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Sandra Sá conta como largou a psicologia para viver sonho da música


Por:

Ariel Fagundes

Fotos: Rafa Rocha

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Celebrando 71 anos de idade, Sandra Sá lançou em agosto seu novo EP, Indo pra Dentro, mostrando que está mais ativa do que nunca. Para comemorar a carreira de uma das nossas grandes cantoras da soul music brasileira, relembramos a entrevista que fizemos com a artista durante o relançamento de Sandra Sá (1982) em vinil, pelo Noize Record Club, um dos grandes sucessos da discografia da artista. Confira abaixo:

Antes de se tornar uma das cantoras mais famosas do país, Sandra Sá nunca havia pensado em trabalhar com isso. Ela queria ser psicóloga. Durante sua juventude no Rio de Janeiro, a música era vista como o ar que se respira: algo fundamental, mas tão corriqueiro que nem chama tanta atenção. No entanto, tal qual o oxigênio, a música corria em suas veias, e chegou um dia em que todo mundo se deu conta disso. 

Incentivada por amigos, como a atriz e compositora Fafy Siqueira, Sandra começou a tocar em festivais no final dos anos 1970. Certa vez, Leci Brandão a viu e resolveu gravá-la, mas nem assim a jovem se convenceu de que estava iniciando uma carreira musical. Sua prioridade era terminar o curso de Psicologia, mas não foi possível. Três anos após estrear como compositora, ela já havia se tornado uma estrela, vendendo centenas de milhares de discos. 

Quando gravou o seu segundo LP, Sandra Sá (1982), ela ainda estava tentando entender o turbilhão que havia revirado a sua vida. Suas músicas não paravam de tocar. Estava rodeada por seus ídolos, como Cassiano, Tim Maia e a Banda Black Rio. Subitamente, Sandra se transformou na voz feminina mais importante do cenário de funk e soul do país.  

Nestes primeiros anos como artista profissional, Sandra estava à deriva, como ela mesma define na entrevista que segue. Seguindo o balanço e guiada por sua espontânea ousadia, ela conta que estava aprendendo, naquele momento, a navegar no meio artístico sem jamais abrir mão de si mesma. 

Sua família sempre teve muitos músicos, como foi crescer neste ambiente?

Não sei até que ponto isso me influenciou, porque o meu lance não era ser cantora. Eu vivia no meio de músicos e achava natural isso, achava estranho as famílias que não tinham música. Lá em casa, era uma vila, minha avó morava na frente e os filhos moravam nas casas de trás. E a minha avó fazia questão de que, quando os filhos saíssem e voltassem, pedissem a benção. Então, chegava um filho pra pedir a benção e já ficava lá conversando, aí chegava outro. Na sala, tinha uma vitrola, que todo mundo se reunia perto, aí botavam um disco, ou pegavam um instrumento. 

Música, pra mim, era como respirar. Era muito normal. Meu pai tocou numa banda, Danilo e seu Conjunto, e o ensaio era lá em casa. Tinha festas lá em casa. E era música ao vivo, o pessoal tocava. Tinha uma caixa d’água e, em cima da caixa d’água, era o palco. Com os meus tios, eu ouvia Renato e Seus Blue Caps, Fevers, Temptations, Tim Maia, Cassiano. Com a minha avó, Lana Bittencourt, Angela Maria. Aí comecei a ouvir Beatles, Rolling Stones. Ao mesmo tempo, Sarah Vaughan, Billie Holiday, Earth, Wind & Fire. Era música o tempo inteiro. Mas eu queria ser psicóloga. Só me dei conta dessa parada de arte quando eu já devia ter uns três anos de carreira. Até então, eu estava meio à deriva. Mas sou muito orgulhosa e gosto muito de ter chegado assim. 

Mas antes de ser conhecida, você teve um grupo chamado Mayra, não?

Eram uns amigos que eu tinha, o nosso lance era um tanto religioso. A gente era da Eubiose, Rosa Cruz, e o lance era com esse povo. A gente ficava tocando, ia em orfanatos, em casas de idosos. Não era pra ganhar dinheiro, a gente queria falar para as pessoas o que a gente pensava da vida. E era justamente o que eu penso até hoje. Falar do respeito, do amor, mas não: “Ah, paz e amor”. Falar de sentir, de não ter medo de ser amor, não ter medo de ser feliz. Encarar as paradas. Mas não era uma banda, cada um cantava uma música e todo mundo acompanhava. 

Tem um vídeo de 1977, em que a Leci Brandão fala assim: “Eu vou lançar uma compositora que também é aluna da Gama Filho, que é a Sandra Sá. Uma moça que faz psicologia, é compositora, participou de vários festivais e até hoje não teve uma música gravada. E eu vou gravar a música da Sandra que chama-se ‘Morenando’”. E aí ela canta a música. Como foi seu começo na música profissional? 

É, a primeira foi a tia Leci, que gravou essa música minha. Foi o seguinte, quem me botou na vida foi a Fafy Siqueira. Quando cheguei na universidade, me inscrevi no Núcleo Artísticos e Culturais, pra fazer teatro, expressão corporal, e o Ney Ayan me via sempre com o violão na mão. E começou a me instigar: “Você deveria ir na gravadora”. E eu falei: “Oh brother, não tô a fim”. Eu não queria mesmo, mas tanto o Ney insistiu que eu falei: “Tá bom”. Nessa, eu conheci a Fafy, e ela tinha um grupo, que era a Joanna, Sarah Benchimol, Olavo Sargentelli, Solange Boeke. Foi aí que eu comecei a participar de vários festivais, a Fafy que me inscrevia. 

Numa dessas, a Leci estava de jurada, conhecia ela, e, resumindo, a tia Leci gravou o “Morenando”. Logo depois, por causa do encontro com a Lucinha Araújo, mãe do Cazuza, fui parar no festival [Festival da Nova Música Popular Brasileira - MPB 80]. O Durval Ferreira estava produzindo a Lucinha e chamou todo mundo pra ir na casa dela, para os autores mostrarem suas músicas pra ela. E a gente é bobo pra caralho, né? Eu só queria tocar música cheia de aranha [acordes difíceis], altas melodias, e a Fafy e a Solange no meu ouvido: “Toca ‘Demônio Colorido’” [murmurando]. E eu: “Não, cara… ‘Demônio Colorido’ é três acordeszinhos, um refrão bobo. Fiz a música doidona, estava bebaça, nada a ver”. 

No final, elas falaram: “Toca ‘Demônio Colorido’!” [gritando]. Aí todo mundo parou. Quando toquei, cara... O João Araújo [pai de Cazuza e executivo da gravadora Som Livre] falou: “Essa música tem que estar no festival, hein”. E eu falei: “Cara, seguinte, tenho um monte de coisa pra estudar, tenho prova pra fazer... Não vou ficar em fila de festival da Globo, não!”. Aí a Fafy e eles falaram: “Então, grava só um K7 pra gente, pode gravar em casa”. Eu gravei, e a música foi classificada. 

Como era sua relação com a faculdade?

Desde pequena, o meu lance era ser psicóloga. Fiz até o nono período. Eu iria me formar no final do ano, aí rolou o festival [MPB 80] em maio, e aí dançou. Eu só saí da Psicologia em 1980 por causa do festival. Ainda quis voltar, mas não deu, não. Porque a música explodiu, comecei a viajar e, quando dei por mim, não estava indo à faculdade. 

“Demônio Colorido” ficou entre as finalistas do festival MPB 80 e foi uma das músicas mais tocadas daquele ano. Como foi esse estouro?

Tinha a classificação [para o festival], no teatro Fênix, e, depois, você ia para o Maracanãzinho [onde foram as finais]. Mas, antes do Maracanãzinho, você já gravava um compacto simples. E a música explodiu, o compacto simples começou a vender pra caralho. Por isso, gravei o LP [Demônio Colorido (1980)] em seguida. Quando eu gravei o LP, o “Demônio Colorido” já estava estouradaço. O arranjo era da Black Rio, e é um reggae brazuca, com swinguinho, muito foda. 

Em 1980, a cultura do funk e do soul já tinha uns dez anos no Brasil. Como estava esse cenário quando você apareceu, como era esse mercado? 

Nessa época, e eu tenho uma certa saudade, não tinha muito esse papo de mercado. Brother, a música preta estava alastrada nos bailes. E era um lance de verdade. Eu ia aos bailes, quando era pequena, com meu tio, e era uma porrada de gente, mais de mil pessoas dançando junto. Você ia no Renascença, no Nova América, no Vera Cruz, no CCIP de Pilares, no River, era muito baile. E a crioleba toda impecável, toda cheirosona, vestidaça, e dançando. 

As pessoas e a música eram muito de verdade. Ninguém estava fazendo porque aquilo fazia sucesso. E eu acho que era por isso que a gente conseguia se amar e ser feliz no baile.

As pessoas iam pra dançar, por que era gostoso dançar? Porque era tudo muito de verdade. Não era tipo: “Porra, é só isso que está tocando no mercado e a gente é obrigado a ouvir”. De repente você não quer ouvir, mas é só aquilo que toca. Essa coisa restringe muito as pessoas. 

Você acha que o cenário musical era mais plural na época?  

Cara, não só plural, era mais democrático. Era mais de verdade, eu prefiro dizer isso. Era mais sentimento, mais emoção. Não tinha aquele lance: “Vou compor assim porque fulano fez assim e deu certo”. Aí fica um pastel, tudo igual, as vozes todas iguais, os arranjos todos iguais, tudo. Tem coisa que você ouve no rádio e fala: “Quem será que está cantando?”. Isso priva o povo de conhecer muita coisa. Nessa época, brother, lá no morro do Guarabu, a galera lavava carro cantando Djavan, Chico Buarque… Por que não? 

No rádio, você ouvia de tudo. Por que só um lado tem que ser feliz? Por que um tem que ser o certo e o outro tem que ser o errado? Na hora em que a gente se respeitar, todo mundo vai curtir tudo.

Todo mundo vai fazer sucesso. Todo mundo vai ganhar dinheiro. Todo mundo vai tudo. 

Várias cantoras já tinham cantado soul e funk, desde Evinha, Claudia, Gal Costa, mas não havia uma cantora que fosse famosa especificamente por esse estilo musical. Pode-se dizer que você foi a primeira?

Pra ser altamente sincera, é o que eu sinto. A parada é que eu sempre fui focada em mim, brother. Até hoje, eu penso: “Quero fazer essa parada assim”, e vou começando. “Ah, mas como é que você pretende fazer?”. “Não sei, vou fazendo pra ver o que vai dar”. Igual quando estava grávida: “Você está preparada pra ter um filho?”. “Não sei, nunca tive um filho, como é que vou saber se estou preparada?”. Porque é outra coisa na prática. Então, sou muito assim, das coisas irem se desenvolvendo, irem acontecendo. Eu vou sentindo. E outra coisa, não sou uma pessoa que diz: “Ah, eu gosto de funk e de soul”. Eu gosto de música. De uma música, posso fazer o que quiser. Posso pegar um samba e fazer um funk. Posso pegar um funk e fazer um tango. Brother, a música está aí, é só deixar ela achar a gente. 

Eu não tenho medo de ousar e chegar junto. As coisas, nessa época, ainda eram meio tímidas, então, a parada das mulheres ainda era meio assim... Cara, era eu no meio de 13, 14 homens.

Porque era eu e a Black Rio, às vezes ainda juntava Tim [Maia], Cassiano, Lincoln [Olivetti]. Às vezes, na madrugada, eu olhava e estava eu e 300 e tantos homens em volta. Agora está bem melhor, mas, nessa época, digamos que as mulheres eram mais recatadas. Era aquele lance do medo: “O que vão dizer?”. Porra, brother… Outro dia, alguem falou assim: “Foi incrível, você entrar no Maracanãzinho, com aquele cabelo black curtinho, de terninho”. Aí eu fiquei: “Uai?”. Mas, realmente, pensando, foi uma ousadia. Mas eu não pensei em fazer aquilo pra ousar. Eu fiz porque era o que eu queria fazer. 

Você causou um impacto enorme desde que começou, sendo esta mulher, neste lugar, com este discurso. Você já surge como uma figura importante pra identidade da população negra no Brasil. 

É, eu acho que a verdade e o respeito são as paradas. Se liga nesse lance: a verdade e o respeito principalmente a si próprio. Porque não dá. Se é mentira, porra, não faz isso com a cabeça das pessoas, não. Faz de verdade, porque a mentira leva uma certa carga negativa. Você está mexendo com cabeças.

As pessoas que estão vendo seu show e são seus fãs, são cabeças que você tem que zelar. Não só cultivar, tem que semear, jogar uma aguinha.

De verdade, você tem que amar. Isso é a parada fundamental. É o que me faz feliz de ver as pessoas felizes comigo. E cada vez eu quero ser mais de verdade, inclusive pra dar exemplo, mostrar para as pessoas. Brother, dá certo ser de verdade, dá certo respeitar, é o que dá certo. 

Então, quando chegamos a 1982, o LP Demônio Colorido (1980) tinha estourado. Como estava a sua vida naquele momento? 

Eu estava à deriva e curtindo, achando tudo o maior barato, bom pra caralho. Eu estava gravando com meus ídolos, com a Banda Black Rio, Cassiano, Lincoln Olivetti… “Caraca, que porra é essa?”. Estava à deriva, completamente, mas à vontade, porque sempre me trataram muito bem. Eles me ajudaram a chegar aqui, até na minha profissionalização, ajudaram muito. Oberdan [Magalhães], Lincoln, Durval [Ferreira] conversavam muito comigo. Eles me tratavam tipo família. Tem a família de sangue e tem a família da vida, eles fazem parte da minha família da vida. E foram eles quem, digamos assim, me iniciaram.

Sobre o Cassiano, tem até uma música em homenagem a ele no seu disco. Como era a relação de vocês?

“Preciso Urgentemente Falar Com Cassiano” é sobre a genialidade do cara. Ele me falou uma parada: “Sandra Sá, preste atenção. O mais importante da música é o que você não ouve”. Cara, levei uns 20 anos pra entender, porque é tão genial. São coisas assim que eu aprendi com esse povo, fazendo esse LP [de 1982]. Porque foi nesse LP que eu me aproximei mais dessa galera, da Banda Black Rio, de Cassiano, foi quando conheci Tim. 

Foi muito importante conhecer Cassiano, pô, eu fico metida pra caralho em dizer: “Meu brother, Cassiano”. Eu morava na Gávea, na Rua Marquês São Vicente, quase em frente ao Tim. Uma vez, eu estava em casa, o Cassiano chegou e eu falei: “Qual foi, brother?”. E ele respondeu: “Vou dar um tempo aqui porque tô tocando a campainha lá no Tim, e ele não quer me atender. Daqui a pouco vou lá de novo”.  É legal ter esse tipo de chegança, de intimidade. A gente colava um com o outro por afinidade, por amor à música, por tudo. 

Tem uma equipe de produção que se repete nos seus primeiros LPs: o Durval, a Solange Boeke, a Wania Andrade e o Chocolate, que era o técnico. Como era essa produção?

Esse grupo que eu falei da Fafy Siqueira, eles se envolveram na parada toda. Eles me conheciam e estavam fazendo com que eu me conhecesse também. Eram as pessoas que estavam trabalhando ali, com quem eu já estava acostumada, pessoas que eu gostava. É aquele lance de “time que está ganhando, não se mexe”. 

A Solange era uma grande compositora, a gente era parceira também. E ela fazia a produção executiva, pra arrumar a casa toda, ela e a Wania. Era um time que se repetiu, e você vê que esses três discos [Demônio Colorido, Sandra Sá e Vale Tudo (1983)] são um começo foderástico. Eu não sei, acho que comecei pelo meio. Quando dei por mim, eu estava no lance. Já era o meio, era dali pra frente. Nem deu pra pensar e perceber. Eu não percebi no começo.

Foi tudo muito rápido?

Muito. Brother, tu não tem noção. Inclusive, no Maracanãzinho [no MPB 80], quando anunciaram: “‘Demônio Colorido’, Sandra Sá”, o Maracanãzinho explodiu. Eu ia entrando, e voltei de costas, pensando: “Ih, não sou eu não”. O cara que era o contrarregra lá da Globo me empurrou: “É você, sim". Tanto é que eu entrei no palco meio tropeçando. 

Nessa época, as pessoas vinham falar comigo na rua e eu: “Como você me conhece?”. Foi muito bizarro, foi muito rápido. Ao mesmo tempo, devido ao respeito a mim, a essa verdade, a quem estava ao meu redor, eu fui chegando, fui compreendendo. Eu falo que eu tenho 43 anos de carreira e, mais ou menos, 39 ou 40 de profissa. Porque eu era muito à deriva, mas foi uma deriva legal. Foi nessa deriva que aprendi a remar. 

Você diz “deriva” por quê?

Eu não queria nem saber. Estava legal pra caralho cantar com aquele povo todo, estar no estúdio, nos shows, mas eu não estava pensando. No terceiro ou quarto ano, mais ou menos, parei e falei: “Peraí, tem um jogo aqui nesse lance. Deixa eu prestar mais atenção. Muito bom cantar, mas peraí, eu mexo com cabeças”. Foi aí que eu comecei a ser profissa, de entender o que está acontecendo e saber lidar com aquilo. Sem abrir mão de mim. E isso eu não faço, nunca fiz e não vou fazer. Não abro mão de mim. 

E como foi a repercussão de Sandra Sá quando saiu o disco?

Foi engraçado. Nessa época, a gravadora mandava [o LP] para as equipes de som, e a música de trabalho era “Quero Ver Você Dançar”, se não me engano. Aí explodiu “Olhos Coloridos”. Brother, é uma música que está aí até hoje como se fosse nova, parece que foi gravada ontem. Por isso que eu falo, vai lá ver a história da parada. Não é nem resistência, é a verdade. A verdade resiste. Eu acho muito incrível isso. Eu recebo, mais ou menos, por dia, sete versões diferentes de “Olhos Coloridos”. Tem grupo de rock, de forró… Por sinal, recebi ontem um cara do forró, que coisa mais linda. É o pessoal cantando na churrascaria, no show, no festival, cara, é o tempo inteiro. É uma música que não tem qualificação. É de verdade.

E a gravadora não percebeu isso na época?

Pra tu ver como é a parada, brother! A gente tem que realmente experimentar. Ousadia é isso. Ousar é não ter medo. Outro dia, tinha um cara num país aí que a gente nunca ouviu falar tocando “Olhos Coloridos”. Agora, ganhou uma versão italiana da Chiara Civello, “Sono Come Sono”. Ela esteve no Brasil, a gente cantou junto. E ela absorveu, de uma certa forma, porque ela fala que a Itália também é muito racista, e ela fez uma versão incrível, levando pra parada do país dela. O Jim Capaldi gravou essa música também [com o nome de “Don't Let Them Control You”]

“Olhos Coloridos” ganhou muita força pela temática racial. Como você via isso, teve desafios específicos que você enfrentou por isso?

Isso aí não precisa nem perguntar porque é lógico que sim.

O Brasil é racista porque é mal educado. Na realidade, estas pessoas parecem ter medo da gente. A gente é tão foda que eles têm medo, porque, se não, ninguém ia ligar pra gente.

Mas não, tem que marcar o gado. Até tem uma discussão sobre isso, mas eu acho que, pior do que todo esse racismo, é a submissão. Porque a submissão do preto, alimenta o racismo do racista. 

Aí que eu falo desse lance da educação, de passar a cultura, as histórias. As pessoas acham que os negros escravizados eram uns pobrezinhos. Cara, traziam de escravos reis e rainhas, pessoas poderosas da África. E até hoje a crioleba acha que é ralé, que não pode. Pode tudo! Nós somos seres humanos fortes pra caralho. Nós somos foda! A gente é forte, inteligente, só falta perceber isso. E é isso que neguinho não quer, que a gente perceba a força que a gente tem, que a gente descubra quem a gente é. Mas se a gente entrar numa de descobrir, bora. 

Eu acho que as coisas já estão ficando bem legais, mas não é o ideal, porque ainda está tudo muito superficial. Tem a cota de botar lá no comercial, tem que ter não sei quantos, e “vamos fazer a novela com os negros porque tá na moda”.

O lance é a gente aproveitar esse momento e se conscientizar. Ninguém está de bonzinho, não. Como a gente também não. É abrir o olho, aproveitar esse tempo. Não é pra se vingar, tem muita gente que entra numas de se vingar. Não vamos perder tempo com isso, gente. Vamos ser. Vamos pegar nosso carro e dirigir pra frente, olha no retrovisor e bora. A gente pode tudo. E eu repito: a gente é foda. Crioleba, a gente é foda e é muito. 

Olhando pra trás, qual é a importância do disco de 1982 na sua vida?

Brother, eu acho que esse foi o começo do meio. Para eu despertar, sentir e ver uma porrada de coisa. E é um disco que é eterno de tanta verdade. O Demônio Colorido é um disco de verdade, mas é mais superficial, porque eu estava no oba oba. Nesse segundo, eu já estava começando a entender e a gostar muito disso. Já estava começando a perceber o que estava rolando. É uma importância muito grande na minha vida e acho que na vida de muita gente. O disco inteiro é altamente importante. Acho que você olha esse disco e diz assim: “Essa é a Sandra”. A partir desse, você vai entender todos os outros. 

Por:

Ariel Fagundes

Fotos: Rafa Rocha

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