
Depois de petardos vindos do metal extremo e do hard rock, dava pra dizer que todo mundo estava mais do que bem aquecido para o grande momento da noite. E o Black Sabbath realmente não demorou, demonstrando o profissionalismo já esperado de Geezer, Tony e Ozzy (e do baterista Tommy Clufetos, que mais tarde veio a ser um dos destaques da apresentação). Começando com uma introdução em vídeo que mostrava o próprio demônio/satã/capeta/coisa ruim nascendo de um ovo e destruindo tudo ao seu redor (a turnê se chama The End, afinal), o show derradeiro do Black Sabbath em Porto Alegre fez a FIERGS explodir com a presença do trio original no palco. O início do set veio com a faixa que dá nome à banda, uma das canções-mãe do heavy metal, levada por uma performance perfeita de todos. As suspeitas de que a saúde de Tony Iommi poderia atrapalhar a apresentação já deixou de existir no primeiro momento, e muita gente visivelmente não acreditava no que estava vivendo. Foi na sequência, em “Fairies Wear Boots”, porém, que deu para sentir as limitações cada vez mais presentes de Ozzy Osbourne. Seja pelo ressoar de sua voz ou mesmo por seus movimentos enquanto canta, a impressão é que o vocalista precisava de um esforço descomunal para liberar tudo o que as canções necessitam. Nos versos da segunda faixa do set, a dificuldade do cantor para acertar a modulação da voz chamava atenção, mas seu estilo descontraído e performático no palco se mantinha intacto - cada pequeno movimento e as leves dançadas no ritmo da música já provocavam uma grande reação da plateia. Houve outros momentos em que o desnível técnico entre Ozzy e a banda foi chamativo, como nos versos de “Snowblind” e de “Dirty Women” - mas isso também revela outro detalhe: a perfeição do som que saia dos instrumentos de Geezer e Tony. A execução dos membros clássicos beirava o absurdo de tão incrível, talvez representando o ápice técnico deles no palco mesmo depois de quase 50 anos de banda. “N.I.B.”, “War Pigs” e “Children of the Grave” (apesar de Ozzy ter começado a cantar uns compassos adiantado nessa última) foram destaques nesse quesito. Acima de tudo isso, foi um show de muitos hinos, como já era de se esperar. Umas oito faixas foram cantadas em uníssono por toda a plateia, mostrando a força imensa que canções “antigas” conseguem manter. E o mais incrível é que o público era bem variado - realmente havia mais adultos ou pessoas de meia-idade, mas muitos adolescentes e crianças estavam presentes, na maioria acompanhados por pais apaixonados pelo Black Sabbath. Entre os momentos mais bonitos, as primeiras frases de Ozzy em “War Pigs”, os riffs de “Iron Man” sendo cantados pelo público como se fossem linhas vocais e o encerramento mágico com “Paranoid”, que ganhou uns bons minutos a mais. E ainda teve o baterista Tommy Clufetos engatando um solo de bateria enorme depois de “Rat Salad”, quando o trio clássico tirou um tempo para recuperar o fôlego. Mesmo com a saudade já batendo no peito, a sensação de sorte descrita lá no primeiro parágrafo predominou. Em alguns momentos a banda deu uma leve impressão de estar cumprindo tabela - principalmente logo que saíram do palco em “Children of the Grave”, a última antes do bis, quando o próprio Ozzy incentivou o coro de “one more song” com o microfone. No estado e na idade em que os integrantes estão, porém, não dá para pedir mais do que isso. E o profissionalismo de todos até esse último momento impressiona. A maior banda da história do metal, e uma das maiores de toda a música, se despede com grandeza e honra incalculáveis.





