
Três anos separam o início da criação de Doce Sal (2026) de seu lançamento. O disco de Lafetah, que exala sensualidade e ritmos de verão, tem produção assinada pelo próprio cantor ao lado de Rico Manzano e Kaneo Ramos, e trouxe como single “Dessa Água Eu Não Bebo Mais”. Neste faixa a faixa de Doce Sal, Lafetah desvenda as inspirações por trás do novo trabalho.
“O tempo não foi um obstáculo, foi o ingrediente que permitiu ao álbum florescer de dentro para fora. É o abraço entre a memória afetiva de Minas e a vertigem de São Paulo. O contraste é minha assinatura”, explica. O segundo álbum de estúdio do artista marca uma nova etapa ao aproximar referências da MPB, do pop latino e das tradições sonoras do interior de Minas Gerais.
Em uma releitura própria do que ele chama de “pop barroco”, em Doce Sal, Lafetah reúne referências mineiras nas melodias e no caráter íntimo das composições, enquanto a capital paulista influencia o ritmo mais frenético. As dez faixas trazem uma história de amor, seja o amor de mãe em “Deus é Mulher”, ao flerte de “Na Bochecha” e os relacionamentos abusivos em “Amor Estranho Amor”.
Doce Sal amplia o universo apresentado anteriormente em O Bestiário (2022) com a dramaticidade e a experimentação que marcaram os primeiros trabalhos de Lafetah, guiados pelo romantismo.
Confira Doce Sal, de Lafetah, faixa a faixa:
"Maracujá Doce": foi composta na adolescência por minha amiga Mariana Cavanellas, integrante do Rosa Neon: uma das artistas que mais moldou a cena musical de BH e que deixou marcas profundas em mim e em toda uma geração. A música sempre representou algo muito clara pra mim: a prova de que a MPB pode habitar o pop sem se diminuir. Leve, dançante, sensual, ela fala de um primeiro amor com uma delicadeza que não esconde a garra. Ao trazê-la para o disco, eu afirmo um desejo estético que atravessa todo o álbum: uma batida que sustenta, uma melodia que seduz, uma presença que não pede licença.
"É o que falta na MPB contemporânea: leveza sem perder a força."
"Tudo Puta e Viado (TPeV)": nasceu de uma cumplicidade: dois amigos de BH que chegaram à capital (mas não posso revelar os nomes, rs) se inventaram um casal do interior e saíram para desbravar o mundo sem pedir permissão. É uma música de carnaval no sentido mais verdadeiro da palavra: não o evento, mas o estado. A liberação que o fevereiro autoriza, mas que existe em todo mês do ano esperando uma chance. Irreverente, urgente, sem desculpas.
"Um sentimento que existe o ano inteiro e só o carnaval tem coragem de nomear."
"Ricochete": é a faixa-síntese de Doce Sal e talvez a definição mais precisa do que eu chamo de pop barroco. Construída sobre violão e ousadia sonora, ela narra um antigo relacionamento meu que foi cíclico e febril: aquele que vai e vem, que queima e atrai ao mesmo tempo, que é quente e desconfortável em igual medida. Vinda dessa experiência, ela carrega a honestidade de quem sabe exatamente do que está falando e transforma esse material íntimo em algo impossível de parar.
"A faixa mais ambiciosa e a que mais parece fácil. Esse é o segredo."
"Dessa Água Eu Não Bebo Mais": eu não quero entregar o motivo dessa música: e essa é uma escolha deliberada. Há canções que pertencem mais a quem ouve do que a quem compõe. Dessa Água Eu Não Bebo Mais é uma delas: para alguns é sobre um ex, para outros é sobre família, para muitos é sobre os mesmos erros cometidos de formas diferentes. No fundo, é sobre a ferida de não se sentir seguro dentro de si mesmo e a tentativa, sempre renovada, de sair do lugar. A versão ao vivo na Central Jam comprovou o que a gravação já anunciava pra mim, que essa música toca em algo que as pessoas não sabiam que precisavam nomear.
"Guardo o segredo porque a música sabe mais do que eu."
"Deus É Mulher": a faixa mais pessoal do álbum. Deus É Mulher é uma carta aberta para a minha mãe, um agradecimento por uma crença que nunca vacilou. Nela, eu enxerga o feminino como divindade: não como metáfora, mas como reconhecimento real de quem sustentou o sonho quando o caminho não era óbvio. É uma música de gratidão que não adoça o que foi difícil, e é exatamente isso que a torna poderosa.
"Para a mulher que sempre acreditou: mesmo quando era difícil acreditar."
"Na Bochecha": brincalhona na forma, precisa no recado. Na Bochecha fala daquele personagem universal: a pessoa que flerta, promete e se aproxima, e na hora decisiva, recua. Com raízes no interior e alma pop, nessa música transformei a frustração em convite. Não há ressentimento, há um sorriso de quem já entendeu o jogo e escolheu continuar jogando com leveza (mesmo tendo encontrado outro embuste desses essa semana mesmo).
"Eu sei que você quer, meu amor. Não tenha medo, vem comigo."
"Amor Estranho Amor": mergulha na anatomia de um relacionamento abusivo, não para julgar, mas para iluminar o mecanismo mais cruel da codependência: a incapacidade de enxergar a própria responsabilidade dentro do caos. Com camadas vocais que pra mim se acumulam como memórias, a faixa usa o pop barroco em seu estado mais denso. A influência da mãe está aqui também: não como citação, mas como textura emocional que atravessa a canção.
"Sobre o momento em que o amor e a cumplicidade com o próprio sofrimento se tornam a mesma coisa."
"Inocente": começa numa memória afetiva muito específica: o axé que dominava a pré-adolescência em BH, o Axé Brasil no Mineirão, aquela energia coletiva de quem ainda não sabe que está sendo feliz demais. Dessa raiz solar, construí uma carta para mim mesmo, um convite à vulnerabilidade, ao amor que assusta exatamente porque é real. É a faixa mais luminosa do álbum, na minha opinião, e carrega o peso de quem aprendeu que se proteger também é uma forma de perder.
"Uma carta para mim mesmo: se entrega, mesmo que doa."
"Boca de Vênus": não tem vergonha do excesso. É uma música sobre paixão que atravessou o limite e chegou à obsessão, aquela que faz querer recorrer a feitiços, invocar forças, segurar o que já não é mais seu. O drama não é ornamento mas a linguagem certa para esse estado. Aqui o barroco aparece em sua forma mais excessiva por necessidade, grandiosa porque o sentimento exige.
"Dramático, performático, exagerado — exatamente como deve ser quando a paixão vira obsessão."
"Doce Sal": a faixa-título chega como uma síntese e uma surpresa. Pop romântico com alma latina, uma leveza que remete à lambada e às baladas hispânicas dos anos 80 e 90, retrô sem ser nostálgica, dançante sem ser descartável, e a composição mais antiga do álbum. É o doce e o sal coexistindo no mesmo compasso: a tensão que atravessa todo o álbum encontra aqui sua forma mais acessível e mais verdadeira ao mesmo tempo.
"A faixa que dá nome ao álbum e que resume tudo que ele é."














