
De tempos em tempos, alguém decreta a morte do videoclipe. Em 2024, após vencer o prêmio de Clipe TVZ do Ano, no Prêmio Multishow, Anitta fez um desabafo: “Não vale mais a pena fazer clipe. A gente tem que convencer todo mundo a botar o dinheiro, porque ninguém vai assistir, a gente não vai ter o retorno do dinheiro que a gente gastou”.
Pouco tempo depois, para o lançamento do seu novo projeto EQUILIBRIVM (2026), a cantora investiu em visualizers: os vídeos ou animações de curta duração, que acompanham as músicas nas plataformas de streaming.
No caso dela, esses vídeos usam elementos das religiões de matriz afro-brasileira, especialmente do candomblé. A divulgação do disco rendeu ainda um programa Som Brasil, na TV Globo, além de uma participação no Saturday Night Live – a primeira brasileira a se apresentar no tradicional programa de comédia da televisão americana.
A era dos visuais e do conteúdo
Num mundo em que a lógica de consumo da música mudou, é natural que o videoclipe acabe perdendo espaço. No feed do Instagram, do TikTok e de outras redes, o que pulsa são vídeos curtos, e por consequência, a demanda dos artistas se tornarem produtores de conteúdo.
É nesse cenário que o músico Rodrigo Alarcon trabalha. Se seu disco anterior, Rivo III e a Fé (2022) nasceu com videoclipes para as principais músicas, todos dirigidos e editados por ele mesmo, no álbum mais recente, Guizo de Cascavel (2025), ele mudou a rota. Com colaboração do estilista Ronaldo Fraga na direção criativa, a dupla concebeu o universo visual do projeto idealizando visualizers exclusivos para cada uma das faixas.
Alarcon observa como o algoritmo das plataformas mudou nos últimos anos. “Não basta lançar a música e o clipe. A gente precisa desdobrar isso tudo em cortes rápidos, que tenham um gancho visual e consigam segurar a audiência por mais de três segundos”. Para ele, é preciso entender como usar as ferramentas disponíveis de forma mais eficaz para seu trabalho, sem virar refém das plataformas.
O artista ainda acredita no poder do videoclipe na formação imagética do artista para seu público, mas ele entende que não basta ter apenas ele como material de apoio do álbum. No cenário atual, esse vídeo se dilui no mar de conteúdos postados na internet.
O videoclipe resiste…
Ainda que os novos formatos pautem as escolhas de divulgação dos trabalhos, o videoclipe resiste como uma forma importante na construção de universos imagéticos, identidades artísticas e possibilidades de expressão. Uma prova disso está no m-v-f-, o Music Video Festival, que há mais de 13 anos reverbera, debate e premia as experimentações desse formato.
“Os videoclipes ainda são ferramentas importantes para chamar a atenção do público. A tradução audiovisual das canções continua um elemento fundamental na criação de identidades dos artistas jovens, independentes e queer”, ressalta Duda Leite, um dos curadores do festival.
Esse é o caso de Bemti, artista queer que vem do mercado de audiovisual, e tem, inclusive, formação na área: “Numa cultura de mainstream em que quase todos os artistas têm uma estética muito massificada, muito ‘igual’, cabe aos artistas independentes criar universos próprios, que podem ser diferentes, e justamente, por isso irão ressoar pra pessoas que querem e precisam de outras referências visuais e sonoras”.
Um exemplo disso está no clipe de “Quando o sol sumir”, lançado em 2021, em parceria com Fernanda Takai – eles dividem a canção e o roteiro do clipe, em que Bemti encarna um astronauta mineiro, que toca viola caipira, e Fernanda um T-Rex brincalhão, os dois esperando o apocalipse em Belo Horizonte num final que faz referência ao filme Melancolia (2011), de Lars Von Trier.
…mas é preciso orçamento para seguir
“Fazer um material audiovisual de qualidade exige recursos e muitas pessoas. Obviamente, a gente vai encontrando soluções e fazendo ‘no modo guerrilha’ quando a grana está curta, mas é muito gritante a diferença quando se tem dinheiro pra isso”, diz Bemti.
E aí entram as novas logísticas: se antes as gravadoras fomentavam os videoclipes, hoje em dia as buscas por financiamento partem dos artistas. Há quem inclua as entregas de clipes como contrapartidas de editais de fomento, como já fizeram Letrux e Dona Onete ao serem contempladas pelo edital Natura Musical.
E há quem se una diretamente a marcas patrocinadoras, como é o caso de Marina Sena, que trabalhou com o sorvete Magnum para o clipe de “Dano Sarrada”, do Vício Inerente (2023).
No início de 2026, NandaTsunami deu um passo importante nesses modelos, lançando o vídeo de “Faço Acontecer”, o primeiro clipe viabilizado pelo Spotify dentro do projeto RADAR Brasil, que teve estreia exclusiva na plataforma durante sete dias.
No mercado global, Madonna segue sendo um norte: para divulgar Confessions II, a sequência de Confessions on a Dance Floor (2005), a rainha do pop se uniu ao Grindr, aplicativo de encontros para homens gays, bissexuais, pessoas trans e queer. Madonna fez uma contagem regressiva dentro do app, liberou conteúdos exclusivos em vídeo para os usuários da plataforma e fez um pocket show transmitido ao vivo direto da Times Square. Com financiamento do Grindr e da Dolce & Gabbana, Madonna lançou Confessions II - The Film, clipe que reúne algumas canções do disco e que dialoga com a iconografia de seus videoclipes anteriores.
Entre reels, cortes e edits, o fato é que muitos artistas seguem apostando no videoclipe, dando espaço pra música e criando imagens novas, únicas e que só cabem nesse formato.













