
Em 1977, Luiz Melodia encontrou a maior parceria de sua vida na capital da Bahia. O que seria apenas uma viagem casual a Salvador transformou-se no estopim de uma relação de amor e trabalho que perpassou toda a vida do artista, e além. Jane é a mãe de Mahal, o segundo filho de Melodia, e foi também a sua esposa, produtora e empresária desde o fim dos anos 1970 até o seu falecimento, em 2017. Hoje, ela é a principal responsável por cuidar do legado do artista que foi o seu grande amor.
1. Como foi o primeiro encontro de vocês?
Nessa época, eu trabalhava com moda. Não fiz vestibular, não fui pra faculdade, comecei a viajar e, quando conheci o Luiz, eu costurava, bordava. Sempre estive envolvida com música, mas não fazendo a produção. Aí ele foi numa festa na minha casa, que era aniversário de um amigo meu, que também era amigo do pessoal do [grupo de teatro e dança] Dzi Croquettes.
Luiz estava na Boca do Rio [bairro de Salvador], na casa do nosso compadre Ricardo Augusto, e aí o pessoal do Dzi Croquettes convidou ele pra essa festa e ele foi. A gente começou a namorar ali e ele ficou lá. E ficou em Salvador. Depois, eu me mudei e ele também foi junto pra outra casa. E ficou. Não tínhamos planos, nem eu nem ele, os planos fizeram-se ali. Mas a gente começou a conviver desde o primeiro dia em que a gente se viu.
2. Quando a relação de vocês transformou-se também em uma relação de trabalho?
Foi na Warner, quando ele estava fazendo o Nós (1980). O Mahal ainda era muito pequenininho, ainda engatinhava; e, toda vez que eu viajava junto, a produção dava muito certo. Ficava tudo muito organizado. Aí, o Midani [André Midani, então presidente da gravadora Warner no Brasil] me contratou pra viajar com eles no Projeto Pixinguinha (1979).
Aí eu fui trabalhando pra deixar tudo mais organizado, começou assim. Depois, foi se desenvolvendo. A gente tinha uma afinidade muito grande de pensamento e de projeto, tudo caminhava muito junto e foi dando certo. Era muito harmonioso. Como eu tinha muita intimidade, eu dava ordem nos horários. Aí ele brincava: “Meu produtor não me trata assim, só você me trata mal!” [Risos] Mas não passava disso.
3. Quais eram os hábitos musicais do Melodia dentro de casa?
Antes, ele tocava o tempo inteiro, a ponto de eu ir me deitar e o violão estar no meu lugar. E, quando eu tirava o violão da cama, precisava deixar em frente, ele tinha que ver o violão dele. Depois, começou a tocar menos, ele tocava mais quando estava sozinho. Mas ele ouvia muita música, ouvia muita gente desconhecida, ouvia muitos CDs que ganhava na estrada, dava muita atenção aos artistas que não tinham voz.
Todos os CDs que ele ganhou durante esse tempo inteiro, ele trouxe pra casa e guardou. E escutava.
"Quem me apresentou Liniker foi ele: “Você precisa ver essa pessoa, vem ver”. Com a Tássia Reis também foi muito engraçado, ele escutou e ligou pra ela: “Oi, é o Melodia, tô ouvindo você aqui, que maravilha”. E ela: “Ah… Tá…”. [Risos]. Acho que ela não acreditou que era ele, não!"
4. Como está sendo para você cuidar do acervo que ficou?
Acho que agora eu tô pronta pra começar a mexer . Eu tô começando a me preparar para isso. Porque até agora eu sempre estive junto das pessoas que estão desenvolvendo algo a partir da memória dele de toda forma que é necessário e possível. Mas agora eu vou pra dentro de casa mergulhar no acervo dele. Precisa ser feito isso e, agora, eu já posso fazer.
5. Já saiu biografia em livro, documentários, há também músicas guardadas?
Tem um disco inédito, que é um projeto que ele já tinha as letras e os parceiros que ele queria. A gente já tinha desenhado isso e vamos desenvolver no momento certo. Porque ele não era o Luiz Melodia, era o “Luiz Letra”. (Risos) Ele fez muitas letras, estão todas aqui. O que eu quero é criar um instituto com o acervo dele, é o que eu pretendo.
* Esta matéria foi publicada originalmente na Revista Noize #107, que acompanhou o kit de vinil de Luiz Melodia, Pérola Negra, lançado pelo Noize Record Club em 2020.













