estádio por volta das seis horas da tarde. Entre selfies e goles de cerveja, casais, famílias, jovens e idosos esquentavam os motores para o grande momento.
Mal eles sabiam que a espera seria recompensada com um espetáculo de três horas de duração. Afinal, se o tema era o tempo, o dono da festa não o economizou e fez valer cada minuto. A primeira canção do repertório foi a metalinguística “Palco”. Acompanhado de sua guitarra, Gilberto Gil entrava em cena diante dos fãs paulistanos quiçá pela última vez, perfumando de talco as almas dos cerca de 50 mil presentes.

“Tempo Rei”, música tema da turnê, veio logo, fazendo com que muitos erguessem os celulares para registrar o momento. Ao meu lado, duas garotas que poderiam ser netas de Gil cantavam o refrão a plenos pulmões.
A saudação ao público aconteceu na sequência, com o baiano agradecendo aos fãs e celebrando sua sétima passagem por “Sampa” durante essa turnê. Naquele momento, ali parecia mesmo o melhor lugar do mundo, e a banda emendou o instrumental de “Aqui e Agora”.
Apesar da exaltação à capital paulista, também era preciso relembrar as próprias origens. “Eu Vim da Bahia”, composição de Gil que fez sucesso na voz de seu conterrâneo João Gilberto, foi acompanhada por imagens de Dorival Caymmi, outro célebre baiano, no telão.
E por falar em origens, “Procissão” e “Domingo no Parque” resgataram os primórdios da carreira, fazendo relembrar aquele jovem de cavanhaque, cabelos curtos e sobrancelha marcante que se apresentou ao lado dos Mutantes no Festival da Record de 1967.
O clima de festa teve um breve hiato com “Cálice”. O hino foi antecedido pela exibição de um emocionante depoimento de Chico Buarque, que destacou a postura de seu companheiro de luta e composição durante os momentos mais agudos da Ditadura:“Sempre sereno, como se soubesse que o tempo rei haveria de lhe dar razão”.
O astral voltou a subir com “Back In Bahia”, que embora também ambientada no período militar, aborda o fim do exílio sob uma perspectiva mais otimista, com suas guitarras tipicamente londrinas.“Hoje me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar”.
Após “Refavela” e a história da viagem à Nigéria que inspirou a composição da faixa, o groove afro-diaspórico tomou conta do repertório com os reggaes “Não Chores Mais (No Woman, No Cry)”, “Extra”, “Vamos Fugir” e “A Novidade”.
Durante a releitura do clássico de Bob Marley, as estrelas que Gil observava sentado na grama do aterro se traduziram nas luzes dos celulares, que transformaram a plateia em uma constelação. Nesse momento, o cheiro de talco deu lugar ao aroma de uma planta cujo nome a censura da Ditadura Militar não me permitiria publicar.
Com o show já chegando a duas horas de duração, a guitarra foi substituída pelo violão e Gil sentou-se para orar com “Se Eu Quiser Falar com Deus”. “Drão” veio logo em seguida, antecipando as participações especiais, que foram dominadas pela família e mantiveram o tom introspectivo, quase litúrgico.
A nora Mãeana e o neto Francisco Gil inauguraram o bloco com “Queremos Saber”, do disco ao vivo O Viramundo (1976). Flor Gil acompanhou o avô em “Estrela” e ainda convidou o primo Bento para “A Paz”. Em comum, as três faixas desenham uma espécie de harmonia divina, projetando um universo plácido e utópico no qual o patriarca sonha ver seus descendentes envelhecerem.
O espetáculo parecia se encaminhar para o fim, mas Gilberto Gil ainda tinha cartas na manga: “Esotérico”, “Expresso 2222”, e quando o público já se mostrava cansado, “Andar Com Fé” veio para aumentar a energia novamente.
Seguindo o embalo, os Gilsons (José Gil, Francisco Gil e João Gil) entraram na festa com “Nossa Gente (Avisa Lá)”, do Olodum. No único momento em que o show pareceu ter saído totalmente do script, Bem Gil, com lágrimas nos olhos, dedicou a faixa à sua irmã, Preta, provocando uma reflexão no pai.
“Há uma questão polêmica sobre se foi para algum lugar ou se simplesmente deixou de ser. É uma polêmica irresoluta. O que é objetivo é que nós, que ficamos, ficamos com muita saudade. Pretinha! De qualquer maneira, lá, cá, cá ou lá, com você estaremos sempre”, poetizou Gil.
“Emoriô” coroou o momento como uma saudação à divindade que habita no outro, e ainda houve tempo para um medley de “Aquele Abraço” e “Funk-se Quem Puder” antes do bis.Após uma breve pausa para beber água, Gil fechou o show com “Esperando na Janela” e “Toda Menina Baiana”, mas parecia não querer ir embora.
Depois de se despedir, retornou ao palco durante a reverência da banda e fez questão de entoar alguns versos de “Sítio do Pica‐Pau‐Amarelo”, que tocava nos alto falantes do estádio, enquanto era totalmente ovacionado pela plateia.
Apesar dessa noite ter sido o fim da turnê de despedida, o clima não parece ser de adeus, já que o tempo de Gilberto Gil em cima dos palcos ainda se estende por mais alguns meses. O baiano agora segue para a Europa, onde apresenta o show In Concert em quatro países, e em setembro retorna ao Rio de Janeiro para o Rock In Rio.
Depois, só o tempo dirá, afinal ele é mesmo rei. Mas, ao mesmo tempo, essa lenda de nossa música parece imune ao correr dos ponteiros do relógio, e se depender da sua vitalidade aos 83 anos durante três horas no palco, ainda teremos muito a desfrutar. De uma forma ou de outra, o fato é que Gilberto Gil é e sempre será atemporal, e só nos resta agradecer por compartilhar do seu tempo em nossa vida.













