
Em 2020, a repórter Brenda Vidal conversou com Mahal Reis, rapper e filho de Luiz Melodia —na época, o Noize Record Club estava lançando o vinil de "Pérola Negra". Para celebrar a obra de um dos grandes nomes da música brasileira e o lançamento de mais um disco de Melodia pelo clube, relembramos o depoimento do artista publicado originalmente na edição 107 da Revista Noize.
A relação com o meu pai era muito boa, sempre foi. Desde a minha adolescência, a gente fumava maconha, bebia juntos, conversávamos muito. Eu filosofava muito com o meu pai… ele era um cara muito aberto, muito amigo, mesmo.
Tem uma frase que é como um frame do meu pai na indústria musical, uma descrição para o artista que ele foi, que é a seguinte: “O homem tem medo do que não entende e odeia o que não consegue conquistar”. Ele era inclassificável e muito estratégico; sabia o que queria fazer e não se vendeu para preservar sua energia musical, artística e pessoal. Para ficar na boa com ele mesmo, dormir com a consciência tranquila de quem fez o que sentiu, o que tinha como objetivo.
Eu acho que o disco Pérola Negra é um caldeirão… como eu posso dizer? É uma obra-prima muito polida, é o Iluminismo da favela, o momento em que a corte da favela está importando sua riqueza única, uma singularidade misteriosa, singela. Pérola Negra é uma arma secreta da MPB, chegou como um divisor de águas da Tropicália e do samba.
É um trunfo na história da nossa música porque mostra um artista sem estereótipos, com muita elegância e competência em todos os temas nos quais surfa, entendeu? Neste disco, tem umas que eu gosto de ouvir mais, como “Objeto H”. Quando algo acontece e me deixa mais reflexivo, eu gosto de botar “Abundantemente Morte” para dar uma balanceada. Normalmente coloco as mesmas, tenho ímã por algumas seletas.
Meu pai gostava de compor com os amigos, como o Ricardo Augusto e o Papa Kid principalmente quando mais novo, mas teve uma época em que ele tinha uma casa em Penedo, aqui no estado do Rio de Janeiro, para a qual ele gostava muito de ir e ele compunha muito lá! Minha mãe falava que ele gostava de compor no closet, olha só! Ele se fechava no closet e compunha… acho que era mais silencioso; ele ficava lá com os pensamentos dele.
Poeticamente, ele é a mistura de tantos estilos que chega a ser difícil de dizer. Meu pai tem essa coisa muito mística, sobrenatural, algo esotérico… ao mesmo tempo, é psicologia humana pra caramba. Era um cara muito cerebral escrevendo; conseguia zerar o jogo em cada letra! Tanto na lírica quanto nos arranjos, ele é bem visceral e orgânico, além de escrever com muita elegância. Sempre esperou pelo momento certo de fazer as coisas… eu via muito isso nele e me identificava com isso. Além dele ser muito sensual na composição.
Eu sempre o ouvi muito. Algumas músicas do meu pai me arrepiam, é algo que eu já ouvia quando ainda estava na placenta da minha mãe, já nos estúdios em Mico de Circo (1978) [disco de Luiz Melodia]. Então, é orgânico, é uma coisa raiz, uma sintonia total. Meu pai é muito urbano, a música dele tem elementos que tem a ver com o rap, ele ouvia desde sempre, gostava e fez um rap em dos seus discos [a faixa “Saco Cheio” de Claro (1988)]. A métrica do meu pai tem essa percussividade de rap, essa coisa que é encorpada, às vezes mais seco, às vezes dá uma salpicada.
Quando eu vou compor, eu me conecto com ele nessa busca pelo desafio de alcançar um rigor lírico. Tento fazer uma coisa tão primorosa e elegante quanto a dele quando eu pego a caneta. Tento ser bastante popular e especial como ele compunha, ser tão coletivo e singular quanto.














