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Confluências de ritmos desembocam no Psica; saiba como foi o festival


Por:

Isabela Yu

Fotos: Divulgação/ @tveronica, @_xaandra, @lilismoreira e @lorenafadul

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Realizado no último final de semana, entre 12 e 14 de dezembro, em Belém, o festival Psica chegou a sua maior edição: cerca de 110 mil pessoas circularam entre os seis palcos. Com programação gratuita na sexta-feira, o evento levou milhares de pessoas a peregrinar pelo centro histórico; já no fim de semana, o Mangueirão foi ocupado por uma programação intensa de música. 

Por um lado, o Psica é um festival tradicional. Com mais de 70 atrações, a programação tem tanta coisa legal que dá vontade de estar em todos os palcos ao mesmo tempo. Mas, para além de entregar bons shows com cuidado acústico – o som é alto e potente – o evento inova na escalação de artistas, ao criar pontes entre diferentes estilos e gerações da música nacional. 

Neste ano, o evento sofreu com a baixa de Viviane Batidão, que ficou presa em São Paulo por conta do ciclone tropical. Nos bastidores, os organizadores e curadores Jeft e Gerson Dias contaram que tiveram apenas cinco dias para a montagem no estádio, pois o Calcinha Preta usou o local para gravar um DVD na semana anterior. 

No entanto, nada disso ofuscou o brilho do Psica, cuja missão é destacar a fartura musical paraense, trazer à cidade shows de nomes que não conseguiriam vir solo e expandir as conexões interestaduais. Segundo a organização, cerca de 20% do público vem de outras regiões. Os fundadores definem o público como “periférico alternativo", a geração entre 18 e 40 anos, que concluiu o ensino superior graças às políticas públicas. 

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“Nós somos o nosso público", disse Gerson durante a coletiva de imprensa no último sábado. “Na periferia se escuta de tudo, foi essa a nossa formação. Criamos um line-up com autenticidade, não soa caricato, é autêntico". A dupla organiza o Psica desde 2012 e vem lapidando o evento até chegar ao formato que tem hoje. O ponto de virada aconteceu em 2021, quando passaram a escalar as equipes de aparelhagens para encerrar o festival. Neste ano, inauguraram o centro cultural Casa Dourada na região central e se tornaram patrimônio cultural imaterial. 

Para o DJ e pesquisador Zek Picoteiro – que se apresentou no domingo no palco Karretinha –, a programação do festival é formada por uma musculatura identitária: “O Psica cria uma experiência de reconexão com nós mesmos e com a nossa própria cultura. Talvez muita gente que estava no show da Patrícia Bastos na sexta-feira nunca a tenha visto na vida, mas ouvia falar pelos pais ou avós. Isso vem de um lugar de afeto.”

Criador do podcast sobre música ribeirinha Afluentes, Zek destaca a expansão pan-amazônica entre os artistas do evento. “O Armando Hernández, da Colômbia, nem imaginava que teria esse público. A peruana Rossy War, no ano passado, ficou de cara com a galera cantando em espanhol", pontua o pesquisador. 

“A marca da Rossy tem a mesma fonte da aparelhagem Rubi. A bota que ela usa é a mesma da Joelma. São linhas imaginárias, que não são tão imaginárias assim: são os rios que levam e trazem essas conexões. A Joelma levou a turnê para o Peru, daqui a pouco é a Viviane Batidão e a Zaynara. Essas rotas estão voltando a se conectar, e o Psica tem o seu papel nisso. A conexão é pela Amazônia.”

Por dentro do Psica

Em Belém, haverá sinais bem claros se o público aprovar o show: o sintético “é sal” e o entusiasta “endoida, caralho". No último final de semana, não faltaram motivos para a repetição da cena na plateia. O negócio agradou geral e não havia jeito – era preciso jogar a cintura no ritmo e dançar conforme a música pedia. Até porque as equipes do Carabao, Rubi e Crocodilo incendiaram os remanescentes noite adentro. 

Cada dia trouxe boas opções que iam do tecnobrega ao reggae, do samba ao rap, havia um pouco de tudo para paladares variados. A genealogia do brega paraense foi muito bem representada pelas bandas Xeiro Verde, Voo Livre e Frutos Sensual

O ícone do brega pop Wanderley Andrade protagonizou um dos momentos marcantes desta edição ao cantar em cima de um banheiro químico, pois achou que estava distante da plateia. A princesa do tecnomelody, Carol Lyne, fez sua estreia no Psica e se consagrou como um dos nomes a ficar de olho na nova geração. 

Os artistas de fora querem entrar no rock doido e encerram os shows com remixes assinados pela DJ e produtora Baby Plus Size: Ajuliacosta e Mateus Fazeno Rock, terminaram as apresentações à moda da casa. Inclusive, o show da rapper paulista levou uma multidão ao palco Kabana do Nego Gerson, localizado na área de fora do estádio. 

O esperado show do disco Novo Testamento (2025) movimentou o público, que tinha as letras na ponta da língua. "Para eu estar aqui hoje, muitas pretonas tiveram que existir antes", disse a artista. De Alcione a Beyoncé, ela celebra aquelas que abriram caminhos e a possibilitaram se tornar um dos nomes mais quentes do rap nacional. 

Vale ressaltar que todas as escalações do Psica de fora do estado são artistas com trabalhos recém-lançados: Marina Sena apresentou o seu Coisas Naturais; BK’ convidou Evinha para cantar “Só Quero Ver” e “Cacos de Vidro", destaques do Diamantes Lágrimas e Rostos para Esquecer, Terno Rei levou o show do Nenhuma Estrela e Os Garotin trouxe o Os Garotin de São Gonçalo (2024). 

Para celebrar os 50 anos de Canta Canta, Minha Gente, Martinho da Vila regeu a banda com tranquilidade. “Faço as coisas devagar", disse distribuindo sorrisos. No caso de Dona Onete, a rainha do carimbó chamegado estreou o show Quatro Contas, com direito a fogos de artifício e corpo de baile. Um encerramento de ano digno de lenda, como a artista é reconhecida dentro e fora do estado. Confluindo sons e gerações, o Psica encerra mais uma edição com motivos de sobra para comemorar. 

Por:

Isabela Yu

Fotos: Divulgação/ @tveronica, @_xaandra, @lilismoreira e @lorenafadul

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