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Biógrafa de Bituca compartilha curiosidades do ídolo, de discos a programas de TV favoritos


Por:

Vitória Prates

Fotos: Reprodução

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Para a jornalista Maria Dolores, Milton Nascimento sempre foi Bituca, filho de seu Zino e dona Lili. “Sabe quando a gente conhece a pessoa e nem imagina que ela é tão famosa assim?”, lembra a autora do livro Travessia: A vida de Milton Nascimento (2006). “Sabia que ele era autor de ‘Coração de Estudante’, o encontrei diversas vezes na infância, mas não conhecia seu repertório profundamente e nem o que ele representava para a música nacional”. 

Reeditado em 2022 para celebrar os 80 anos do artista, o livro ganhou um posfácio e a autora retornou a um dos projetos mais importantes da sua carreira. Nascida em Três Pontas, Maria cursou Jornalismo na UFMG, em Belo Horizonte. Para o TCC, escolheu fazer um livro-reportagem, mas faltava o tema. 

Com saudade de casa, decidiu olhar para a cidade natal. Cavando a história da cidade, encontrou três temas que chamaram sua atenção. O café, o padre Victor –  o primeiro padre negro do Brasil  – e, claro, Bituca. “As nossas famílias são próximas. Minha mãe é amiga da irmã do Milton, a Jajá [Jaceline]. Três Pontas é pequena, no início dos anos 2000 era menor ainda [risos]”, lembra. 

No entanto, ao apresentar o projeto de pesquisa, enfrentou resistência dos professores, que a subestimaram. “Diziam que eu era muito nova, que era coisa para quem tinha 40 anos. Se eu fosse escutá-los, estaria esperando até hoje [risos]”. 

Mesmo com as famílias próximas, ela decidiu seguir o “caminho profissional” e ligou para a empresária do cantor na época, Marilene, solicitando uma conversa para explicar a proposta. A resposta demorou, mas a oportunidade veio durante a Copa do Mundo de 2002, quando Milton foi assistir a um jogo na casa da mãe de Maria. 

“Esperei uma brecha e falei: ‘Bituca, estou fazendo meu TCC sobre você, me dá uma entrevista?’. E ele disse: ‘Dou’".  Na primeira entrevista, já explicou que não era só um TCC, mas uma biografia, e ele topou continuar. Nunca se recusou a dar uma entrevista e ainda se apresentou no lançamento do livro. 

Para contar essa história, a jornalista deu um passo atrás e começou as entrevistas pelo pai do cantor, Josino Brito: “Durante um mês, fui todos os dias à oficina de eletrônica dele, onde funcionava o fã-clube do Milton. Pensei: ‘Essa história é um romance pronto, só precisa ser colocado no papel’”. 

Até aquele momento, o único livro sobre Milton era Os Sonhos Não Envelhecem (1996), de Márcio Borges, mas cuja narrativa focava na época do Clube da Esquina (1972). Com 24 anos, ela assumiu o desafio: “Eu vou escrever a biografia do Milton Nascimento”. Depois de entregar o projeto de conclusão, ela ficou quatro anos imersa na obra, reunindo 100 entrevistas com o cantor e mais de 70 fontes, que vão de Caetano Veloso até familiares. 

Um dos encontros mais marcantes foi com Chico Buarque. Ao abrir a porta, ele perguntou: “Cadê o fotógrafo?”. Ela respondeu: “Não tem fotógrafo, preciso de entrevista, não de foto”. Isso o desarmou. Ele passou um café e os dois conversaram no dia do aniversário de 25 anos de Maria. “Tenho o parabéns gravado!”. 

Quase todo mês, ia ao Rio de Janeiro e passava alguns dias com Milton, além de acompanhá-lo em shows, gravações e na vida fora dos palcos. A pesquisa resultou no livro cronológico, que tenta revelar quem é o homem fora dos palcos, dividindo os seus medos com o público e a sua timidez na vida pessoal. 

A biografia resgata os padrinhos musicais do artista, os clubes que frequentou, as esquinas que o formaram e destacam a genialidade musical daquele que nunca se viu como gênio. Durante o processo de apuração, Maria contou com três aliados: Jacaré, primo do Milton; Marilene, detentora de um grande acervo em mídia física; e Jorge, primo historiador, que instalou um programa de pesquisa em jornais em seu computador, além de, claro, os próprios entrevistados. 

“Os conhecidos de Três Pontas e Belo Horizonte foram os que mais me ajudaram a formar o retrato de Milton. Com os famosos, eram informações que eu conseguia buscar por conta própria, mas com os anônimos, cada entrevista era uma descoberta”, explica.

Já com Milton, cada encontro era único. “Às vezes, ele dizia: ‘Hoje não vamos conversar, vamos escutar música’. Uma vez, tocou Duran Duran por horas. E sempre, após as entrevistas, víamos um episódio de Law & Order”, lembra, com carinho. 

“O Milton é um artista como poucos. É um gênio, dono de um talento natural para ele. Seria um gênio se tivesse nascido no Brasil ou na China porque é um dom, mas o Bituca só é o Bituca porque cresceu em uma cidade no interior de Minas Gerais. Nas músicas de Milton identifiquei Minas Gerais”, resume a autora. 

Como a geografia mineira faz parte do DNA do seu trabalho? Mesmo tendo nascido no Rio de Janeiro, Milton mudou-se ainda criança: “Essa característica é muito presente em toda sua obra, dos vocais à melodia. Tudo isso só é possível porque ele cresceu em Três Pontas, uma cidade conservadora, mas muito rica em amizade e música. É uma obra atual, ampla e que representa o Brasil. É sofisticado e popular ao mesmo tempo”, reflete a jornalista. 

Hoje, aos 47 anos, Maria trabalha com produção cultural e organiza festivais de jazz e blues pelo Brasil. Chegou a trabalhar na turnê de ...E a Gente Sonhando (2010), último álbum de inéditas do cantor. Após o livro e a turnê, ela e Milton não mantiveram mais contato. Se pudesse encontrá-lo hoje, ela sabe o que perguntaria: “E aí, Milton, tá bão?”. 

Por:

Vitória Prates

Fotos: Reprodução

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