
O páreo era duro para Kali Uchis no último domingo, 8/2, em São Paulo. O show da cantora coincidiu com a programação de pré-carnaval na cidade, que incluiu eventos das divas Luísa Sonza e Anitta, além dos megablocos da Skol com Calvin Harris e o tradicional Acadêmicos do Baixo Augusta. “As gays não sabiam aonde ir", me disse um amigo no fumódromo, enquanto aguardávamos o início do set da artista colombiana no Vibra.
Quem chegou cedo para pegar a performance de Urias, que apresentou as músicas do excelente Carranca (2025), circulou pela casa de shows com tranquilidade. Ainda que o microfone da cantora estivesse baixo, ela compensou com energia na coreografia e a banda entregou as músicas com precisão.
Marcado para às 20h30, Kali subiu ao palco com pontualidade e o espaço já estava abarrotado – quem comprou ingresso não deixou de ir. Fora isso, ninguém parecia ter ido direto da rua, pois os looks caprichados mostravam como a data era especial. Afinal, a única passagem da artista foi em 2023 no Lollapalooza Brasil; então ter uma noite só sua era algo aguardado pelos fãs, que cantaram a plenos pulmões tanto as faixas em espanhol, quanto em inglês.
Nascida nos Estados Unidos, e criada na Colômbia, Kali se vê como imigrante no país de nascimento, tanto que deixou claro como hoje em dia vive o sonho da infância. Após as luzes se apagarem, os telões mostraram uma série de frases, como “bênçãos não são acidentes, mas preparações para algo divino".
Com seis álbuns, e uma carreira de mais de uma década, ela se tornou um ícone do pop alternativo latino. No mosaico da ascensão da música cantada em espanhol da última década, Kali tem seu lugar de destaque, e divide espaço com nomes como Karol G e Bad Bunny. O show de domingo atestou a sua grandeza: não só pela estrutura do palco, ou por ser milimetricamente coreografado, e com telões e cenografia rebuscadas, mas pela sua deliciosa voz aveludada, com uma leve rouquidão natural e suspiros apaixonantes.
Ao longo de pouco mais de uma hora e meia, a artista conduziu o público por diferentes eras da sua história. O primeiro bloco, dedicado ao reggaeton e à salsa, incluiu músicas como “Muñekita” e “Me Pongo Loca", do Orquídeas (2024). Ainda que o som estivesse alto e o clima pegando fogo, ela se mantinha indiferente à bateção de bunda dos bailarinos, demonstrando um ligeiro desconforto na execução dos passos de dança. Pouco afetada aos gritos de “gostosa" da plateia, economizou na interação com o público e manteve-se focada na entrega da performance impecável.
Depois de tirar essa parte da frente, dedicou a segunda parte àqueles que a acompanham desde o início antes de introduzir “Melting", “Speed” e “Loner", do Por Vida (2015). Em seguida, cantou algumas das suas músicas mais conhecidas, como “Dead to Me” e “After The Storm", essa em parceria com Tyler, the Creator, e ambas do disco Isolation (2018).
Kali não é uma cantora de pop tradicional, pois o seu brilho reluz mais forte enquanto uma cantora de baladas românticas e boleros. Sem grandes pirotecnias, a força da sua apresentação reside na introspecção e no drama, não à toa, sobraram canções cantadas na cama montada no centro do palco, no divã sendo carregada pelos bailarinos e até mesmo em uma moto cenográfica. Mais próxima da Mariah Carey do que da Shakira, ela, disco a disco solidifica a sua base de fãs ávidos por letras poéticas e sonhadoras.
Já perto do final, enquanto trocava o vestido curto e brilhante por um longo esvoaçante, os telões mostraram um curta com imagens de trabalhadores colombianos e vídeos da infância da cantora. Enquanto a narração falava sobre a mudança de país, escuta-se que “o povo latino é mais do que estereótipos". Em tempos de intolerância e insegurança dos imigrantes nos EUA, o filme ganha caráter político e traz uma leitura sensível da artista sobre o assunto.
Para encerrar em grande estilo, não podia deixar de cantar “Telepatía", hit do álbum Sin Medo (Del Amor Y Otros Demonios) (2020), cujo refrão “fazer amor por telepatia” evoca por coincidência “Mania de Você", da Rita Lee. Por fim, debruçou-se no repertório do trabalho mais recente, Sincerely, (2025): “Lose My Cool", “For: You” e “Angels All Around Me…". O show bilíngue foi cuidadosamente executado pela cantora, que certamente se sente mais a vontade acompanhada de BPMs mais lentos. Sozinha no palco – pois não estava acompanhada de banda – percebe-se como Kali foi feita para os holofotes.















