Julia Guedes acredita na forma analógica de se fazer música. Em defesa das faixas longas e dos arranjos sem tanta pós-edição, ela estreia com seu disco Álbum Vermelho, lançado pelo selo dobra discos com distribuição da Altafonte Brasil. Ela sempre soube que seria compositora, e isso pode soar óbvio ao saber de onde ela vem — Julia é neta de Beto Guedes, um dos grandes nomes da música brasileira e envolvido intrinsecamente no Clube da Esquina — mas mesmo assim, o caminho de se entender artista não foi tão claro.
Ao atender aos impulsos artísticos, percebeu que deveria traçar um caminho que equilibrasse seu legado e sua identidade.
No disco, a multiartista mineira apresenta suas facetas como cantora, compositora, multi-instrumentista, produtora musical e artista visual. Julia assina a produção de seu Álbum Vermelho ao lado de Antonio Neves e Paulo Emmery, além de ser diretora criativa, diretora de arte e designer do projeto; onze das doze faixas são composições suas, com exceção de uma canção de seu avô Beto Guedes, na histórica parceria dele com Ronaldo Bastos, "A Página do Relâmpago Elétrico".
Em entrevista à Noize, a artista fala sobre a trajetória de composição do novo álbum, o processo por trás da identidade visual, e a influência do Clube da Esquina em sua vida.
Como é a sensação de finalmente colocar o álbum no mundo, depois de tanto tempo de trabalho?
Ai, é maravilhoso. Parece que descarregou um trem, assim. Porque foram muitos anos fazendo o álbum, sendo uma coisa muito minha. E eu queria muito mandar pro mundo, sabe?
Pra mim, a música é uma coisa de doação, sabe? Tem que ser pro ouvido de todo mundo. Tem que ser uma coisa compartilhada.
Então, realmente, foi uma construção muito robusta até desaguar esse álbum. E agora, dá um sentimento de dever cumprido, apesar de que eu saiba que é o começo.
Você postou no Instagram os rascunhos da identidade visual do disco, da capa, dos singles. No geral, a direção artística é toda sua, né? E, nesse caso, foi o som que orientou o visual ou o visual que orientou o som um pouco dos dois?
Então, eu acho muito difícil pensar em um sem pensar o outro, sabe? Pra mim, a composição vem de um lugar sinestésico e é atravessada por referências da vida, das artes se cruzando, da vida acontecendo, dos diálogos. Então, eu sinto que tudo foi caminhando um pouco junto, meio de forma indissociável, até desaguar nessa coisa que eu consigo compreender como um micro-universo, né? Que tem som, tem textura, tem forma, tem visual, tem movimento.
Esse lugar de multiartista também me ajudou muito a descobrir minha própria personalidade pra além do Clube da Esquina, porque é uma coisa muito minha, queria pôr a mão nas visualidades. A capa do álbum foi toda manual, é uma moldura vermelha que eu fiz com papel paraná e linha, três meses de uma foto analógica que eu tirei e mandei imprimir, as flores são pessoas segurando lá embaixo, a capa do figurino eu desenhei, comprei tecido, mandei costurar o figurino.
Vai chegar o clipe de “Vermelho Sem Nome” muito em breve, que eu também porcamente costurei porque eu não sou costureira, mas sou teimosa e meto a mão onde não é minha área. E tá sendo muito incrível porque eu tô graduando em Design Gráfico na UFMG e tô fazendo meu TCC sobre a identidade visual sobre o projeto gráfico do álbum, e tá dando pra amarrar tudo.
E eu tô estudando sobre capa de álbum no Brasil, que é outro assunto que me apetece, eu trabalho como designer, faço projeto gráfico de vinil, capa de álbum, lançamento… Existe esse trabalho da Júlia, CNPJ designer, que também influencia em tudo. E, assim, das coisas mais legais do processo é justamente ver as pessoas que chegam e imprimem sua identidade. Enfim, das coisas que eu mais fui feliz nesse álbum foi de conhecer e poder trabalhar com vários artistas incríveis. Mas partiu de um direcionamento meu, sim.
E falando um pouco da participação das pessoas, o disco tem as parcerias com a Tori, com a Luiza Brina, com o Wagner Tiso. E eu tenho achado muito legal que no trabalho de divulgação a ficha técnica tá ali sempre presente, com o nome de todo mundo, né? Como é que foi o processo de juntar essa galera toda e de equilibrar as atribuições de cada um num projeto que também é tão autoral?
Uma coisa que eu já tinha clara antes de gravar é que eu queria trazer essa contraposição de dois nomes que representassem esse intercâmbio transgeracional que eu sinto que é a minha vida.
Eu sempre fluí entre diversos grupos de várias idades. A questão de ter sido criada no Clube da Esquina me inseriu num contexto de pessoas mais velhas também, né? E que foi a minha criação musical. E, apesar disso, existe também a minha bagagem adquirida como musicista independente da cena contemporânea que frequento.
Então pra mim era fundamental ter esse paralelo. E aí, a Luiza Brina é uma grande referência das artistas mineiras, né? Da nova geração cabulosa, bizarra. Eu já admirava muito a Lu. Ela é do meu selo também, tem esse grande eixo facilitador. Chamei ela pra fazer o arranjo de Sus marés, e larguei no colo dela. “Não vou dar a vara e nem ensinar a pescar, você já sabe”. E aí ela realmente brilhou no arranjo.
E o Wagner, pra mim, foi a coroação da coroação. Porque, meu Deus, um membro original do Clube da Esquina e mais que isso, né? Um tio, uma pessoa que tá num lugar afetivo na minha vida desde que eu nasci. E aí foi importante porque ele é um álbum que tem esses dois lados, né?
É um álbum onde eu reflito bastante sobre minha hereditariedade. Existe um conflito que vai se resolvendo ao longo do álbum. Álbum é uma forma de elaborar isso também. E trazer o Wagner foi uma forma de realmente reafirmar o lugar de onde eu vim. E dar continuidade pra um ciclo musical que é fortíssimo na identidade cultural do Brasil.
E, assim, se eu não estiver alucinando, tem uma interpolação melódica ali na primeira faixa, né? Com Nada Será Como Antes. Ou eu alucinei? Não sei. Pra mim, parece.
Então, é essa coisa. O Clube da Esquina é uma referência tão estratosférica na minha vida que eu nem sei se posso chamar de referência. Meu som é completamente o Clube da Esquina das ideias, não tem pra onde fugir. Vira e mexe eu componho alguma coisa e alguém fala “Ai, parece tal coisa”. Eu falo que provavelmente é. Extravasa. E eu aceito. Porque também tem a ver com o que foi me dado de contexto, de nascença, de cultura. E pra mim é uma honra poder carregar isso e deixar isso extravasar no meu som.
E a ideia de fechar um disco com “Página do Relâmpago Elétrico” sempre foi o plano de um disco que você fosse lançar?
Em todos os álbuns do meu avô Beto, ele fechava o álbum com uma faixa que era uma composição do Godofredo Guedes, que é meu bisavô, pai do meu avô Beto. E meu pai já gravou um disco de choros do Godofredo, agora tá terminando o disco de samba. '
E é uma tradição da minha família Guedes homenagear os antepassados. Então isso é uma coisa que eu já sabia que eu faria na minha obra, que é sempre homenagear meu avô, meu pai, meu bisavô.
E tiveram algumas canções do meu avô Beto que entraram no meu radar. Porque, pra mim, também é importante este lugar da atualização do legado, trazer mais luz e mostrar pras próximas gerações. Enfim, fazer um rebuliço sobre canções que não necessariamente eram canções que ficaram lá do ar, sabe? Então, das músicas do meu avô, não regravaria “Amor de Índio”, por exemplo, que é uma música que já alcança multidões. Eu quero justamente mostrar o lado que não é o lado mais conhecido. E aí eu tava entre “Página do Relâmpago Elétrico”, “Quatro”, e “Caso Você Queira Saber”.
Escolhi a Página porque é a primeira música do primeiro disco dele que ele lançou há 50 anos atrás. E quando eu nasci, ele tinha 50 anos. Então tem uns números aí. E também porque é uma música que dialoga absolutamente com o que eu proponho no disco, sabe? É uma música que faz uma reflexão de vida absolutamente paisagística, sinestésica. Fala sobre dar tempo ao tempo, deixar as coisas respirarem. Existe uma visualidade, né? O Ronaldo Bastos faz isso magistralmente bem, que é articular as imagens com o som. Então, não poderia ser outra.
E qual foi a reação do seu avô quando você regravou?
Eu não sei se ele já ouviu não, sabia? Ele sabe que gravei porque precisou da autorização. Mas o meu avô é uma pessoa muito bichinho. Ele é, tipo assim, ele no casulo dele, sabe? Ele não é aquele avô que fica super em cima... Ele é super presente, mas não é essa coisa super proativa. Ele é bem na dele.
E eu também respeito o espaço dele, deixar ele na dele. Eu sei que não é algo que eu vou chegar na casa dele e vou mostrar e vai ter uma reação, mas eu sei que eu vou mandar pra namorada dele, ela vai mandar pra ele, aí ela vai ver que ele vai ouvir e quando ninguém estiver vendo, ele vai ficar muito emocionado.
Você assina a produção do disco do lado do Paulo, né? Você já tinha experiência com produção? A ideia desde o começo era essa, de você participar diretamente?
Eu assino junto com o Antônio Neves e o Paulo Emmery. Nós fizemos um trio. Nesse meio tempo, eu fui me capacitando. Fui investindo nesse lado porque mesmo antes de compor, eu sempre soube que eu seria compositora, que eu produziria minhas coisas, porque realmente é um raciocínio que extrapola o musical. Eu gosto de pensar a construção em camadas, sabe? Eu gosto de estar presente na escolha das cores, das paletas. Realmente é muito meu querer colocar minha impressão e confiar no que minha intuição fala.
Então foi bom ter dado esse tempo porque na hora de realmente produzir o disco, eu já não chamei os dois pra serem produtores, e sim pra coproduzirem comigo. Aí foi uma experiência encantadora. Foi minha primeira experiência de produção, e eu não duvidei de nada da minha bagagem e confiei que eu realmente me capacitei nesses últimos anos da melhor forma e que os lugares onde eu não tinha expertise, os dois teriam. E realmente, nós formamos um trio de compositores muito completo e muito competente e erguemos esse álbum cheio de camadas em 10 dias.
Qual foi a faixa mais atual que você compôs?
A mais recente foi "Poesia Total", que nem ia estar no disco. Na primeira reunião que eu fiz com o Antônio Neves, mostrei todas as minhas músicas, e ele já foi falando, essa vai, essa não. Ele falou pega esse violão aí, não tem mais nada pra você mostrar, não? E eu tinha acabado de fazer “Poesia Total”. A letra nem tava completa, eu falei, ah, tem essa música meio bobinha aqui, sabe? Não é grandes coisas, aí eu toquei e ele ficou tipo assim, essa música tem que tá no disco.
E realmente fez total sentido, porque ela é um respiro, sabe? Cada música tem uma roupagem muito forte, tem uma característica, tem arranjos voluptuosos. Então, "Poesia Total", que é uma música tipo violão, baixo, bateria, e guitarra, e voz, e coro, realmente dá um fôlego pra aguentar essa sequência de vapo vapo que essa menina tá mandando aqui.
Mas é muito bom ser um álbum longo, relativamente, pra ser o seu primeiro, porque já coloca ali a sua identidade direto, né? Você está mostrando exatamente todas as suas faces musicais ali.
É, e tem a ver também justamente com essa teimosia, sabe? Poxa, a vida tá tão acelerada, sabe?
A gente não tem tempo nem pra ouvir música. Então eu tô batendo numa tecla de falar: gente, vamos fazer álbuns longos sim, vamos fazer música de sete minutos, vamos fazer arranjo sem muita pós-edição, vamos deixar a voz desafinar e tá tudo bem. É um recorte da época, um pensamento meio anti-mercadológico.
Então, é uma forma de marcar um posicionamento nesse lugar também, sabe? De acreditar mesmo que essa música vai chegar nos ouvidos certos, nas pessoas certas e vai provocar nesse lugar também.
E pra gente fechar... Usando as palavras do Mauro Ferreira, ele disse que você busca ali o equilíbrio entre a dinastia e o seu próprio caminho, achei isso muito legal. E eu queria saber o que você sente que te puxa pra cada lado, e agora, com o disco no mundo, o que esse equilíbrio representa pra você na prática?
Pois é, eu achei muito interessante, tem muitas coisas do disco que eu tô descobrindo agora, sabe?
Eu precisei ir pro Rio de Janeiro pra fazer esse disco, porque o Clube da Esquina é uma referência gigantesca, é o que eu sou, é o lugar de onde eu vim é o lugar para o qual eu sempre retornarei. Mas chegou um momento que esse sol estava me cegando um pouco, que eu já estava achando que minha vida seria isso: interpretar o Clube da Esquina. Porque é a opção colocada como a mais natural. Ainda mais sendo mulher, né?
Eu comecei a chegar na cena, ninguém me chamou pra tocar piano, eu sempre fui pianista, me jogaram pra cantar, eu nunca tinha cantado. Então existe essa busca desse lugar que foi conflituoso e eu sinto que o álbum, de fato foi uma forma de eu elaborar essa relação. Álbum, terapia, conversa, entrevista...
Mas eu sinto que, no álbum, fiz as pazes, porque eu consegui tomar distância, enxergar os lugares onde eu já sou completa, sem precisar desse arcabouço como uma linha de frente na minha carreira; mas também com a minha própria bagagem e própria forma de ser.
E também fazer as pazes e falar gente, é isso mesmo, que foda que o lugar onde eu me criei é o Clube da Esquina, que foda que o meu avô é o Beto Guedes, que foda que eu cresci com essas pessoas. Isso tá na minha música, deixa eu fazer meu melhor aqui pra honrar isso com responsabilidade, com firmeza também, e aí eu acho que essa busca é eterna. Eu acho que o equilíbrio é simplesmente ser eu, não acho que é algo que eu preciso caminhar em direção, eu sinto que é só existir mesmo.








