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Como saber se o vinil está caro? Lojistas contam como precificam LPs


Por:

Revista NOIZE

Fotos: Reprodução

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Quem começa a garimpar discos percebe que dois álbuns aparentemente iguais podem ter preços bem diferentes. Um mesmo álbum pode custar R$ 80 em uma loja, R$ 300 em outra. Mas o que diferencia essa oscilação de preços? E, ainda, por que alguns vinis são tão caros? A Noize conversou com lojistas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador para entender como eles costumam classificar o preço de um vinil.

Muitas vezes, essa diferença acontece porque o estado de conservação — do disco e da capa — pode variar muito, para além da tiragem, da demanda de mercado e até da reputação de quem vende. A edição também pesa muito: às vezes, não é o álbum em si que é raro, mas uma prensagem específica. Tudo isso pode aumentar o valor.

Para organizar esse universo, colecionadores e lojistas do mundo todo costumam recorrer ao método Goldmine Standards Grading System, criado pela revista especializada Goldmine Mag

Esse método classifica os discos por estado de conservação: por isso, ao receber o disco, o lojista precisa pegar na capa, consultar se veio com encarte referente à edição, se o disco está arranhado, se a capa está em boas condições… e, principalmente, ouvi-lo para saber se o áudio está chiando, se há música pulando, entre outros fatores. Assim, cada disco recebe uma nota que vai de Mint (M), condição perfeita, até Poor (P), quando o item já apresenta danos severos. 

Entre esses extremos, estão as classificações mais comuns no mercado, entre bons/muito bons, como Near Mint (NM), Very Good Plus (VG+) e Very Good (VG). “É um método muito famoso, utilizado no mundo todo. É maneira por escrito de sabermos como está a conservação da cópia”, explica Natalia Gaio, proprietária da Molotov Discos, em São Paulo.

A metodologia é adotada internacionalmente e serve de base até para o Discogs, principal marketplace global de vinis. A lógica é simples: quanto melhor o estado de conservação, maior o valor. Mas, na prática, a precificação está longe de ser automática.

“O mercado também determina o valor. Às vezes o disco foi prensado há muito tempo, em tiragem pequena, e hoje ele se torna mais raro. É o caso do Paêbirú (1976), do Zé Ramalho e Lula Côrtes, que se perdeu por causa da enchente da gravadora. Esses detalhes influenciam no preço”, diz Antônio Portela, proprietário da loja Vinil Radical, em Salvador.

Claro que o método, apesar de muito usado, não é unânime. “Eu acho um pouco subjetivo”, nos conta Adriano, proprietário da Vinilleria, em Belo Horizonte. “Prefiro conversar com o cliente explicando o estado de conservação caso a caso”, conta. Comparar o preço em sites como Discogs e Mercado Livre também é uma dica. “Como esses sites têm uma variação grande de preços, tento sempre me manter dentro de um valor equilibrado. Com a experiência, também vamos acompanhando o mercado e entendendo melhor o que faz sentido para cada disco”.

Outra estratégia usada por ele e outros lojistas é justamente… garimpar. “Costumo dar uma volta pelas lojas aqui de Belo Horizonte para ver se não estou destoando muito, nem para cima, nem para baixo. Tento manter um preço um pouco mais baixo que o da concorrência, mas ainda dentro do que o mercado está praticando”, conta Adriano.

Os outros entrevistados com quem conversamos utilizam o Goldmine, ainda que com ressalvas. “No início, eu usava bastante esse método, mas, com o tempo, percebi que não fazia tanto sentido para o meu público. Muitos clientes não estavam familiarizados com essa classificação e só queriam saber se o disco estava inteiro e em boas condições. Então, hoje, meu foco é garantir essa qualidade, independentemente de usar a escala”, conta Rebeca Picanço, da Goyaba Discos

Quando ela vai precificar um disco, o primeiro critério é a disponibilidade da edição no mercado. “Muitas vezes, não se trata somente da demanda do artista ou do álbum em si, mas especificamente da edição. Então, quando eu vou precificar um disco, confiro as informações como ano de lançamento e selo/gravadora, que podem fazer toda diferença no preço final”, diz.

Natalia usa um padrão semelhante. “Analiso, principalmente, o estado de conservação da cópia, edição do disco, o apelo comercial daquele título específico no comércio do vinil e a quantidade de cópias que foram fabricadas. São esses fatores que fazem um disco ser mais caro que outros”, revela.

Os disqueiros ainda nos contaram quais são as pedras preciosas de suas lojas — aqueles discos que, de tão raros, seja pelo artista ou pela tiragem — acabam sendo mais caros. A Tábua da Esmeralda (1974), de Jorge Ben, e os discos dos Mutantes lançados na época foram alguns dos citados.

Discogs e outros guias de consulta

Além da análise física, lojistas consultam o comportamento do mercado. O Discogs funciona quase como uma tabela informal de referência internacional: ali é possível verificar quanto determinada edição foi vendida recentemente, em quais condições e por quais valores. 

Mas nem sempre o histórico internacional se traduz diretamente para o mercado brasileiro. Taxas de importação, circulação local e a própria demanda regional podem alterar bastante o valor final. Por isso, não dá pra tratar o site como regra absoluta.

E o Noize Record Club?

Perguntamos também se os lojistas trabalham com discos do Noize Record Club, e todos disseram que sim.

Por ser um clube de assinatura de vinis, que envia mensalmente discos com exclusividade para quem assina (com direito a uma revista exclusiva sobre o universo do vinil!), a disponibilidade desses discos depende do assinante querer passá-los para a frente. Ou seja, como todo disco de vinil “de segunda mão”, passa por uma curadoria, também,de quem vende. “Por isso, o preço de revenda de um disco da Noize fica mais caro — porque os sebos têm que ter uma margem de lucro”, conta Portela.

Para Natalia, os valores do disco da Noize variam de acordo com o apelo comercial que cada título tem. Ela conta que os discos da Marina Sena são os mais procurados — o NRC lançou De Primeira (2021), Vício Inerente (2023) e Coisas Naturais (2025) em vinil. ”Ela é unânime. Seja Coisas Naturais, De Pimeira... todo disco dela é muito procurado. Posso ter várias cópias na loja, sei que vou vender todas”, conta. Isso se reflete até na demanda do clube: após muitos pedidos, a estreia da cantora contou com uma reprensagem — e com todos os discos novamente esgotados.

Já Adriano, que também é assinante NRC, diz que também tem muita novidade que sai rápido em sua loja. "Para além dos clássicos, uma turma tem buscado artistas mais novos. Zé Ibarra (Afim), por exemplo, tem uma galera que pergunta bastante, assim como O Terno (2014) e Cansei de Ser Sexy (2005)... sempre tem um público mais jovem atrás dessa cena”. O que importa é que o mercado de vinil está sempre se renovando — o que se reflete diretamente no aumento da demanda dos lojistas. 

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