Pop diferentão: as novas linguagens sonoras do estilo no Brasil

27/03/2025

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Por: GG Albuquerque

Fotos: Divulgação/Rodrigo de Carvalho

27/03/2025

O Brasil foi palco de uma onda de democratização da internet e do mundo digital no início dos anos 2000. O governo federal implementou, em 2005, uma política de isenção de impostos (PIS e Cofins) de computadores de até R$ 2.500. O efeito dessa medida foi quase instantâneo. De acordo com dados do IBGE, no ano de 2001 apenas 12,6% das famílias brasileiras tinham computador em casa. Em 2006, um ano após a medida do governo, a porcentagem cresceu para 22,4% — quase o dobro. Esses números continuaram crescendo na década seguinte. Dados da pesquisa Data Favela revelaram que em 2013 a venda de smartphones no Brasil cresceu 122%, sendo que 58% dos aparelhos no país estavam nas mãos das classes C, D e E — que, por sua vez, também possuíam 60% de todos os computadores do país e 46% dos tablets. 

Esse movimento econômico em torno da internet e dos eletrônicos se desdobrou na música. A popularização dos computadores — ao lado do aumento do poder aquisitivo, das dinâmicas das redes sociais e a difusão das DAWs (Digital Audio Workstations, os programas de criação de produção musical e criação de beats) — estimularam a formação de estúdios caseiros por todo o país e ajudaram a disseminar estilos musicais que corriam por fora da indústria fonográfica. As ferramentas de produção musical, antes dominadas pelas elites, se espalharam por estúdios caseiros que permitiram aos artistas um maior conhecimento das técnicas de gravação. 

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“O grande acesso às DAWs mudou tudo na forma de fazer música”, sentencia Chibatinha, guitarrista e compositor da banda Àttooxxá. “Antigamente, você precisava ir para um estúdio de gravação se quisesse fazer sua música. E nem todo mundo tinha esse dinheiro para pagar a hora do estúdio, que era caríssima. Hoje, basta ter o básico ali, que é um computador, a interface de áudio, um monitor ou um fone. Muita coisa está nascendo assim. O primeiro álbum do Àttooxxá, Black Bang, nasceu no quarto de RDD”, diz ele lembrando do início da banda com o parceiro Rafa Dias (que passou a assinar como RDD). 

Além da maior acessibilidade, os estúdios caseiros deram mais espaço para os produtores e beatmakers participarem ativamente dos processos criativos da música. Para Moi Guimarães, músico e produtor que trabalha com o MC Neguinho do Kaxeta, com a cantora pop Glória Groove e com Rico Dalasam, a disseminação dos home studios no Brasil e no mundo fez “o jeito de se fazer música ficar mais ‘facilitado’ e certamente aproximou muito mais os artistas dos produtores. Essa aproximação certamente inclui uma voz mais ativa dos produtores em cada obra”.  

Pop estranho

Chibatinha, Rafa Dias e Moi fazem parte do time de produtores convocado por Rico Dalasam para construir o universo sonoro de Dolores Dala Guardião do Alívio (2021). O cantor conectou-se com uma rede de diferentes produtores, com assinaturas musicais particulares, para dar vida a um “pop estranho e global”, como ele definiu em entrevista ao site PapelPop

O tal “pop estranho” diz respeito tanto à sonoridade quanto ao processo criativo do álbum, que foi propositalmente mais lento, coletivo e natural. “Musicalmente falando, a nossa proposta era ser o ponto fora da curva do pop, repensar essa a lógica simplista que a gente acompanha — como as fórmulas do tipo ‘vai por aqui que vai dar certo’. A gente resolveu correr desses clichês e só se entregou ao processo. Mergulhamos em pesquisa, em referências”, contextualiza o produtor Digroove (nome artístico de Dinho Souza), um dos mais atuantes neste álbum.

Influenciado pelo afrobeat e outras músicas de matrizes africanas, ele conta que, ao lado de Rico, buscou experimentar com elementos da brasilidade, ouvindo desde o samba chula do Recôncavo Baiano ao pagode baiano, passando por vídeos de romarias ao afrobeat eletrônico. Esse mergulho teve um impacto direto no modo de compor as faixas do álbum. “Foi quando tiramos a caixa [eletrônica] da música ‘Braille’ e colocamos o som de um pandeiro. Tiramos o grave da [bateria eletrônica] 808 e colocamos um surdo. São timbres similares, mas que são muito nossos”, destaca. 

Outro exemplo é a música “Vividir”, que surgiu quando Dalasam começou a cantarolar melodias inspiradas em lamentos sertanejos e veio a ideia de conectar a melancolia desse canto ao funk. Digroove — que, além de Rico, trabalhou com Neguinho do Kaxeta, Cynthia Luz, Bia Galeano, Yudi Tamashiro e até com música gospel —  relembra. “Ele estava cantando e brincou: ‘Imagina você dançar uma música com essa tristeza?’ E daí ficamos imaginando isso. Como seria dançar uma música com uma melodia triste e notas menores? Eu pelo menos não tinha experimentado isso. Aí veio a ‘Vividir’. Criamos uma batida de funk e ele começou a cantar com aquela mesma tristeza que ele tava cantando antes. A gente foi pegando, se apropriando de elementos e fazendo isso acontecer por um curso natural”, detalha.

Essa busca por elementos brasileiros a fim de construir uma outra gramática da música pop atravessa o trabalho de diversos produtores, não só no álbum de Dalasam. É quase como um esforço coletivo de construir nossa identidade — tanto a nível local quanto internacional. Anitta, por exemplo, buscou os rapazes do Àttooxxá para trazer a força do pagodão no feat com Cardi B “Me Gusta”. Ludmilla também fez o mesmo em “Pra te Machucar”, uma parceria com Major Lazer.

Para Chibatinha, a construção de uma música pop nacional passa pela criatividade das cenas musicais das periferias. “O Brasil tem um tamanho continental e cada região tem seu estilo, mas é notório que a música pop do país tem algo em comum. São na maioria das vezes culturas oriundas dos guetos e periferias e com pessoas que cantam e transmitem sua verdade e vivências nas suas músicas em gêneros que vão ganhando destaque como o pagodão, funk, pagode, bregafunk, pisadinha, tecnobrega/tecnomelody”, afirma.  

“Eu, gayzinha, lembro que, quando tentaram fazer umas dance music para as bicha, era uma dance music mais inspirada no que rolava num pop internacional, zero Brasil. Tanto que muitas vezes era cantado em inglês”, analisa Pedrowl, que em seu trabalho aciona influências do funk aliadas ao repertório das divas do pop, tendo assinado a produção do álbum Rito de Passá (2019), da MC Tha. “Eu acho demais essa mistura de pop com os ritmos brasileiros. Não tem mais aquela coisa de ser tipo a Beyoncé brasileira. Mesclamos e deixamos as coisas do nosso jeitinho brasileiro, assim”, diz ele, que em DDGA trabalhou na faixa de encerramento “Estrangeiro” e no interlúdio “Outros Finais”.

Mahal Pita produziu “Mudou Como?”. Em sua trajetória, ele já foi colaborador do BaianaSystem responsável pelos eletrônicos, além de ter atualmente seu projeto solo Metadatah e ter trabalhado com o cantor Giovani Cidreira e a banda Afrocidade em seu novo EP. Para o músico baiano, o pop possui uma conexão íntima com a memória e uma lógica ancestral. “Eu não estou falando de um ancestral de cinco mil anos atrás, mas sim de uma ideia de memória e ancestralidade enquanto Big Data. O que é o popular? É o que você lembra que já aconteceu e funcionou, né? Por exemplo, não existe você fazer uma roda de samba chula e ninguém dançar. Isso é uma memória. Aquele som toca e ativa seu córtex pré-frontal, que relembra as coisas. Seu corpo se lembra que aquilo é pra dançar e você dança. Eu entendo o pop assim, para além do Michael Jackson, da Madonna, do gênero musical.  Por isso quando eu falo de pop dentro de uma música racializada, basicamente eu tô falando em se lembrar ou colocar memórias afetivas. A gente tá desenvolvendo essa música pop, mas ela vem lá de trás. Não existe música pop nova”, reflete.

Produtores musicais sempre tiveram papel importante na música — seja nas orquestrações de alguém como Quincy Jones, no comando das batidas como Dr. Dre ou atuando em processos mais próximos da engenharia de áudio, como a técnica do “wall of sound” de Phil Spector ou os remixes de Lee “Scratch” Perry. Mas apesar dessas estrelas, esse profissional não costumava ser muito conhecido pelo público e era visto apenas como um trabalhador “técnico” e impessoal.

Esse panorama vem mudando nos últimos anos. Produtores musicais brasileiros estão se tornando conhecidos pelo público — como é o caso de Badsista, JS O Mão de Ouro, DJ Ivis, Pedro Sampaio, Papatinho e outros — como também interferem mais diretamente no resultado da música, assumindo o posto de criadores. Um bom exemplo é “Outro Rolê”, último álbum do rapper mineiro FBC que foi creditado igualmente ao MC e ao beatmaker Vhoor.

O beatmaker e cantor Netto Galdino, que no novo álbum de Rico Dalasam participou da faixa “Supstah”, aponta que essa maior visibilidade e reconhecimento do produtor se dá “porque tem mudado muito o jeito de fazer música”. Ele continua: “Hoje em dia, qualquer pessoa consegue produzir sua música de casa, usando apenas o computador. Isso fez com que o produtor se tornasse a banda inteira.

Ele consegue gravar todos os instrumentos sozinho em casa, e sendo uma banda inteira é muito mais fácil colocar o nome dele no marketing, como cabeça da música. O produtor acabou virando um pouco de tudo: produtor musical, arranjador, alguém que dá dicas sobre a música… Vira parte da música mesmo. E por isso que cada dia mais está crescendo”.

“Acho que essas pessoas que estão conquistando mais nome estão desbravando um caminho”, diz Digroove. Para ele, ainda é preciso criar uma legislação que defenda melhor o trabalho dos produtores em questões de direitos autorais.

“Eu acho que os produtores que estão na mídia, que tem o nome conhecido pelo público, são pessoas que se enxergaram como artistas e foram atrás de fazer seus nomes valerem. E isso é um papel fundamental! Não é desmerecendo a parte técnica da música, mas, falando em direitos autorais, o pessoal que é assalariado trabalhando em um estúdio é diferente de um autônomo que senta com o artista pra fazer um trabalho e prepara o artista. Porque tem uma legislação que defende uma CLT, mas não tem uma que defenda a autonomia de um produtor autônomo. Eu sempre falo: a música sem a letra é só uma trilha, e a letra sem a música é só uma poesia. Então não dá pra desprezar nenhum dos aspectos. Os dois são essenciais. Tão essenciais que as divisões devem ser iguais”, defende.

Mahal Pita conta que foi assumindo o trabalho de produtor sem perceber. “Eu não venho de uma escola do Quincy Jones ou do Dr. Dre. Eu faço música e quando eu vi, eu tava muito mais no papel de organizar, de reger o processo do que de um instrumentista. Agora estou fazendo a transição de alguém dos bastidores para uma carreira solo”, conta. Ele associa a recente alta na visibilidade do produtor a um contexto mais amplo de decolonização do mundo e do pensamento. “Quando a gente fala de o produtor vir à tona, basicamente a gente está falando de uma democratização do processo. Vivemos em um país onde quem constrói os prédios não entra neles.

O cara é pedreiro e não tem casa própria. Então, essa coisa do produtor musical aparecer mais hoje eu sinto que é uma centelha de democratização. Ou talvez uma primeira fissurinha na ideia vertical do que é a música — no estatuto do cantor, da estrela, da musa. Do tipo: galera, vamos perceber que a cadeia é maior, não tem só o cantor. Meu esforço é para que a gente volte lá nos anos 60 e 70 e veja o engenheiro de som também como um grande cara importantíssimo. Só que a gente está na pré-história da democratização da música. Estamos no produtor, já desceu um pouquinho mais. Daqui a pouco vai descer um pouco mais e vai chegar um momento em que ser roadie vai ser explicitamente super importante. Como no cinema: não é só o diretor que é foda, tem o diretor de arte, tem a diretora de fotografia, tem toda a cadeia”, conclui.

Esta materia foi publicada originalmente na edicao da Revista Noize que acompanha o vinil “Dolores Dala Guardião do Alívio”, de Rico Dalasam, lançado em 2021.

27/03/2025

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