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Helado Negro fala sobre complexidade da música latina e referências brasileiras; leia entrevista


Por:

Thaís Ferreira

Fotos: Divulgação

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Em 2025, o 7 de novembro provou que nada acontece por acaso. Primeiro, porque foi esta a data do show de Helado Negro na Casa Rockambole, em São Paulo — e também o dia em que Roberto Carlos Lange, cantor e compositor por trás do projeto, lançou seu novo EP, The Last Sound on Earth (os fãs de This Is How You Smile vão se recordar, ainda, que “November 7” é o nome de uma das músicas do disco de 2019). 

Esta foi a segunda passagem do artista norte-americano pelo país, lar de muitas das suas referências musicais favoritas, como João Donato, Gal Costa e Hermeto Pascoal. Da sua estreia por aqui, no Primavera Sound, em 2022, lembra que se divertiu, mas tocou para um público que, em sua maioria, aguardava para ver Interpol e Arctic Monkeys. Três anos depois, o cenário mudou, e os olhos se voltaram todos para Roberto.

Sozinho, passeou e dançou não só pelo palco da Rockambole, mas também pelos seus últimos trabalhos: This Is How You Smile, Far In, PHASOR e o recém-chegado The Last Sound on Earth. Com a amiga Luiza Brina, cantou o hit “País Nublado”. Anteriormente neste ano, os dois já haviam se apresentado juntos em Asheville, cidade da Carolina do Norte, onde ele mora.

Eu cresci dançando


Nos momentos em que estava atrás do teclado, Roberto fazia questão de procurar os olhares da plateia. Já quando as texturas dos sintetizadores tomavam conta do espaço, ele era o primeiro a se movimentar no ritmo da música, como quem se aventura na pista quando ela ainda está vazia, sabendo que, em questão de tempo, não vai sobrar ninguém parado.

Esse balanço, Lange carrega desde seus anos formativos. “Eu cresci dançando”, disse à NOIZE.

“Minha família dançava salsa, merengue. Há muitas canções de salsa que são realmente sombrias, tristes e deprimentes, mas aí você pensa: ‘a música é tão bonita e emocionante’. Sinto que isso é um contraste com grande parte da música latino-americana, onde o foco é falar sobre algo realmente difícil, mas também fazer com que você sinta isso no corpo, e não apenas na mente.”

Filho de imigrantes equatorianos, a música foi uma das formas que Roberto encontrou para manter suas raízes latino-americanas vivas — tanto é que a questão da identidade está espalhada por toda a sua discografia: num dos refrões do disco Private Energy (2016), repete que é jovem, latino e que se sente orgulhoso disso; no clipe de “Hometown Dream”, canção de Far In (2021), resgata vídeos da primeira vez que visitou o Equador com a família; e a foto da capa de This Is How You Smile poderia ser de uma festa de aniversário brasileira, argentina, peruana ou de qualquer outro dos nossos vizinhos.


A vivência nos Estados Unidos, no entanto, adicionou novas camadas às referências que acompanhariam Roberto anos depois. “Eu cresci em Miami, lá tocava muito Miami bass e música eletrônica. Havia tantos remixes tocando nas rádios da época”, contou. “Acho que no resto do país, durante os anos 80, havia muito rock & roll. Mas, para nós, havia muita dance music e eletrônica.”

O último som  


Depois do lançamento de PHASOR, em fevereiro do ano passado, não demorou nem um mês para que Roberto começasse a trabalhar em novas faixas. Isso explica a trajetória prolífica do artista que, de 2009 para cá, lançou mais de dez álbuns e remixou trabalhos de nomes como Devendra Banhart, Jerry Paper e Sufjan Stevens.

Dessa nova leva veio The Last Sound on Earth (2025), inaugurando a parceria com o selo Big Dada, criado em 1997 pelo ex-jornalista musical Will AshonYaya Bey e King Geedorah, um dos pseudônimos de MF Doom, têm trabalhos lançados pela gravadora. O EP é uma tentativa de adivinhar o que você ouviria por último antes de morrer. “Poderia ser qualquer coisa", reflete. “Mas acho que a ideia principal é a esperança de que o som final seja algo que você ame.”

Assim nasceu “More”, música que abre o EP e que também dita a atmosfera do restante das faixas, experimentais e sintéticas, com muitos ecos e distorções. Algumas, como “Protector”, levam o ouvinte para um caos controlado, numa sonoridade que conversa com a de The Eraser, do Thom Yorke. Enquanto “Zenith”, sem vocais, é a que mais transmite a incerteza do fim. 



Durante a feitura de The Last Sound on Earth, Roberto deixava passando de fundo o filme Wavelength (1967), dirigido por Michael Snow. Fundamental para o cinema estrutural, a produção evoca diversos sentimentos em que a assiste: ansiedade, apreensão e a aceitação de não saber algo. Isso porque, ao longo de 45 minutos, não acontece muita coisa. Tudo que o espectador tem é a visão de um cômodo, que não sabe onde é e nem a quem pertence. E esse ponto de vista cada vez mais se aproxima, com um zoom que não tem pressa de desvendar nenhuma das perguntas que surgem ao longo do tempo. 

“Quando estava pensando no Michael Snow, estava pensando muito no sentimento e na atmosfera do filme. Em vez de ser tipo ‘aqui está uma música que vai te fazer sentir algo que você conhece’, eu queria que a música fizesse a pessoa sentir algo que ela não conhecesse”, explicou. “No EP, as músicas não seguem um formato verso, refrão, verso, refrão. Elas são guiadas por sentimentos e moods.”


Além do que é desconhecido, o EP também reserva espaço para outros temas. Tecnologia é um deles. Em “Sender Receiver”, Roberto questiona os termos musicais que refletem os traços racistas e opressores ainda presentes na linguagem.

“Existem palavras na música e na tecnologia que dizem coisas como ‘mestre’ e ‘escravo’. E, ao ligar duas máquinas que se conectam para criar música, isso é realmente estranho”, fala sobre a construção linguística para representar uma relação hierárquica. “Gosto da ideia de as coisas serem como um emissor e um receptor, transmissoras e receptoras dessa troca. É mais aberto.”



No Instagram, Roberto compartilhou que esse jeito de ver as coisas se relaciona à visão de mundo do escritor vietnamita-americano Ocean Vuong. “O título [‘Sender Receiver’] reflete minha esperança de também criar uma linguagem positiva. Lembro-me de ter lido e ouvido algo escrito por Ocean Vuong sobre como nossa linguagem pode ser violenta no mundo e para nós mesmos, e fiquei comovido e inspirado, pensando em como posso interromper minhas próprias palavras para experimentar novas”.

É num tom mais positivo que The Last on Earth se encerra, com “Don’t Give It Up Now”, faixa em que Roberto canta “não desista agora” quase como um mantra. Se esse fosse o último som da Terra, ele seria um lembrete como aquele que Vuong faz no nome do seu romance de estreia: sobre a terra somos belos por um instante.

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Thaís Ferreira

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