
O primeiro final de semana do Rock in Rio — prolongado pelo feriadão — foi uma epítome da proposta do festival, marcadamente eclética. Por ter sido o primeiro evento dessa magnitude no país, muita gente custou a entender essa mistura no início, mas hoje todos os outros grandes festivais brasileiros seguem uma toada parecida. Desta vez, tivemos um primeiro dia dedicado ao rock, o segundo, ao metal e o terceiro, um verdadeiro baladão a céu aberto, tendo DJs como headliners. É a união sinistra de todos os nichos musicais.
Abrindo os trabalhos na sexta, o Palco Mundo recebeu o duo britânico Nova Twins, nome ainda pouco conhecido no Brasil (o que explica o público enxuto), mas que vale a escuta atenta; seguido pelo hardcore do Rise Against e, fechando a noite, The Hives e Foo Fighters. Essas duas são conhecidas pelo carisma de entertainer de seus vocalistas, o que cativa o público brasileiro sem esforço e facilita o trabalho da curadoria. Ao longo dos anos, o Foo Fighters se tornou um dos gigantes do rock global, fazendo com que Dave Grohl há muito tenha saído da sombra de sua ex-banda, o Nirvana. Mesmo sem emplacar hits recentes há um bom tempo, eles entregam um show que deixa a plateia satisfeita e um tanto nostálgica.

Entre as atrações nacionais, o Black Pantera representou nosso metal-hardcore atual e Larissa Luz ocupou o Palco Sunset em sua era roqueira, apresentando versões mais pesadas de ícones como Gilberto Gil e reforçando a premissa de seu álbum, Desmonte, de que o rock é preto.
O segundo dia foi dedicado ao metal, vertente que já chegou a ser negligenciada em escalações passadas. Para agradar o público que cobra o "rock" presente no nome do festival, a organização buscou equilibrar tradição e a renovação, reunindo desde nomes históricos como o Sepultura até representantes consagrados pelos millennials, como Avenged Sevenfold e Bring Me The Horizon. Esta última teve o público nas mãos, muito pelo peso do som ao vivo e sobretudo pelo vocalista — hoje casado com uma brasileira, morador de uma casa em Ubatuba e dono de um CPF e conta Pix, como bem lembrou durante o show. Tudo bem, cometeu a gafe de chamar "Rio de Janeiro" de "São Paulo" durante o show, mas o público perdoou o deslize deste brasileiro em formação.
Horas antes, o Sepultura subiu ao Palco Mundo em sua turnê de despedida definitiva dos palcos. Na apresentação, o grupo liderado por Andreas Kisser e Paulo Xisto prestou uma homenagem à era comandada por Derrick Green, focando o repertório exclusivamente na fase iniciada com a entrada do vocalista, em 1998. A escolha agradou à parcela dos fãs que valoriza a trajetória da banda pós-irmãos Cavalera, ainda que boa parte da plateia esperasse ouvir clássicos como "Roots". Embora a presença no palco principal fosse mais do que justa pelo impacto histórico do grupo, ver rodas de mosh sob a luz do sol, no primeiro horário do Palco Mundo, pareceu uma escalação ingrata para um momento de despedida. Na sequência, o mesmo palco recebeu o Avenged Sevenfold, em nada menos que sua sexta passagem pelo Brasil.
Já no domingo, o baile esteve formado com o domínio do pop e dos sets eletrônicos no Palco Mundo, transformando a Cidade do Rock em uma pista a céu aberto com o Black Eyed Peas (sem Fergie, mas entregando os hits radiofônicos dos anos 2000 que o Brasil ama) e o DJ Calvin Harris. Fechando a primeira etapa, o feriado de 7 de setembro promoveu uma verdadeira miscelânea sonora: Luísa Sonza abriu espaço no show para o projeto "Bossa Sempre Nova", acompanhada por Roberto Menescal. Gilberto Gil levou a turnê Tempo Rei ao Palco Mundo, e Elton John presenteou os fãs com sucessos como "Your Song" e "Rocket Man" em sua última performance no país, ostentando seu tradicional visual extravagante com um terno oversized amarelo.
A 10ª edição brasileira do Rock in Rio agora se prepara para a segunda maratona de shows no próximo fim de semana — enquanto isso, continuaremos de olho por aqui.













