
No título, Barulhinho Bom (1996), de Marisa Monte — que ganhou edição em vinil pelo NRC+ — pode até ser grafado no singular, mas ao mergulhar no disco, o ouvinte entra no embalo de barulhinhos diversos, no plural. São sons que passam pelo pop, forró, e, também, pelo samba, gênero ao qual a artista presta homenagem em “Dança da Solidão”, registrada ao vivo.
A releitura de Paulinho da Viola já tinha aparecido em Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão (1994), predecessor de Barulhinho Bom. Naquela ocasião, com participação de Gilberto Gil, que uniu forças para interpretar a canção lançada num álbum de mesmo nome, em 1972.
Alguns passos para trás na discografia de Marisa, o samba também dá as caras. Dona Doca, Dona Surica e Dona Eunice, Pastoras da Portela, participam de Mais (1991), segundo trabalho da cantora. Elas fazem o coro de “Ensaboa”, um pout-pourri que une a composição de Cartola à “Lamento da Lavadeira”, de Monsueto de Menezes.
Quanto mais se volta no tempo, mais se nota que a relação de Marisa Monte com o samba foi construída ao longo de outros carnavais. Os primeiros aconteceram na década de 1970, período em que o pai dela, Carlos Monte, atuou como diretor cultural de uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio de Janeiro, a Portela – já nos anos 2000, ele coescreveu o livro A Velha Guarda da Portela. Ao Jornal do Brasil, ela disse:
“Quando meu pai deixou a escola, eu era muito pequena, tinha uns 8 anos. Mas mesmo fora da Portela meu pai me ensinava os sambas. É uma lembrança de infância”
Foi por conta dessa proximidade que, aos 9 anos, ela ganhou seu primeiro instrumento musical, uma bateria. “Como eu gostava de sambar, diziam que eu tinha ritmo. Então eu tive essa ideia da bateria”, compartilhou em entrevista à União Brasileira de Compositores, quando recebeu o título de doutora honoris causa pela Universidade de São Paulo, em 2024.
Azul Portela
“É minha neta”, brincou Seu Cláudio Bernardo da Costa, um dos fundadores da Portela, ao mencionar Marisa Monte em 1999. A fala veio direto da Marquês de Sapucaí, naquele que seria simultaneamente a última vez que o patrono desfilaria no sambódromo e a primeira da artista defendendo a escola. Com o samba-enredo “De volta aos caminhos de Minas Gerais”, ela veio no carro da Velha Guarda, junto com o pai, ao lado de ícones como Monarco, Tia Surica e Waldir 59.
O amor e o respeito de Marisa pela Velha Guarda da Portela – organizada por Paulinho da Viola em 1970 e considerada patrimônio cultural imaterial da cidade do Rio de Janeiro em 2023 – fez com que a artista fosse atrás de maneiras de manter viva a memória da agremiação e daqueles que tornaram a Azul e Branco tão grande quanto ela é hoje.
Assim nasceu Tudo Azul (2000), disco produzido por Monte, que traz a Velha Guarda para cantar sua própria história. “A gente levantou um repertório com cerca de 300 músicas, muitas delas inéditas em gravações”, conta o cineasta Emílio Domingos, responsável pela pesquisa do projeto.
“A partir dessa lista, nos reunimos com a Velha Guarda, que ia se lembrando dos nomes dos compositores e de suas composições. Eles iam cantando, música a música”, compartilha. “Era um prazer enorme ver ali Monarco, Casquinha, Tia Surica, Tia Doca, Tia Eunice, Áurea [Maria], Jair do Cavaquinho, Argemiro, entre tantos outros, cantando aquelas músicas para a gente.”
O resultado são dezoito sambas que escaparam do risco de serem esquecidos. Ao longo do trabalho, a voz da Velha Guarda é a protagonista, mas algumas outras vozes pedem a benção para se juntar à dos mais velhos. Tudo Azul tem participações de Cristina Buarque, irmã de Chico; Paulinho da Viola; Zeca Pagodinho; e também de Marisa Monte, na faixa “Volta, Meu Amor”, composta por Manacéa e Áurea Maria.
Para Domingos, além de resgatar a memória da Portela, o disco teve um papel importante na oxigenação dos nomes desses compositores e pastoras, e de outras velhas guardas, que se inspiraram pelo movimento. “A Velha Guarda é um arquivo-vivo da escola. Eles são a própria história do samba. Foi um momento único, e a gente tinha consciência da importância daquilo.”
Desvendando o mistério
No fim da década de 1990, enquanto as pesquisas de Tudo Azul tomavam seus contornos iniciais, esses bastidores ganharam registros audiovisuais. Começou de maneira despretensiosa, com a direção de Lula Buarque de Hollanda e Carol Jabor, mas logo todo mundo envolvido percebeu que estava tocando em ouro. Daí surgiu o documentário O Mistério do Samba (2008).
“Foi um processo muito longo, mas muito feliz”, Lula recorda. Ao longo de dez anos, eles se aproximaram dos integrantes da Velha Guarda da Portela, indo aos bairros de Oswaldo Cruz e Madureira para ouvir suas histórias e os sambas que os tornaram bambas. Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho também entram para essa roda, em participações especiais.
Esse contato todo respingou na discografia de Marisa Monte. Vencedor do Grammy Latino de Melhor Álbum de Samba/Pagode, Universo ao Meu Redor (2006), lançado no mesmo dia que Infinito Particular (2006), comprova isso em catorze faixas.
“Os sambas de Jaime Silva, Argemiro, Dona Ivone [Lara], Casemiro [Vieira], Moraes [Moreira] e Galvão, alguns com mais de cinquenta anos, uniram-se à produção contemporânea da Adriana [Calcanhoto], do Paulinho [da Viola], do Arnaldo [Antunes], do Carlinhos [Brown] e minha, no repertório de O Universo ao Meu Redor, esse meu disco focado mais do que no samba, eu diria, na atmosfera do samba, com seus assuntos mais frequentes — o amor, a natureza, a própria música, a condição humana, o canto dos passarinhos, o quintal, o convívio através da arte…”, assina na contracapa do disco.
Dois anos depois, O Mistério do Samba chegou, exibido no Festival de Cannes e, para Emílio Domingos, que contribuiu também na pesquisa do documentário, com ecos do que Wim Wenders fez ao filmar Buena Vista Social Club (1999). Marisa Monte foi produtora, participou do desenvolvimento do roteiro e aparece em diversos momentos do filme.
“Uma cena muito especial é quando a gente vai na casa da Dona Neném, a viúva do Manacéa, e ela abre uma mala cheia de fitas cassete”, Lula divide. “Esse momento é muito sobre o trabalho que a Marisa faz de recuperação e de pesquisa de músicas que nunca foram gravadas. Ela fala que aquela mala é um tesouro, encontra as letras e já começa a cantar. O filme é cheio dessas descobertas.”
O diretor interpreta que a artista pegou o bastão de Paulinho da Viola, que lá atrás se comprometeu com os mais velhos da Portela e produziu o disco Portela, Passado de Glória (1970), com composições e interpretações deles. Ao lado do sambista, Marisa ainda fez uma turnê em 2017, misturando canções dos repertórios dos dois a clássicos d’A Majestade do Samba.
Na reta final de O Mistério do Samba, Marisa Monte faz uma confissão a Paulinho da Viola: “Eu gosto de muitas coisas de música, mas poucas me emocionam e comove como a Velha Guarda. Acho que a mesma curiosidade que moveu você, me moveu. Essa certeza de que a vida ia ser melhor com esses sambas.”










