
Nesta quinta-feira (23), Zé Ibarra leva a turnê de Afim (2025) para o Cine Joia, em São Paulo [veja ingressos abaixo]. Para aquecer para o show e o álbum, título #104 do Noize Record Club, relembramos a entrevista de capa com o artista, publicada na revista que acompanha o disco. Confira na íntegra abaixo:
Com os cabelos molhados, Zé Ibarra abre a porta meio esbaforido para receber a reportagem. Quando o músico carioca está em São Paulo, se torna morador dos Campos Elíseos. Após o lançamento de Afim, em junho de 2025, ele fica meio nômade, entre os dois lados da Dutra.
Gestado durante dois anos, o disco surge na ressaca do fim da turnê com o Bala Desejo, grupo dividido com Lucas Nunes, Dora Morelenbaum e Julia Mestre. Anteriormente, ele integrou a Dônica, banda compartilhada com o mesmo Lucas Nunes, Tom Veloso, Deco Almeida e Miguel Guimarães.
Todos os integrantes foram alunos da Escola Parque, na Gávea. Filho de mãe advogada e pai fotógrafo, o artista cresceu entre as aulas de bateria e piano. O violão e o canto também foram incentivados dentro de casa.
“Sou debochado, entendeu? Sou carioca. No Afim, eu precisava mostrar isso. Estava sendo muito difícil subir no palco para performar algo que as pessoas queriam ver. Eu queria quebrar essa imagem”, lembra o compositor. Mesmo com o ímpeto para dar início ao trabalho, não quer dizer que a sua elaboração foi fácil, pois se vê como perfeccionista.
“Sofri muito pra fazer o disco. Fiquei inseguro, tive muito medo, quase não lancei. Regravei muitas vezes as faixas. Um dia, o Chico Lira me chamou e falou: ‘Não deixe ninguém te convencer que você está maluco. Se precisar apagar mil vezes, apaga, mas faz o que você acredita’. Eu quase chorei”, conta o músico.
A visão do criador, que também assina a produção musical, trouxe à tona oito faixas com referências de MPB, rock, jazz, bossa nova e pop. No entanto, ele não é pai solo, pois o registro traz um timaço na cozinha das canções, como o baixista Alberto Continentino, os percussionistas Daniel Conceição e Rodrigo Pacato, o baterista Thomas Harres, o guitarrista Guilherme Lirio e o trio Copacabana Horns, grupo formado por Diogo Gomes, Marlon Sette e Jorge Continentino.
O elenco nos bastidores ainda conta com Jaques Morelenbaum no arranjo de cordas da faixa “Transe", composição assinada por Zé Ibarra e um dos seus maiores orgulhos. Há ainda parcerias com Tom Veloso (“Morena”) e Dora Morelenbaum (“Essa Confusão”). Fora as autorais, ele gravou letras de Ítallo França (“Retrato de Maria Lúcia”), Sophia Chablau (“Segredo") e Maria Beraldo (“Da Menor Importância").
Inclusive, foi justamente a canção do Cavala (2018) que o aproximou do público queer. “Enquanto eu não ouço sua voz/ Eu não sei dizer se é um homem/ Ou uma mulher", diz os versos da música. A colocação se encaixa no repertório do disco, que visa traduzir alguns mal estares contemporâneos.
“Sou um cara hétero, não vivo isso na pele. Mas faço música para subverter as expectativas. E acho que quanto mais pessoas incorporarem essa mensagem, mais longe esse discurso pode alcançar. Acho que nós estamos vivendo um novo mundo com dissoluções das estruturas sociais, seja vivendo elas a nível pessoal ou não", reflete Zé.
O imaginário da masculinidade é colocado em xeque. “Eu sou frágil pra caralho”, canta a plenos pulmões em “Hexagrama 28", de Sophia Chablau. “Faço confissões no disco, falo coisas que o mundo não deixa que a gente diga socialmente, mas em música eu tento abordar”, afirma o músico nascido em 1996.
As vulnerabilidades foram o ponto de partida da elaboração do projeto: ”Estava mal, desacreditando da música. Estava distante, fazendo muitos shows, apenas executando, sem criar. Senti a urgência brutal de mostrar quem eu sou, porque ninguém vê. É complexo admitir isso”.
Para além do núcleo colaboradores, ele encontrou respostas nos discos que o formaram, obras de Tom Jobim, Abba e Negro Leo. A salada de referências passa pelo filtro da música pop: “Vejo como reflexo do tropicalismo – aproveitar o que já existe para fazer uma coisa única".

Afinidades sonoras
A relação com a MPB setentista vem do berço, ou pelo menos, foi forjada na adolescência. Em 2015, Zé Ibarra escreveu a sua primeira canção: “Dônica", a música, que depois batizaria a banda, surge da troca com Tom Veloso, filho de Caetano e Paula Lavigne. Com o apoio do casal, o quinteto estreou com destaque e lançou o disco Continuidade dos Parques.
“A Paula nos ajudou como empresária. Ela identificou o nosso talento e nos deu oportunidades. Fiquei imerso em um ambiente cultural realmente interessante. Não só pelas conversas com o Caetano, mas por toda a galera que frequentava a casa naquele momento", lembra o cantor.
Transitar por esse círculo abriu as portas que o levaram até Milton Nascimento. A afinidade foi tanta, que Bituca o convidou para as suas últimas turnês, momentos em que além de dividir o palco, fez a apresentação de abertura dos shows.
“Aprendi a ser ponta firme durante esse período, a estar sempre 100% presente. Comecei as aulas de canto que faço até hoje. Sentia que não tinha espaço para erro. Não tem como cantar mal ao lado do Milton, tocando para Quincy Jones, Herbie Hancock e esperanza spalding”, conta sobre o período formativo.
Em paralelo a isso, ele dividia os holofotes com os parceiros de Bala Desejo, projeto iniciado em 2020. O disco Sim Sim Sim (2023) levou o troféu de Melhor Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa no Grammy Latino e rendeu turnês no Brasil, na Europa e Ásia, além de apresentações no Rock in Rio e Primavera Sound.
Todavia, junto do sucesso, veio uma chuva de ódio nas redes sociais. As críticas fizeram o grupo amadurecer: “Tento entender o que o Bala Desejo representava dentro da sociedade. O que nós – jovens do lugar mais privilegiado do país – comunicamos? O que nós podemos e queremos comunicar? Em termos psicológicos, foi mais fácil do que a Dônica. Ainda assim, foi muito difícil, porque é complicado bancar a figura pública. Dá muito medo”.
Com a maré baixa, o cantor entendeu que em todas essas experiências potencializaram a sua visão artística, então seguir solo era o caminho natural. Foi a mola propulsora que o levou a colocar Marquês, 256. (2023) no mundo. Ele estava, enfim, só.
Com oito músicas, o trabalho foi feito sem banda, longe dos estúdios e muito diferente do que estava acostumado a fazer até então. Gravado na escadaria do prédio da avó, aproveitou a reverberação natural para destacar o som da voz e do violão.
“O Marquês foi o começo, estava saindo de casa. Hoje, não faria mais um disco naquele formato. Eu, em um lugar confortável e familiar, seguro para dizer alguma coisa que estava sentindo urgência de falar. Comecei a perder o medo de me expor e de colocar a cara como cantor”.
A obra traz canções de Sophia Chablau, Guilherme Lamounier, Caetano Veloso e Wally Salomão, Milton Nascimento e Fernando Brant. “Esse projeto inaugurou a possibilidade de ser intérprete. Antes disso, eu apenas cantava músicas minhas. Começar a compor foi o que me fez nunca parar", aponta Zé.
Com a boa recepção do projeto, entendeu que precisava se reinventar mais uma vez: “Precisava revitalizar a minha imagem no mercado porque fiquei taxado como artista voz e violão, um cara que canta coisas bonitas e emocionantes".
Foi este caminho que o levou até Afim, uma versão mais madura e consciente de si, um híbrido entre linguagens exploradas desde a estreia com a Dônica. Em turnê com o novo repertório, ele enxerga um horizonte de possibilidades: “As realizações me permitem continuar trabalhando próximo da minha verdade. Quanto maior você fica, mais liberdade você tem para fazer o que quiser".
Zé Ibarra No Cine Joia
quinta, 23 abril, às 19h
Cine Joia - Praça Carlos Gomes, 82 - Liberdade, São Paulo - SP













