
Além da visão, o mais recente filme de Kleber Mendonça Filho convida o espectador a se atentar a outro sentido: o da audição. Não à toa, no dia do lançamento de O Agente Secreto, em 6 de novembro, o diretor compartilhou em suas redes sociais uma carta que enviou aos responsáveis pela projeção das mais de 1.300 salas de cinema que exibem o longa.
“Meu pedido: que passem o filme com volume ALTO. Assim, terão os melhores resultados junto ao público e estaremos mais próximos do trabalho feito durante meses na mixagem sonora deste filme brasileiro. É garantia também de um impacto maior desse filme na programação.”
Ambientado em 1977, O Agente Secreto traz em sua trilha canções que são um reflexo daquela década, intensa e efervescente, e também resgata tesouros da nossa música. Entre as cenas, esses sons são entrelaçados aos temas originais, assinados pelos irmãos Mateus Alves e Tomaz Alves Souza, antigos colaboradores do diretor. Descubra 5 curiosidades sobre a música do filme a seguir:
Passa Disco
Foi na loja de CDs e vinis localizada em Espinheiro, na Zona Norte de Recife, que Kleber Mendonça Filho garimpou discos fundamentais para a trilha sonora de “O Agente Secreto”.
“Quando ele [Kleber] chegou na Passa Disco, mostrei alguns álbuns lançados na época retratada no filme, de nomes como Concerto Viola e Lia de Itamaracá, e o primeiro LP de Robertinho de Recife, Jardim da Infância (1977)”, Fabio Cabral de Mello conta à Noize. Além de fundador da loja, ele também é primo de segundo grau do poeta João Cabral de Melo Neto.
“Kleber levou todos esses e mais um box com discos de músicas tradicionais do Nordeste. Foi desse box [o quarto volume da coletânea Música Popular do Nordeste (1972)] que ele escolheu para a trilha do filme a música ‘A Briga do Cachorro com a Onça’, da lendária Banda de Pífanos de Caruaru, uma das inspirações de Gilberto Gil para formatar a Tropicália. Ouvir essa música no filme foi emocionante para mim.”
Depois de mais de 20 anos resistindo às mudanças na forma de consumir música, a Passa Disco, que também funcionava como um centro cultural da cena recifense, fechou suas portas em setembro de 2024, meses após essa visita do cineasta. Agora, Fabio continua com as vendas apenas pela página do Instagram.
Quase
Para os amantes do vinil, uma cena do longa é familiar: aquela em que o personagem de Wagner Moura coloca um LP no toca-discos. A canção que ecoa da vitrola é “Retiro (‘Tema de amor nº 3’)”, do Conjunto Concerto Viola.
No entanto, quando o roteiro foi escrito, Kleber Mendonça tinha pensado em outra música para o momento em que Marcelo está na sala do apartamento. “A Tonga da Mironga do Kabuletê”, escrita por Toquinho e Vinicius de Moraes e interpretada por Benito de Paula, foi a faixa que quase entrou para a trilha.
Irmãos de sangue e na música
A trilha sonora original do filme, que embala momentos marcantes da trama, é assinada pelos irmãos Mateus Alves e Tomaz Alves Souza. Esse encontro em O Agente Secreto adiciona um capítulo na parceria entre os músicos e o cineasta, que começou há mais de uma década.
Aquarius (2016), por exemplo, usa canções de Mateus. E embora não tenham sido compostas especificamente para o longa, elas se mesclam ao longa com naturalidade.“Hoje em dia, essas músicas parecem ser uma trilha original, porque eles usaram de um jeito muito inteligente”, Mateus analisa. “São as únicas instrumentais do filme.”
Três anos depois, Mateus se juntou ao seu irmão Tomaz em Bacurau (2019), dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Para o filme que levou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes daquele ano, escreveram temas originais, dividindo espaço com Gal Costa e Sérgio Ricardo.
No trabalho seguinte, Retratos Fantasmas (2023), Tomaz assinou a trilha do documentário sobre o Recife do século XX e o desaparecimento dos cinemas de rua da paisagem da cidade. Na época do lançamento do filme, Tomaz compartilhou:
“Pouco depois de perder um HD, consegui recuperar 14 ideias musicais feitas para Retratos Fantasmas. Algumas estão no filme, outras não. Estão aí o tema principal e também o ‘fantasma no retrato’ e outras fantasmagorias inspiradas pelas salas fechadas de cinema e pelo latido fantasma do cachorro invisível.”
Paêbirú
Em janeiro de 1975, Lula Côrtes e Zé Ramalho lançaram uma obra-prima da psicodelia nordestina: Paêbirú. Meses depois, uma enchente assolou Recife, onde o disco foi gravado – mais especificamente, na Estrada de Remédios, perto da casa do diretor. Dos escombros, só sobraram 300 cópias do LP, que virou item de colecionador.
50 anos depois, Kleber Mendonça Filho colocou duas músicas desse trabalho na trilha de “O Agente Secreto”: “Harpa dos Ares” e “Terra - Trilha de Sumé / Culto à terra / Bailado das muscarias”.
“‘Eu já escrevi o roteiro com duas músicas desse disco – ‘Harpa dos Ares’ e ‘Trilha de Sumé’. Elas são muito impactantes, quase como se o próprio vinil respirasse dentro do filme”, o diretor falou à Agência Brasil. E na Cahiers du Cinéma, contou que há tempos queria usar “Harpa dos Ares” em um de seus filmes.
Na vanguarda da disco music
Décadas antes de estarem juntos na trilha sonora de O Agente Secreto, Lula Côrtes, Zé Ramalho e Donna Summer apareceram na mesma página do Diario de Pernambuco.
Dos brasileiros, o jornal escreveu sobre o lançamento de Paêbirú, em 1976, um ano após a enchente que deixou 80% da capital pernambucana coberta por água. Essa edição foi remasterizada no Rio de Janeiro e conta com efeitos sonoros que a versão original não tinha.
Já a notícia sobre a norte-americana falava do lançamento de dois LPs, sendo Love to Love You Baby (1975) um deles. A faixa de abertura, que empresta o nome do trabalho, é um dos maiores hits da artista. E, além disso, em 2025, é um dos sons que tocam no filme de Kleber Mendonça Filho.
Embora a faixa tenha se transformado num sucesso internacional e catapultado a carreira da Rainha da Disco Music, também levou à sexualização da cantora, que geme durante a canção, em consonância com a história contada pela letra. Antes de aparecer no cinema brasileiro, a música foi interpolada por Beyoncé no refrão de “Naughty Girl”, do seu disco de estreia, Dangerously In Love (2003).


















