
*Escrito por Miguel Jost
Lado A
1. Drama
"Drama" é uma espécie de tema-convite para o novo trabalho de Rodrigo Amarante. Ao mesmo tempo que é prólogo ou abertura, é uma chamada para aceitar a ambiência polimorfa e polifônica que delineia a trajetória de Rodrigo já há algum tempo e que se faz novamente presença em seu novo trabalho. São dois minutos que preparam e instigam no mesmo sentido que os dois minutos que antecedem o terceiro sinal de uma peça. O tema vibra como a voz do locutor do circo vibra quando entoa seu "respeitável público, o circo chegou". No detalhe, o tema já anuncia algo que se mantém presente ao longo de todo o disco: o contágio entre o pessoal e o coletivo (a individualidade do banho a soar em meio ao aplauso da plateia e a grandiosidade orquestral); entre o poético e o político - que marca toda a aventura disco -; entre o estranho e o familiar. O nome do tema, mesmo do disco, se assemelha curiosamente ao que Cavalo (a partir do seu entendimento no candomblé) sinalizava no primeiro disco solo de Rodrigo. Se entendemos Drama a partir da etimologia grega e sua sugestão para ideia de ação/encenação, podemos sentir melhor essa semelhança que é a do corpo que se faz ausente e presente, que é passagem e instante, que é instrumento de representação e de materialização, que é veículo e ponto de chegada, que é verdade e ficção, que é física e metafísica. Sem hierarquia, sem relação de causa e efeito. E sim contaminação entre essas falsas dicotomias. O tempo curto do tema engana. A intensidade de sugestões já denotam ali muito do porvir que segue.
2. Maré
Canção que soa como espécie de galope, sugerindo um andamento alegre, mas com contrapontos poéticos e de arranjo que borram um sentido de alegria ingênua ou meramente despretensiosa. A canção traz um elemento percussivo que se faz presente em outras faixas do disco criando uma espécie muito particular de balanço que permeia Drama. A citada referência ao carimbó serve mais como âncora para situar a música do que como inspiração explícita a ser reconhecida por um ouvido menos instrumentado. O que seu balanço entrega é definido mais pelo assovio e voz de Rodrigo do que por um sentido rígido de célula rítmica que possa ser medido e classificado. É mais balanço de veleiro do que de navio, de asa delta do que de avião. É o apito da maria fumaça embalando o caminho. A poética textual de "Maré", especialmente para os fãs mais íntimos de toda trajetória de Rodrigo, é uma nuvem de referências que ora tangenciam ora tocam os grandes momentos de sua produção cancional nas últimas duas décadas. "Maré" é uma espécie de bricolagem dos muitos Rodrigos que experimentamos até o lançamento de Drama. Mas não no sentido de DNA ou de mapa genealógico deste artista. E sim sobre seu jogo. Jogo de máscaras, jogo de cena, jogo de vozes, jogo de narradores, jogo de personas, jogo de lembranças. Jogo no sentido teatral de play para os americanos ou no sentido teatral de jouer para os franceses, ou seja: drama, ação/encenação, entrar em cena, atuar. E essa canção não deixa nenhuma dúvida. Rodrigo gosta desse jogar, desse play, desse jouer.
3. Tango
Talvez, de todas as canções de Drama, a que explicita de forma mais direta que esse disco é sobre jogar para/com o outro, é sobre dançar junto, é sobre atuar com o outro em cena, é sobre fazer a travessia em parceria, é como a relação de confiança entre o portô e o volante num picadeiro. Aliás, não devemos negligenciar essa curiosa tangente que Rodrigo, em diversos momentos de sua trajetória, traça com o circo. A itinerância, a sobreposição e contaminação de formas e linguagens, o murmúrio que soa no ambiente do circo, o elementar e o complexo andando juntos, o solo e o voo, o imaginário e concreto. Rodrigo é um artista do risco e de muitos desses elementos acima como são todos os artistas do circo. E é também simples e direto como se quer o circo. E como é esse "Tango". O clipe lançado junto com a música diz tudo isso de forma muito melhor. Vale ver!
4. Tara
Os ouvidos brasileiros formados e, por vezes, até condicionados pela sonoridade da bossa nova, mal respiram antes de afirmar: "Tara" seria o momento joãogilbertiano de Drama. Por mais elementar que seja essa conexão, seria mais produtivo perceber que essa conexão imediata diz mais sobre o João Gilberto que incorpora o cancioneiro brasileiro dos anos 1940/1950 do que sobre o João Gilberto que teria feito a ruptura com o passado a partir do seu primeiro disco. Rodrigo Amarante, como denuncia não só sua embocadura como cantor, mas inclusive sua discografia particular, foi sempre um ávido consumidor do bolero brasileiro, dos crooners pré-bossa nova, das orquestrações desse período e das canções que formaram o imaginário da nossa música popular nesses anos. "Tara" nos lembra que nossa canção popular e urbana pré-bossa nova já produzia um manancial de possibilidades estéticas muito antes das complexidades harmônicas que Tom Jobim foi buscar na obra de Debussy. E que dessas possibilidades, talvez as texturas sejam as que mais imprimiram alguma coisa na obra de Rodrigo Amarante. A letra também remete a outro elemento chave que tornou a canção popular brasileira tão significativa no mundo: a composição de rimas perfeitas em meio a toda a complexidade que a língua portuguesa nos oferece. E tudo isso sem passar nem perto de perder o mais forte dessa faixa, sua simplicidade, beleza e força poética.
5. Tanto
"Tanto" é uma canção que remete a um traço ímpar da poética literária de Rodrigo Amarante, que é sua capacidade de borrar sentidos e significantes em uma direção que deseja mais ser sensação do que objetividade, que quer mais ser trânsito do que lugar. Como sugere a canção, olhar e enxergar não são ações similares e é nesse tipo de nuance/diferença que a gente pode entender que existem muitas formas de “estar no mundo''. E que talvez a procura pelo translúcido seja só mais uma mania de revelação, mais uma forma cristã de interpretar o mundo como desejo de verdade. E isso é justamente o que não cabe em Drama. Drama é um disco para aqueles que já não perdem tempo pensando em mito e caverna, em luz como revelação, mas que escolhem entender que “estar no mundo” é mais sobre superfície, sobre a potência do falso, sobre um jogo que confunde luz e sombra.
6. I Can't Wait
Talvez a canção de maior transbordamento desse Drama. Letra com forte intenção de passionalidade e que retrata uma perspectiva mais limítrofe do vínculo amoroso. Com uma arquitetura poética extremamente complexa para o usual das canções em língua inglesa, "I Can't Wait" exprime um conjunto de sentimentos nos quais a intensidade é infinitamente superior a qualquer dialética típica das narrativas do amor romântico. Sua textura instrumental dialoga intrinsecamente com esse transbordamento. Os sintetizadores e vocais de Cornelia Murr, junto com as intervenções percussivas de Daniel Castanheira, constroem um ambiente absolutamente amoroso e incerto, gentil e desconfortável, que não nos permite qualquer certeza sobre a sonoridade da canção ou sobre a relação de amor que ela descreve.
Lado B
1. Tao
“No arco do olho / entre os cílios do sol / pavão”. O fato desse verso carregar em si o melhor da arquitetura cabralina junto com o melhor da lírica drummondiana deveria encerrar qualquer outro comentário sobre essa música. Trata-se, certamente, de um dos grandes momentos literários da música em língua portuguesa. Mas "Tao" ainda merece ser destacada por um traço único que carrega dentro do Drama, que é sobreposição das línguas portuguesa e inglesa em uma mesma canção. Nesse sentido, cabe comentarmos sobre esse lugar que, definitivamente, Rodrigo ocupou. É recorrente no trabalho de vários filósofos, linguistas, psicanalistas e intelectuais de diversas natureza a reflexão sobre o ato de escrever em língua estrangeira como um dos processos mais complexos de descoberta e acesso ao outro. Escrever em língua estrangeira, mais do que um ato de decodificação da gramática ou do vocabulário, é um ato de inventar uma outra língua a partir dos códigos que definem aquela língua. Nessa invenção, se coloca um jogo de reconhecimento do outro, de descoberta do outro e de relação com a alteridade extremamente instigante. É nesse espaço de invenção e aventura, que é inevitavelmente um espaço de instabilidade, que Rodrigo demonstra de forma mais aguda a extrema contemporaneidade do seu trabalho: tradição / traição / tradução se confundem para, no final, se tornarem somente matéria poética e política. Jogo de vozes que se tornam uma espécie de palimpsesto: texto sobre texto sobre texto. "Flor do lácio sambódromo." Não é sobre defender a ideia de original, nem do ato criativo como genialidade ou como unicidade. Mas sim sobre atravessar, sobrepor, montar, combinar e encenar a partir do jogo de roçar entre línguas. Ou seja: dramatizar o mundo.
2. Sky Beneath
A abertura da canção, com seu centro na levada percussiva, dá pistas absolutamente dispersas sobre o desenrolar dessa faixa. A textura da voz, remetendo a uma tradição do tom grave entre cantores de língua inglesa como Robert Wyatt e Leonard Cohen - junto ao arranjo de cordas - criam uma das paisagens sonoras mais originais de todo o álbum. "Sky Beneath" tem uma ambiência que remete a caminhar no frio sentindo certo calor, é uma espécie de solidão da voz sendo povoada por tambores e cordas. É a faixa que sublinha de forma mais destacada o jogo entre pessoal e coletivo que atravessa boa parte do Drama. O verso “The salty wind that burns me cold / invents the sun, behold” não deixa nenhuma dúvida sobre esse jogo. Inventar um sol a partir do que o corpo sente. Acontecimento. Vibração. Presença.
3. Eu Com Você
De todas as canções do disco, é aquela que mais fala sobre algo que Rodrigo Amarante coloca como um dos argumentos centrais deste Drama: o eco das vozes que o formaram. A letra, a abertura de vozes do arranjo, o clima de "levação de som” como se diz na linguagem dos músicos, o arranjo instrumental quase como curtição, o balanço que embala uma vontade de estar junto. Aqui é de suma importância falar sobre isso que chamamos de eco de vozes. Quando Rodrigo, artista de voz singular, original e marcante, autor de trabalhos e canções absolutamente íntimas e particulares, nos lembra que tudo isso vem de uma espécie de mixagem das vozes e corpos que o afetam desde seu lugar de criança aprendendo a linguagem pela imitação, passando pelos rituais de passagem marcados por violência e poder, ele nos coloca todos atentos para esse ato decisivo do que nos torna contemporâneos: Nossa voz só existe como manifestação da presença de muitos outros que nos atravessam.
4. Um Milhão
Para os fãs brasileiros que acompanham todos os trabalhos de Rodrigo Amarante de forma mais próxima, "Um Milhão" já era uma canção relativamente conhecida. Mas a forma como surge neste trabalho propõe um olhar sobre a faixa a partir de outras referências. Se Drama é marcado por “momentos de passagem”, que marcam a experiência subjetiva, como expressado pelo próprio compositor, "Um Milhão" é a canção que assinala de forma mais explícita o jogo que Rodrigo propõe entre o poético e o político. Ao mesmo tempo que fala da passagem do tempo como algo que transforma o jeito de um menino olhar o mundo, transformando escalas de tamanho e perspectiva, a faixa se remete também àquilo que transforma as cidades a partir da lógica da especulação imobiliária e da violência do capital sobre questões de demografia e território. Um jogo de tempo e espaço que se transforma não só pela passagem dos anos inscrita no corpo, mas também pela cidade que avança sobre o chão que é de todos Talvez "Um Milhão" seja a canção, ao mesmo tempo, mais pessoal e política de todo esse trabalho.
5. The End
É, entre as canções de Drama, aquela que mais conversa com o sentido evocado pelo título do álbum e que, de alguma forma, como já dito aqui, se aproxima do sentido de Cavalo. Tanto a letra da canção quanto seu arranjo evocam essa ideia de um jogo de presença/ausência, luz/sombra e do tempo como passagem e instante. O jogo de palavras com as estações do ano (outono, primavera, inverno) compõe uma poética do trânsito e um sentido de transmutação que acontece tanto no corpo quanto na natureza, no pessoal e no político. Só o verão, momento que o sol mostra toda sua onipotência de astro rei, de centro irradiador de luz e força, de certeza incandescente, esse fica pra mais tarde. Em The End, como no Drama de forma geral, interessa mais o que reluz menos. Assim, Rodrigo abre espaço para que nós, ouvintes, possamos enxergar e sentir mais.
















