stella (feature)

Stella mescla influências do hip hop e da poesia para criar seu próprio rito em “A Fim”


Por:

Revista NOIZE

Fotos: Divulgação/Mavi Retrata

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A Fim (2025) é a estreia de Stella na música. Produzido por dry e lançado de forma independente em outubro, o EP traz quatro faixas, inspirada por Juçara Marçal, Linn da Quebrada, Saskia, Edgar e Metá Metá, e uma narrativa sobre ancestralidade. “Minha vontade sempre foi transformar poesia em música: valorizar o ritmo e o grito”, explica a artista.

Atravessada pelas rimas do hip-hop e a pulsação da música eletrônica, Stella apresenta uma história bem amarrada, cheia de referências literárias e espirituais, nascendo do desejo de evocar A Fim, entidade capaz de te livrar da morte, como Stella explica no faixa a faixa abaixo.

Baiana criada em Sergipe, Stella mistura poesia e performance no trabalho de estreia “A Fim nasceu da urgência de recontar a própria história antes que o silêncio fizesse isso por nós”, comenta Stella. Além da música, Stella é poeta. Em 2021, publicou A mantenedora do ritual, no ano seguinte, Kizila, seu primeiro livro de poesia. 

Confira A Fim faixa a faixa:

“Simpatia”: com o desejo de evocar A Fim, essa entidade capaz de te livrar da morte, o eu-lírico cria uma simpatia, ritualizando a sua chegada. Então, o início de “Simpatia” é muito inspirado num ponto de pombagira mesmo, é como se eu estivesse clamando pela chegada dessa energia, mas não somente: convidando as pessoas a se preparem. Feche os olhos.

A ideia de criar um refrão extremamente repetitivo com “feche os olhos” surgiu quando eu li um artigo da Oyeronke Oyewumi em que ela tratava sobre o privilégio da visão no Ocidente e sobre como o privilégio da visão em detrimento de outros sentidos fundamenta muitas das violências sofridas por povos africanos em diáspora. Por isso, a ideia de convidar o ouvinte a fechar os olhos e se permitir ser conduzido por outros sentidos, como a audição.

“Despacho”: foi a primeira música do EP a ser lançada, porque ela é a que tem o maior potencial de impressionar na primeira escuta. Ela é extremamente agressiva, mas dançante. É envolvente, mas ácida. Em termos de sonoridade e de conceituação, ela transmite exatamente a mensagem que eu gostaria de passar enquanto artista: a arte reflete o seu tempo, incomoda e inspira a movimentar.

A letra também é inspirada em outra leitura. Dessa vez, do livro Yurugu: Uma crítica africano-centrada do pensamento e comportamento cultural europeu, da Marimba Ani. No livro, a autora tece uma extensa rede de análises que se estendem sobre a história, a sociologia, a antropologia e a filosofia europeia. Dessas análises, abre compreensões abrangentes, sem perder a profundidade, das raízes ontológicas do racismo do homem branco. Ou seja, “Yurugu” se tornou um verdadeiro mapa que nos conduz ao que faz da humanidade branca necessariamente racista e seus colonizados alienados de sua própria cultura.

A ideia de “Despacho” então é mobilizar um convite ao expurgo de todas as práticas influenciadas pelo pensamento e comportamento europeu. Por isso, recusa-se a dor, denuncia-se o trancafiamento em quartos de despejo e acusa a branquitude de ser a peste causadora de problemas. A escolha da palavra "pestes" para o refrão tem a intenção de reforçar territorialidade, como se fosse a tradução sergipana para Yurugu.  

Foto @maviretrata (3)

“Assim Seja”: pra mim, é a alma do EP. Ela consolida toda a intenção do EP em si, e é justamente nela que A Fim surge. Em termos de continuação da história, depois do “Despacho”, o desejo de evocar A Fim é realizado. Então ela surge para te convidar a dançar. A libertação vem por meio da dança, do movimento, dos corpos. Pra mim, ela é um frankenstein, a letra vai pra lugares muito diferentes, muito rápidos, o instrumental é uma grande colagem digital de sons penetrantes, acho incrível de verdade modéstia a parte. Após o primeiro refrão, a música sofre uma virada como se fosse terminar, a ideia de surgir com um texto falado que diz: "O poema não acabou surgiu na madrugada anterior à gravação, enquanto eu fritava sem conseguir dormir de ansiedade pra gravar essa música".

“¼ de desejo”: ela é literalmente ¼ do desejo que A Fim simboliza. Das quatro faixas, ela é a que decide se encarar, se conhecer, se perceber. A ideia era construir uma progressão lírica que se parecesse com uma carta de amor. Uma declaração para uma paixonite ou algo assim. O que eu queria era fazer com que a pessoa ouvisse a faixa toda pensando que era sobre um affair, até o último verso em que eu canto “juntas”. Não é sobre buscar A Fim em outra pessoa, nem mesmo numa energia divinizada. Mas sobre encontrar em si a própria alternativa ao fim.

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