rayane fortes (banner)

Rayane Fortes: inspirada em Amy e tendo a guitarra como motor, cantora lança “Ray”


Por:

Vitória Prates

Fotos: David Capibaribe

COMPARTILHE:

Na última sexta-feira (27/2) Rayane Fortes lançou Ray (2026). Co-produzido por Gustavo Scaranelo, o trabalho é dividido em duas partes, com a continuação prevista ainda para este ano. O projeto — gravado ao vivo e com referências do soul e do blues — chega após a participação da artista na última temporada do The Voice Brasil.

A cantora e guitarrista encantou o público com sua participação no reality musical. Bastaram poucos minutos no palco, cantando ”Trouble”, de Elvis Presley, para todas as cadeiras dos jurados virarem para ela. A cearense, então, escolheu o time de Iza e Mumuzinho.

Mesmo não vencendo o reality — naquele 2023, o prêmio ficou com Ivan Barreto —  Rayane mostrou ao Brasil a força de sua performance. Neste domingo (8/3), Rayane se apresenta no Bourbon Street Music Club, em São Paulo, com show em homenagem a Marina Lima [ingressos aqui].

Referências e novos passos

Bebendo do soul norte-americano e profundamente conectada à tradição da guitarra, Rayane Fortes constrói sua identidade a partir de referências que atravessam gerações. A artista cita nomes como Aretha Franklin,Amy Winehouse e Etta James pela força vocal e interpretação emocional, além de Jimi Hendrix e Stevie Ray Vaughan, fundamentais para sua construção como instrumentista.

Essa combinação de potência vocal e personalidade na guitarra — que recentemente a levou à capa da revista Guitar Thrills — reverbera diretamente em seu som. Depois da estreia com Atenta (2021), Rayane diz iniciar uma nova fase na carreira com Ray (2026). Em entrevista à Noize, a artista celebra o lançamento, abre detalhes do seu processo criativo e a paixão pela guitarra. 

Esta é a primeira parte do EP. O que podemos esperar da parte dois? 

A primeira parte do EP é quase um desabafo. A faixa de abertura, “Eu e o Som”, que também foi o single de lançamento, caminha por um blues mais moderno com influências de soul, e nasce de um lugar muito íntimo. Foi a primeira música que escrevi completamente para mim  não sobre um amor ou uma decepção amorosa, mas sobre o meu próprio encontro com a música 

A segunda parte aprofunda a narrativa. O que muda principalmente é o lugar de onde vêm as letras e o que eu quero comunicar com elas. Existe uma postura mais rebelde, mais livre, menos preocupada em ser romântica, mas mais comprometida com a minha verdade. No fim, esses dois trabalhos se complementam quase como dois lados da mesma história 

O EP traz canções em inglês e português, às vezes, na mesma faixa, como foi o processo de compor em dois idiomas? Porque você optou pela mistura? 

Essa mistura aconteceu de forma muito natural. Em faixas como “Love Hard on the Floor" e "Eu e o Som", por exemplo, o inglês aparece principalmente nos refrões, mas nunca foi uma decisão estratégica. Foi mais um reflexo das minhas referências e da forma como a música nasceu para mim. Eu tenho uma influência internacional muito forte e também um público fora do Brasil que acompanha o meu trabalho, então, de certa forma, unir esses dois universos acabou sendo algo orgânico. 

Muitas vezes, quando estou compondo, algumas palavras simplesmente chegam em inglês e, se fazem sentido dentro da emoção da música, eu deixo que permaneçam, mas isso não é exatamente uma novidade na música brasileira. Artistas como Marisa Monte e tantos outros já brincaram com essa mistura de idiomas de uma forma muito bonita. Para mim, não é uma questão ou uma barreira é apenas mais uma possibilidade de expressão. 

Ouvindo, a gente viaja no tempo para era de ouro do jazz e do soul. Como foi construir o som do álbum? Quais são suas principais referências? 

A música é algo muito espiritual para mim. Existe um fio que me conecta a essa época e a essas sonoridades. Desde criança, sempre ouvi Aretha Franklin, Etta James, Jimi Hendrix e o meu guitar hero, Stevie Ray Vaughan. Artistas que, sem dúvida, ajudaram a moldar a minha linguagem. Mas também não posso excluir as influências brasileiras que sempre fizeram parte da minha formação. Caminhei muito pela bossa e pelo choro, que gosto de enxergar como o nosso jazz brasileiro. 

Antes da guitarra, comecei improvisando no bandolim de dez cordas, e a sonoridade do choro acabou influenciando a forma como toco guitarra hoje Acredito que a identidade de um artista nasce justamente dessa soma de influências. É o resultado de tudo que veio antes  dos nossos antepassados, moldando a nossa identidade. 

O que mudou na Rayane de Atenta (2021) para Rayane de Ray (2026)? 

Nossa, muita coisa mudou desde Atenta. E eu até me emociono falando sobre isso, porque Atenta foi um projeto muito importante pra mim. Eu produzi o álbum sozinha, em casa, em Fortaleza, depois de algumas decepções com produtores que não conseguiam entender como eu queria soar.

Foi aí que comecei a estudar produção por conta própria. Atenta virou um grande laboratório, eu produzi todas as faixas, toquei quase todos os instrumentos, com exceção dos metais, que foram escritos por dois grandes amigos,Jorge Dudement e Barney Oliver. Hoje tenho uma estrutura muito maior para gravar, o apoio de uma turma massa da Odd sounds, e continuo tendo liberdade de produzir criativamente as minhas músicas.

O que também mudou foi a maturidade. Minhas ideias estão mais claras e minha identidade, mais bem definida. A forma como eu toco guitarra também mudou muito. No EP RAY, principalmente, eu me mostro mais como guitarrista. Em Atenta, talvez eu ainda não tivesse tanta coragem de ocupar esse lugar como tenho agora. Esse trabalho traz a minha essência, mas também revela uma Rayane completamente empoderada do próprio instrumento. 

Qual é a faixa-coração do EP? 

Fico dividida entre “Atenta” e "Eu e o Som". Atenta porque é o nome do meu primeiro disco, a primeira faixa… e eu tenho “Atenta” tatuada no pescoço. É uma palavra que carrega muitos significados Mas Eu e o Som é a minha faixa do coração, porque é como um desabafo. Ela une todas as coisas mais fortes que existem em mim hoje. É uma música que fiz para mim mesma, sobre a minha relação com o som, em um momento em que eu estava sozinha  muito sozinha e percebi que, no fim, a música sempre estava comigo. 

O blues é nostálgico, melancólico e, ao mesmo tempo, sensual. São notas na guitarra que soam com muita tensão, não existe um momento real de descanso. Todos os acordes têm a sétima, então a música está sempre tensionada e isso comunica exatamente o que eu queria dizer. 

Além de cantar e compor, você também assina a produção do álbum. Como foi se dividir em vários papéis? O quanto essa autonomia artística é uma prioridade na sua carreira hoje? 

Torquato Mariano foi meu produtor, meu técnico, no The Voice Brasil. Esses dias a gente estava lembrando juntos da música com que me apresentei, “Trouble”, do Elvis Presley. A gente fez a produção meio que em parceria eu em casa, em Fortaleza, e ele no Rio. E uma coisa muito importante foi a liberdade que ele me deu. Liberdade para dar ideias nos solos, para colocar o meu timbre de guitarra, para pensar os arranjos junto. Claro que ele teve a maior parte da produção, mas ele me abriu esse espaço de escuta, de troca, de criação. De colocar o meu som ali. Lembro que ele me disse uma frase que nunca mais saiu da minha cabeça: quanto mais eu coloco a minha mão no som, mais ele carrega a minha verdade. 

Uma curiosidade sobre o EP RAY é que foi gravado ao vivo no estúdio. Fiz toda a pré-produção em casa e mandei para os meninos estudarem. Escrevi todos os temas, todos os momentos de guitarra, tudo passou por mim  e eu tive o maior tesão da vida fazendo isso. Gravamos todas as faixas do Ep1 em um dia só Hoje, claro, conto com uma estrutura muito maior, com a Odd Sounds e o Gustavo Scaranello, que assina a mix e a master e traz essa sonoridade mais profissional. Mas, para mim, é essencial interferir nesse processo como criadora, como produtora que pensa os temas e constrói o som desde a raiz. 

Temos que falar sobre sua paixão pela guitarra. O que esse instrumento representa na sua vida e na sua identidade musical? Como você enxerga seu papel num cenário ainda tão marcado por figuras masculinas quando falamos de guitarristas? 

A guitarra é uma extensão do meu corpo. É como se fosse a minha segunda voz. Muitas pessoas já me perguntaram se eu me sinto mais guitarrista ou mais cantora, e eu realmente não sei responder  porque a guitarra é uma extensão da minha expressão musical. 

Ainda é desafiador e estrutural. Homens na indústria da música muitas vezes afirmam que entendem melhor do que eu como devo soar na guitarra, como meu amplificador deve ser configurado ou se devo usar mais efeitos em um wah-wah. Eu poderia dizer que isso é normal, mas não quero normalizar. 

Ser uma mulher que toca guitarra e toca bem é duplamente desafiador. Os haters estão prontos para atacar sempre que me veem usando algo mais sensual, usam isso como justificativa para afirmar que não sou realmente talentosa. No final, é importante dizer ironicamente, se necessário: é possível ser bonita e tocar guitarra bem pra caralho!! 

E eu posso usar o que eu considerar apropriado para mim no palco ou nas minhas redes sociais. Afinal, minha guitarra, meu som e meu corpo são meus, portanto, eu escolho como toco, como timbro meu som e como me visto. 

Se Ray fosse um ponto de virada na sua história, o que você diria que fica para trás e o que se abre daqui pra frente? 

Se Ray é um ponto de virada na minha história, acho que o que fica para trás é uma fase muito de busca de tentar me entender, de provar para os outros e para mim mesma quem eu era artisticamente. Não que essa inquietação vá embora, porque ela faz parte de qualquer artista. Mas hoje existe uma segurança muito maior. Com Ray, sinto que finalmente estou ocupando o meu lugar sem pedir licença. 

O The Voice Brasil foi um divisor de águas para sua carreira? Como você enxerga essa experiência no programa? 

O The Voice Brasil foi, sim, um divisor de águas pra mim, mas não gosto de contar essa história como se ele fosse o ponto inicial da minha ascensão. Eu já estava na estrada há muito tempo. Antes mesmo do programa, tive um vídeo que viralizou na internet em que apareço tocando no meio de um estádio de futebol para mais de 60 mil pessoas. Aquilo já mostrava que algo importante estava acontecendo. 

O The Voice ampliou essa potência. Abriu portas para que pessoas muito influentes me enxergassem e levou o meu trabalho para lugares onde talvez eu demorasse mais para chegar sozinha. O vídeo da minha audição, por exemplo, passou de 7 milhões de visualizações e quando repostei, somou mais milhões. Furou a bolha do Brasil. Muita gente de fora começou a me acompanhar, literalmente ao redor do mundo, e isso trouxe possibilidades com marcas e conexões internacionais. Prefiro enxergar o programa como uma grande expansão não como um começo.

Próximos shows

08/03 - Bourbon Street Music Club - São Paulo (SP) - Ingressos

Por:

Vitória Prates

Fotos: David Capibaribe

COMPARTILHE:


VER MAIS

RECEBA NOVIDADES POR E-MAIL!

Inscreva-se na nossa newsletter.