
Olhos atentos vão notar que na colagem da capa de Coisas Naturais (2025), álbum de Marina Sena, há uma foto de Gal Costa, uma das principais influências da artista mineira. Resgatado em 2025, o clique foi feito por Thereza Eugênia em 1974, na casa da própria artista.
Além dessa imagem, outros momentos marcantes da carreira de Gal são de autoria de Thereza, que nasceu em Serrinha, no interior da Bahia, em 1939. Numa visita ao Rio de Janeiro, quando tinha vinte e poucos anos, se apaixonou pela capital fluminense e decidiu ficar por lá. Apesar de ter crescido com uma câmara escura na casa de sua avó, foi a mudança que estreitou sua relação com a fotografia e, também, com a música brasileira.
“Adorava os artistas da MPB, então fotografá-los me dava a sensação de que estava os levando comigo. Durante a Ditadura, a música era um grito de protesto”
No Rio, Thereza se dividia entre a fotografia e seu trabalho como enfermeira. Assim, tirava fotos no seu tempo livre ou arranjava alguém para cobrir seus turnos no hospital – rotina com ecos na história da norte-americana Vivian Maier (1926-2009), que se dedicava à fotografia quando não trabalhava como babá.
Em 1967, a baiana fotografou seu primeiro show: Comigo Me Desavim, de Maria Bethânia. E em 1970, veio o episódio que abriu portas para ela. Uma foto feita num show de Roberto Carlos, no Canecão, estampou a capa do disco autointitulado dele que saiu naquele mesmo ano.
Seus laços com os artistas foram se tornando mais fortes ao longo daquela década. Não só pelo seu trabalho, mas também pelas coincidências que a cidade proporcionava. A amizade com Marina Lima, por exemplo, surgiu a partir de uma ida à praia de Ipanema, anos antes do lançamento do primeiro disco dela.
Com a ajuda da iluminação natural que sempre foi a sua favorita, essa intimidade foi transposta nas fotografias de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, Zezé Motta, Maysa, Ney Matogrosso, Fafá de Belém e muitos outros. Registros como esses estão reunidos no livro Thereza Eugenia: Portraits 1970-1980 (2021), organizado por Augusto Lins Soares. No momento, prepara um livro com fotos de Gal Costa.
Com mais de 45 mil seguidores no Instagram, ela divide fragmentos da história da música brasileira. Sua presença na rede social atrai sobretudo os mais novos, que deixam comentários entusiasmados: “Caetano, Bethânia e Gil são os artistas que os jovens que me seguem mais gostam, me sinto muito feliz em poder mostrar o que fiz”.

Nos bastidores da Tropicália
Antes de registrar visualmente momentos importantes da música brasileira, a catarinense Marisa Alvarez Lima (1936-2022) deixou sua marca no jornalismo. Na década de 1960, assinando textos como Marisa Alves Lima, colaborou com as revistas O Cruzeiro e A Cigarra, nas quais publicou entrevistas e matérias sobre artistas que viria a fotografar anos depois.
É o caso da sua coluna n’A Cigarra, onde em 1968, falou do lançamento de Tropicalia ou Panis et Circencis no Rio de Janeiro e opinou sobre o álbum: “Difícil destacar as melhores faixas. O disco é, por inteiro, muito bom. E foi feito com carinho e atenção especiais por todo o grupo.”
Na contramão de seus pares conservadores, que criticavam os tropicalistas, em outros momentos Marisa usou o espaço para sair em defesa do movimento e mostrar que não era a única que gostava da sonoridade que estava em ebulição. “Ou será que João Gilberto, Mário Pedrosa, Aracy de Almeida, Rogério Duarte, Lygia Clark, Hélio Oiticica, Juca Chaves, Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos, José Celso Martinez Corrêa, que consideram Caetano (com as roupas que quiser usar) um passo à frente na música popular, é que não sabem o que estão dizendo?”.
Em 2022, quando Marisa morreu, Caetano Veloso lamentou o acontecimento no Instagram e contou que foi a fotógrafa quem o aproximou de Hélio Oiticica, peça fundamental para as mudanças culturais no Brasil da segunda metade do século 20.
Num texto escrito em 2007 para a Tate Etc., revista do museu britânico, Caetano compartilhou que “Tropicália”, música do seu disco de estreia de 1968, ganhou esse nome por conta do trabalho de Oiticica. A ponte foi feita pelo cineasta Luiz Carlos Barreto, que conhecia a obra “Tropicália” de Oiticica – exposta em 1967 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro como parte da mostra “Nova Objetividade Brasileira”. Ao ouvir a canção, o diretor sugeriu o título por achar que o conceito dela se conectava com a proposta do neoconcretista. Quando se conheceram de fato, na casa de Marisa, Hélio gostou da história.
A jornalista foi testemunha desse e de muitos outros episódios importantes para a cultura brasileira. No livro Marginália - Arte e Cultura na Idade da Pedrada, lançado em 1996, ela reuniu artigos publicados na década de 1960 em que documentou os passos da contracultura. Com o acirramento da censura após o decreto do AI-5, em 1968, Marisa se afastou das palavras e passou a escrever suas narrativas imageticamente.
Em frente às lentes de Marisa estiveram artistas como Ney Matogrosso, Zezé Motta, Erasmo Carlos, Gal Costa e Maria Bethânia. Muitas dessas foto foram parar nas capas de discos, caso das que estampam Caras e Bocas (1977) e Água Viva (1978), de Gal, e Pássaro Proibido (1976), Álibi (1978), Talismã (1980), Alteza e As Canções que Você Fez Pra Mim (1993), de Bethânia.

Com a Abelha Rainha da MPB, Marisa construiu uma relação especial de amizade, ao ponto de compilar fotos que tirou da cantora num livro chamado Bethânia, publicado em 1981 e hoje um item de colecionador.
Na apresentação da obra, ela dividiu: “Meu lado repórter preferiu registrar os momentos como me foram possíveis fotografar. Momentos que certamente, por inúmeras dificuldades existentes, jamais seriam repetidos. A fotógrafa algumas vezes ficou frustrada por não ter a luz que idealizou, a cor que gostaria de obter, o ângulo mais bonito. Mas, como artista, fiquei feliz com o resultado total".
Do Madame Satã ao Studio 54
Entre os anos 1970 a 1990, a mineira Vania Toledo (1945-2020) viveu e documentou a efervescência cultural brasileira. Da alta sociedade aos ambientes da contracultura, ela estava nas principais festas das cenas paulista e carioca.
“Vania queria mostrar a beleza, celebrar a diversidade das pessoas, e eu acho que ela fez isso muito bem. O fato de ela ter trabalhado com uma câmera muito pequena, de um jeito informal, quase como se estivesse ali fotografando por acaso, fez com que ela extraísse um recorte mais genuíno e muito empático de quem ela estava fotografando”, diz Thyago Nogueira, coordenador de arte contemporânea do Instituto Moreira Salles, que desde 2023 cuida do acervo dela, composto por 250 mil imagens.
Com a sua Yashica, fez retratos de uma longa lista de ícones da música nacional, como Gal Costa, Jards Macalé, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Itamar Assumpção, Djavan, Ney Matogrosso e Rita Lee. Com os dois últimos construiu uma amizade, e os fotografou no palco e fora dele. É de Vania uma das raras fotos em que Ney aparece ao lado de Cazuza, seu então namorado, em 1979. Assim como a imagem da capa de Refestança, álbum ao vivo de Gilberto Gil e Rita Lee, lançado em 1977.

Quando não estava nos shows e nas festas, fotografava no seu espaço no bairro paulistano dos Jardins, o Studio Salto Alto. Por lá, passaram não só personagens da música, mas também das artes visuais, da moda e do cinema e da televisão, como Marília Pêra, Fernanda Montenegro e Regina Casé.
Nessas sessões, no entanto, Toledo derrubava o véu da fama de qualquer fotografado. “Ela realmente não tinha o filtro que separa a celebridade, que põe uma certa solenidade nessas relações. Ela estava ali como uma amiga absolutamente íntima, mesmo que não conhecesse muito bem a pessoa”, Thyago Nogueira observa.
Os trabalhos de Vania se espalharam pela imprensa nacional e internacional. Enquanto por aqui colaborou com Vogue, Claudia, Folha de S.Paulo e Interview, lá fora, suas fotos apareceram nas páginas das revistas Time e Life.
Em diversas entrevistas, Vania repetiu: “meu vício é gente”. E com as pessoas ela esteve nas pistas das noites de São Paulo e de Nova York, indo do Madame Satã ao Studio 54 – onde fotografou um dos mais ilustres frequentadores da boate e também uma de suas maiores referências, Andy Warhol.
Quanto mais purpurina, melhor
“Posso fazer um retrato?”: esta é a pergunta que Lita Cerqueira mais fez durante os 50 anos de sua carreira. Atraída pelas festas populares e cenas urbanas – principalmente as de sua cidade natal, Salvador –, muitos dos personagens que aparecem nas fotos dela são anônimos eternizados em filme, enquanto outros são nomes célebres da música.
Nascida em 1952 e autodidata, Lita é considerada a primeira fotógrafa negra da Bahia. Sua carreira artística começou no teatro, como atriz, e depois seguiu para o cinema, em frente e atrás das câmeras. Júlio Bressane, Neville d’Almeida e Glauber Rocha são alguns dos cineastas com quem colaborou.
A partir de 1970, década em que se aproximou de vez da fotografia, viu a música a acontecer ao seu redor. Foi assim que, num momento íntimo do aniversário de Caetano Veloso, clicou o beijo que o cantor deu no pai dele. A foto foi parar na contracapa do disco Cores, Nomes (1982).
A primeira esposa de Caetano e mãe de Moreno, Andréa Gadelha, batizou o filho de Lita. Ela também era amiga da irmã de Andréa, Sandra Gadelha, ex-esposa de Gilberto Gil, para quem o cantor escreveu um de seus maiores clássicos, “Drão”. Em 1976, fotografou o casal em Itapoã, com Sandra grávida de Preta. E sua relação com a família também atravessou gerações. Em 2024, a filha de Gil publicou o livro Preta Gil: Os primeiros 50 Anos, com dois retratos seus na capa, um de 1978 e outro do ano de lançamento da obra – ambos assinados por Lita.
Para além das fotografias marcantes que ela tirou tanto de Gil solo quanto nos Doces Bárbaros, Lita interpretou um papel importante na discografia do músico. A canção “Realce”, que também dá nome ao disco de 1979, só existe por causa dela.
“A expressão-título surgiu por causa da Lita Cerqueira, fotógrafa, negra, baiana, vinda de Santo Antonio, meu bairro, frequentadora da minha casa e da casa de Caetano, pessoa das nossas relações íntimas e com muitos interesses comuns a nós na época. Ela falava muito em ‘realce’, ‘realçar’...”, Gil compartilhou no seu site.
Ao longo da sua trajetória, ela fez mais de 50 mil registros. Em 2009, a Pinacoteca de São Paulo se debruçou sobre a obra da fotógrafa na exposição individual “A Fotografia Como Eu Sou: Lita Cerqueira”. Já no ano passado, a CAIXA Cultural de Salvador celebrou a carreira da fotógrafa na mostra “O Povo Negro é o Meu Povo – Lita Cerqueira, 50 Anos de Fotografia”. Quando olhado em retrospecto, a música sempre tem espaço reservado no caminho de Lita.













