
É sempre instigante estar em contato com a arte de Fausto Fawcett. Um dos nomes proeminentes da composição literária brasileira, o cantor, compositor, romancista, dramaturgo, jornalista, ator e roteirista, se juntou a um dos mais instigantes coletivos de arte sonora experimental brasileira, o Chelpa Ferro, de Barrão, Sergio Mekler e Luiz Zerbini, que chega a seu sétimo disco de estúdio.
Pesadelo Ambicioso (2026), para a própria síntese do nome, é um emaranhado de delírios urbanos que bebem de um Brasil ainda mais fragmentado no pós-pandemia. São delírios, deboches e provocações conectadas na escrita caótica de Fawcett para os ruídos de beeps, sintetizadores, guitarras, samplers, baterias e o que mais couber na produção, que além do Chelpa Ferro, traz Thiago Nassif para a assinatura.
O lançamento, disponibilizado na última segunda-feira (23), também ganha show de lançamento nesta quinta-feira (26) no Sesc Pompeia, a partir das 20h. Ingressos disponíveis aqui.
Se Fausto Fawcett, é reconhecido por "Santa Clara Poltergeist", "Favelost", "Kátia Flávia, a Godiva do Irajá", "Rio 40 Graus" — e mais do que sua crônica e leituras distópicas apresentam de um Rio de Janeiro (e um Brasil) em decadência —, dessa vez, se concentra em temáticas como a pandemia, as intolerâncias, bugs e o extremamente criticado existencialismo brasileiro, para dar conta do Pesadelo.
Já a Ambição, por um lado, é uma boa palavra para o projeto, arquitetado em diferentes formatos e propostas até chegar no LP de estreia da Outra Música Records, selo da nova plataforma de música experimental de Chico Dub, diretor e curador do Festival Novas Frequências, que reúne gravadora, bookings e produtora. Antes de ganhar forma definitiva em áudio, foi peça de instalação no CCBB (Brasília) em 2021, livro (Numa Editora) em 2022 e performance na 14a edição do próprio Novas Frequências, ao fim de 2024.
Na audição de um projeto de música experimental em que produção e poesia não necessariamente andam juntos — e esta seja, talvez, a graça —, convidamos Fausto Fawcett para comentar as 13 faixas de ‘Pesadelo Ambicioso’, que além de disponível nas principais plataformas de streaming, também ganha prensagem em vinil.
Leia o que Fausto Fawcett tem a dizer neste faixa a faixa:
“Pesadelo Ambicioso”: A frequência dos graves dá pistas claras do que vem adiante logo na faixa um. Com o peso das indagações de Fausto, a poesia se desenvolve em torno da criatura, entidade, que cerca o ser humano na individualidade. “Oito bilhões tomados por uma sensação de alerta constante, excitação desconcertante.”
“Sabão Minerva”: O existencialismo, os ‘franco-atiradores de si mesmo’, ganham um tom ainda mais crítico e absurdo dos comentários de Fausto Fawcett. Se o Rio sempre foi um purgatório da beleza e do caos, Araruama — cidade da Região dos Lagos do estado — se torna pano de fundo de uma notícia para lá de perturbadora. “Gente à deriva. Fios sociais desencapados.”
“Forasteiro Mental”: O forasteiro mental, para os íntimos, é o mais maluco. Pretensiosamente, é o extra-humano de Piracicaba, o Mad-Max caipira, sertanejo Matrix, o X-Men do interior. Ele foi preso. “As perversões e as seitas sempre tocarão fundo nos corações e mentes.”
“Ruído Humano”: Aumentou o ruído humano no mundo depois de 2020, em aspectos diversos, num planeta transformado em kitnet claustrofóbico. “A pandemia deixou escancarado o Pesadelo Ambicioso. Todos ligando o bug-se.”
“Demônios da Insignificância”: Refrações sonoras, idas e vindas de notas e chiados fazem um panorama sonoro preciso para a faixa. “Sonoridades incríveis nos espreitam, nos escapam todos os dias em todos os lugares.”
“Grito Motor”: Uma das faixas de sonoridade mais caótica e ‘gritadas’, nas letras e produção. Todos gritam junto com as máquinas. “Sonoridades escandalosas forjam o nervoso muzak noize no ambiente das megalópoles.”
“Candeia Stones”: Teclados, o batuque do samba e a cuíca ganham irreverente participação em meio aos bugs. Candeia, toca Rolling Stones! “Duas orações se encontrando numa colagem plástica musical. Toco Preto e Sympathy for the Devil”
“Funk Insinuante”: O peso de um grave que acompanha toda a faixa para a síncope. “Funk Insinuante pra dança insinuante.”
“Máquina de Pegar Boneco”: O que são as máquinas de pegar boneco que nos cercam? “Máquinas são monstros surrealistas.”
“Moradias à Deriva”: De repente, a mesma voz dos mapas que indica um ‘vire à direita’, e outros samples de voz robô se confundem às batidas em sequência sem o som de Fausto Fawcett. “GPS da uberização imobiliária.”
“RipaVivaldi”: Aqui, o cello de Vivaldi parece quebrado. “Vivaldi é barroco, portanto experimental.”
“Mendigo Vinil”: Com ambientação de bateria mais tradicional do Rock, com quebras em experimentações, Fausto retoma mais um personagem pretensioso que assola a investigação do álbum. EU sou. “Náufragos existenciais vagam proféticos pelas ruas questionando tudo e todos.”
“Almanaque de Fatalidades”: Antes de finalizar a imersão, Fausto e Chelpa Ferro registram o caos, crise e catástrofe eterna da sociedade. Possivelmente, a faixa mais densamente carregada de influências do ambient no álbum. “O que é muito antigo ninguém segura. Respeita.”
Fausto Fawcett e Chelpa Ferro no Sesc Pompeia
Quinta, 26/2, 21h










