
Um personagem confuso, em um momento de perigosa decisão, perdido em um quebra-cabeça sinuoso de memórias, confissões e reflexões. Esse é o pontapé inicial do espetáculo Aqui, Agora, Todo Mundo, monólogo com direção e dramaturgia de Heitor Garcia, texto, dramaturgia e atuação de Felipe Barros e trilha de Jaloo.
Durante 60 minutos, participamos da reconstrução desse quebra-cabeça: um jogo cênico que coloca a plateia como agente da narrativa em um espetáculo de estrutura mutante, que, a cada dia, ganha nova ordem. Mas a espinha dorsal segue lá: um jovem gay em uma metrópole tentando lidar com seus traumas, desejos e aventuras.
Premiado em 2025 com o Coelho de Prata de Melhor Espetáculo do Festival MixBrasil, Aqui, Agora, Todo Mundo é baseado no livro homônimo de Alexandre Mortágua, narrativa autobiográfica publicada pela Editora Philos, em 2021. “Eu buscava um texto para falar sobre a nossa comunidade, sobre questões de saúde mental, porque tenho uma pesquisa sobre saúde mental há muito tempo, então, juntei tudo”, conta Felipe Barros à Noize.
“A partir do livro do Alexandre, a gente foi criando na sala de ensaio outras propostas, trazendo outros textos, outros depoimentos de pessoas para unir e achar esse lugar do que é a cabeça de uma pessoa depressiva quando ela chega nesse caminho”, explica.
De forma sincera, tanto o texto de Mortágua quanto a adaptação de Barros constroem uma colcha de retalhos sobre diferentes questões que envolvem família, sexualidade e saúde mental. E, para embalar e amarrar tudo isso, temos as canções de Jaloo, artista conhecida por seus trabalhos bastante pessoais e sinceros.
A artista comenta sobre a experiência:
Nós, LGBTs temos essa coisa de que as nossas vivências e histórias batem, se repetem, é muito igual
Jaloo continua: “Meu amigo veio assistir comigo. Eu olhava pra ele e claramente uns textos ali a gente falava ‘bateu, foi comigo’. Por mais que seja uma história totalmente diferente da minha, tem essas interseções que ligam tudo, incluindo a minha forma de sentir, de viver, de compor, de escrever”.
A narrativa de Aqui, Agora, Todo Mundo é costurada por canções de diferentes fases da carreira de Jaloo — e é interessante como canções tão íntimas da artista dialogam tão bem com o espetáculo. Sobre isso, Barros explica:
Em nossa pesquisa para a trilha, começamos a escutar as músicas de Jaloo e a discografia dela praticamente inteira abraçou o espetáculo. Porque também fala de pertencimento, um corpo queer nessa cidade, São Paulo: em tudo que acolhe, tudo que engole, então, ela somou muito
“A gente sempre fala que fez esse espetáculo pela vida, porque a gente já morre todo dia nas mãos da sociedade. Então, é um espetáculo pra ficarmos juntos, vivos. A gente precisa desses lugares de cura, e o teatro tá aí pra isso. Eu acho muito legal termos um livro que vira uma peça, que pode virar uma outra coisa, e a gente vai só ampliando o que é o cerne da questão, que é falar sobre saúde mental”.
O espetáculo está em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso até o dia 1 de março.
Aqui, Agora, Todo Mundo
Em cartaz até 1 de março, aos sábados, domingos e segundas
Teatro Sérgio Cardoso - Rua Rui Barbosa, 153. Bela Vista, São Paulo - SP
Ingressos aqui















