
Na virada do ano, a MTV encerrou seus canais de exibição de videoclipes 24 horas no Brasil, Austrália e em algumas partes da Europa, ainda que tenha se mantido ativa nos EUA. Notícia triste para os fãs de música, mas esperada por quem acompanha o declínio dos videoclipes na TV. A emissora, que nasceu como canal de música, foi perdendo a centralidade à medida que o público migrou para o digital.
Com Youtube, Spotify e TikTok, o clipe deixou de depender da grade televisiva para existir. O mercado não é o mesmo de anos atrás, mas para uma geração criada pelo canal, os clipes deixaram sua marca no imaginário. É o momento de ver sua música favorita ou do hit do momento tomando forma em um trabalho audiovisual.
Com a popularização do Youtube — e a possibilidade de investir em formatos visuais ainda maiores — artistas continuam investindo no videoclipe. É o caso do disco-filme Eita (2025) de Lenine, Renaissance (2022), de Beyoncé e até “Girls Like Girls”, de Hayley Kiyoko, que, 10 anos após seu lançamento, ganhou livro e um filme a caminho.
O clipe não morreu, mas se transformou, expandindo narrativas audiovisuais. Se a MTV foi a promotora da “Era dos Videoclipes”, hoje o bastão passou para outros e vive bem em outras plataformas, dos 13 minutos de “Thriller” de Michael Jackson a “Welcome to the Black Parade”, My Chemical Romance e “Wrecking Ball”, de Miley Cyrus.
Buscando apreciar música também com os olhos, a Ginga Pictures, produtora fundada por Felipe Britto e Mel Chapaval em 2021, traz no currículo colaborações com Anitta, com quem colaboram, há mais de uma década; também Karol G, Sam Smith, Pedro Sampaio, Luísa Sonza e Maluma.
Além dos videoclipes, a Ginga também trabalha com comerciais, filmes e programas de televisão para diferentes marcas. Em 2022, a dupla venceu o VMA, se consagrando como os primeiros brasileiros a conquistarem este feito, por “Funk Rave”, de Anitta.
“Cada clipe acaba sendo um exercício de equilíbrio entre tempo, escala e identidade artística”, resume Felipe. Em entrevista à Noize, Felipe Britto e Mel Chapaval revisitam cinco clipes que marcaram as trajetórias da produtora, seja pelo desafio técnico, pela virada estética ou pelo contexto.
“Boys Don’t Cry” — Anitta
“Boys Don’t Cry” foi um dos projetos mais marcantes para nós, porque representou um salto estético e narrativo na videografia da Anitta. Entramos em um universo cinematográfico com referências a Beetlejuice (1980 - Tim Burton) Mad Max (1979 - George Miller) e terror clássico, o que exigiu uma produção extremamente detalhada e uma costura fina entre arte, maquiagem e efeitos visuais.
O desafio maior foi conciliar um cronograma de filmagem apertado com uma quantidade gigantesca de setups complexos e locações diferentes. Acabamos fazendo as fotos do clipe antes para termos tempo de enviar o material de divulgação porque a filmagem ficou muito perto da estreia e a pós foi muito corrida.
“Funk Rave” — Anitta
“Funk Rave” é um divisor de águas para a Ginga. Além de ter rendido o primeiro VMA de uma produtora de sócios brasileiros, foi um projeto em que pudemos explorar a essência do funk a partir de uma estética global, sem perder a autenticidade e a força. O diferencial foi construir uma atmosfera que unisse energia crua, movimento e narrativa visual impactante, com uma equipe enorme e locações desafiadoras. A complexidade logística foi enorme: filmamos na Tijuquinha, cercados de fãs.
“Tá OK” — Karol G, Maluma, Dennis & Kevin o Chris
Esse clipe foi um grande encontro de universos: funk brasileiro, pop latino e reggaeton. O clipe foi aprovado numa quinta feira para filmar domingo: tivemos que levantar tudo do zero em tempo recorde e coordenar a colaboração entre equipes de diferentes países. O desafio estava em fazer tudo estar criativamente amarrado, mesmo com tantos elementos e locações diferentes.
“Perversa” — Pedro Sampaio & J Balvin
“Perversa” nos permitiu trabalhar numa linha estética ousada, seguindo uma linguagem do mundo digital. Foi um clipe em que trouxemos soluções criativas para conseguir contemplar a limitação de tempo com os artistas sem comprometer a entrega e, ao mesmo tempo, incorporar Austin como o backdrop do clipe, para explorarmos a oportunidade da filmagem em uma cidade tão única e esteticamente diferente dos outros clipes do Pedro.
“Dançarina” — Pedro Sampaio, Anitta, Nicky Jam & Dadju
Produzir “Dançarina” foi acompanhar um hit nascer com força global. Cada artista trouxe um recorte cultural diferente, e o clipe precisava abraçar essa mistura de Brasil, Caribe e Europa. O diferencial desse projeto foi a escala: várias unidades de filmagem, países e coordenações simultâneas em tempo recorde.
A logística foi intensa, mas a troca criativa entre os artistas fez o processo ser leve e muito divertido. É daqueles clipes que traduzem exatamente o que a Ginga mais valoriza: multiculturalidade, globalização, música, ritmo e colaboração.















