
Getúlio Abelha lançou Autópsia+ (2026), álbum que expande universo de Autópsia (2025), eleito um dos melhores dos ano pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). O repertório é enriquecido com cinco faixas inéditas: "O Corte”, “Brincadeira do Ossinho”, “Zé Pinguelo”, “Espantalho” e “A Cova", que você confere detalhes faixa a faixa abaixo.
Além disso, "Ranço” e “Caranguejeira Satanista”, antes apenas disponíveis no vinil de Marmota (2021), chegam às plataformas digitais. O resultado das 12 faixas é dançante, o forró e o brega é enriquecido com camadas eletrônicas, pop, psicodelia, rock e punk.
Destaque no cenário do forró LGBTQIA+, Getulio Abelha também explora outros gêneros brasileiros. Este lançamento, porém, surge com uma temática mais soturna. “O disco trabalha o conceito de morte, enterramento… tudo o que fica para depois”, reflete. Por aqui, além do forró, ele trabalha com o rock e o eletrônico, também passeando pelo jazz ao longo das novas faixas.
Co-produzido por Glhrmee, vale destaque para a faixa “Espantalho”, composição em parceria com Alice Caymmi e Helô Duran. O trabalho visual de Getúlio impressiona o público e crítica. O clipe de “Freak”, inclusive, acaba de vencer o Music Video Festival Awards na categoria Potência Criativa, com co-dirigido por Fernanda Fiuza, veja vencedores aqui.
Confira Autópsia+ faixa a faixa:
“O Corte”: quis começar o disco com uma coisa meio ritualística, quase um mantra. A sonoridade é mais rock e eletrônica, não tem muito a ver ainda com o forró ou com o brega que aparecem depois no trabalho. Pra mim, ela funciona como a primeira cena de um filme. Eu gosto de usar sons que criam imagens, quase cinematográficos, pra já colocar a pessoa dentro do clima do álbum.
A letra vem de uma inquietação muito forte minha: essa curiosidade de saber o que as pessoas falariam da gente depois que a gente morre. Porque depois que eu morrer eu não vou saber. Então existe essa vontade meio desesperada de ouvir agora o que talvez só falariam depois. Quando eu canto “Depois que eu morrer eu não vou saber o que vão postar lá no meu altar”, é meio isso: querer receber em vida aquilo que às vezes só aparece quando a pessoa já foi.
“Freak”: é a faixa que traz o primeiro desvio do disco depois da abertura, mas ainda funciona como uma introdução do clima geral. Ela fala muito sobre como estou me colocando artisticamente no mundo depois do meu primeiro álbum. Eu gosto de começar projetos com uma música meio existencialista, porque é como abrir a porta da minha cabeça e convidar as pessoas pra entrar no estado em que eu tô vivendo agora. Em alguns momentos, isso inclui mostrar partes bem surreais da minha mente, sem tentar explicar demais. Escolhi a cumbia porque sinto que ela tem um pé ancestral em várias vertentes da música nortista e nordestina. Também me interessa muito provocar essa ideia de que música dançante não precisa ser rasa. Dá pra dançar e pensar ao mesmo tempo. Essa faixa ainda ganhou clipe e prêmio de potência criativa no MVF, o que pra mim foi uma validação muito bonita desse caminho.
“Brincadeira do Ossinho”: nasceu no interior do Ceará, em Canindé. Eu tava lá uns dias com um amigo e a gente encontrou umas ossadas no sertão. Comecei a gravar vídeo brincando, catando os ossos, improvisando, e daí saiu o refrão da música. Depois vieram as danças, a brincadeira toda em volta disso.
Musicalmente eu sempre imaginei uma mistura de piseiro com referências de boi ou maracatu. A música parece bem divertida, mas a letra na verdade é mais pesada do que parece. Ela fala de quando as coisas ficam frágeis, quando tudo parece que vai cair. Aí não tem muito o que fazer além de juntar os cacos e tentar continuar. Os ossos acabam virando meio que um símbolo disso: do que sobra depois que tudo quebra. Mesmo assim, a música propõe continuar dançando.
“Toda semana”: em “Freak” e “O corte” eu quase insinuo que explorar o forró já não é mais minha prioridade, mas em “Toda Semana” eu meio que desminto isso. O forró pode até não ser o ponto de partida do disco, mas ele continua sendo minha base emocional, minha memória afetiva. E essa faixa deixa isso bem claro. Ela tem um clima nostálgico, com referências de emo e pop rock que eu ouvi muito, misturadas com a batida e a energia do forró eletrônico. A letra fala de solidão e das experiências noturnas na cidade. Sinto que minha mudança pra São Paulo intensificou muito esse sentimento.
É muita gente, muita coisa acontecendo, mas ao mesmo tempo existe um vazio que cresce no meio disso tudo. Tem um momento em que eu digo que não vou mais ficar no forró, mas eu gosto de deixar isso meio ambíguo. Pode ser sobre minha trajetória artística, pode ser sobre uma situação específica dentro da história da música. Acho que essa é uma das minhas favoritas do disco, junto com “Zé Pinguelo”.
“Engulo ou Cuspo”: essa aqui é pura diversão. Uma brincadeira meio sem vergonha mesmo, onde eu me permito largar os pudores e exagerar tanto na letra quanto na mistura de referências. O desafio foi juntar o funk com aquela malícia clássica do forró de duplo sentido e a energia do reggaeton. Pra deixar essa bagunça ainda mais interessante, convidei as Katy da Voz e as Abusadas, que chegaram com uma energia muito potente e somaram muito à narrativa. Tem um espírito meio punk nessa faixa, no sentido de fazer sem pedir licença. Acho que ela é a música mais explícita do disco, e isso foi totalmente intencional. Eu queria ter esse espaço mais descarado dentro do álbum. Também sei que ela conversa muito direto com uma parte específica do meu público.
“Zé Pinguelo”: a ideia era misturar forró com pop, hip hop, funk dos anos 90, e tem até umas brincadeiras com jazz ali no meio. O Zé Pinguelo é um personagem que representa um tipo de gente que não quer se comprometer, ou que vive fugindo de profundidade emocional. Ele vive numa realidade meio idealizada onde ele se acha o mestre do amor, mas na verdade inventa história pra fugir da dor.
Quando eu canto “Quando fala de amor tem alergia e só gosta do que só tem amanhã”, é sobre isso: gente que nunca tá disponível de verdade. Só que no final da música acontece uma virada. Eu começo a me perguntar se na verdade eu não tô falando de mim também. Quando aparece a pergunta “Será que eu tô falando dele ou do que eu vou me tornar?”, a música vira um espelho.
“Espantalho”: veio de uma composição que a Alice Caymmi me enviou. Eu mexi na música, adaptei algumas partes pra que os símbolos e as imagens ficassem mais dentro do universo do álbum e da minha estética. Minha amiga Helô Duran também me ajudou a pensar algumas coisas.
Musicalmente ela vai pra um forró romântico bem clássico, com aquela cara de anos 2000. A música fala de um estado emocional bem frágil. É quando a pessoa não quer nem conversar porque já tá machucada demais. As imagens da letra, espantalho, carranca, fera ferida, são todas sobre essa sensação de não se reconhecer mais.Tem uma hora que eu canto” “Eu nunca fui isso, o que houve de errado?”, que é meio esse choque de perceber que você virou uma coisa que não imaginava virar.
“Armação”: é praticamente uma pegadinha sonora. Tudo nela foi pensado pra fazer qualquer fã de forró eletrônico dos anos 2000 se sentir confortável logo de cara. Aquela sensação de festa, de chamar alguém pra dançar juntinho, clima romântico, meio nostálgico. Só que aí, quando o refrão vai chegando, a música começa a se transformar e vira outra coisa. Vai ficando mais intensa, mais eletrônica, quase como se saísse de uma festa de interior e fosse parar numa viagem espacial.
Eu adoro imaginar casais que começam dançando agarrados e, de repente, ficam sem saber como reagir quando o som muda completamente. Apesar de ser dançante, a letra continua falando de solidão, que é um tema que atravessa o álbum inteiro. Os beats ajudam a transformar esse sentimento de abandono em movimento, em algo físico. A repetição da letra também é proposital. Aqui, o som fala tanto quanto as palavras. Chorar e dançar acontecem ao mesmo tempo nessa música.
“Zezo”: nasce como uma homenagem indireta ao universo das serestas. O nome faz referência ao cantor, mas a música não é sobre ele literalmente. É mais sobre a sensação que esse tipo de música provoca, aquela melancolia bonita que parece sempre carregar uma despedida dentro dela. A letra fala muito sobre fins. Fim de ciclos, de relações, de fases e até da própria vida, dependendo de como cada pessoa escuta. Eu gosto quando uma música abre espaço pra várias interpretações, e essa é uma que eu prefiro ouvir o que o público sente antes de explicar demais. Já ouvi histórias muito diferentes surgirem a partir dela. Misturar seresta com dubstep pode parecer estranho no papel, mas eu gosto justamente desse tipo de encontro improvável. É quando coisas que não deveriam funcionar juntas acabam criando algo novo.
“A Cova”: é a música mais difícil do álbum pra mim. Ela é uma viagem meio louca, com várias misturas de estilos. Ainda tenho um estranhamento com o começo dela, mas ao mesmo tempo confio muito no experimento. Pra mim ela funciona quase como um material bruto, uma coisa que abre caminho pra várias ideias. É uma faixa que pode inspirar outras coisas depois. Dentro do disco ela também conversa com esse tema que atravessa o álbum todo: morte, enterramento, o que fica depois.














