As origens do carnaval de Salvador e o surgimento do axé, que completa 40 anos

28/02/2025

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Por: Luciano Viegas

Fotos: Divulgação, Reprodução/Arquivo Público de Salvador

28/02/2025

Entre idas e vindas, há muito tempo, o carnaval de Salvador se consolidou como um dos principais do Brasil, tanto pelas proporções, quanto pela importância artístico-cultural. Através dele, diversos artistas surgiram, muitos ritmos apareceram e um sem número de músicas se tornaram sucessos nacionais. Um carnaval que há muito tempo é reconhecido como uma das maiores festas populares do país, mas que já sofreu diversas transformações e, desde sempre, foi também palco para disputas. 

Assim como os diversos carnavais pelo Brasil, a festa em Salvador foi trazida pelos colonizadores portugueses. Inicialmente era o entrudo, uma brincadeira popular. Na sequência vieram os bailes de máscaras, os tradicionais desfiles de carros alegóricos e corsos, além das primeiras sociedades carnavalescas, dominadas pela elite baiana e pela população branca. Na década final daquele século XIX, poucos anos depois da Abolição da Escravatura, no entanto, começaram a surgir as primeiras organizações e agremiações do povo negro, os afoxés.

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O encontro de Adolfo Antônio do Nascimento (Dodô) e Osmar Alvares Macedo (Osmar), nas primeiras décadas do século XX, deu novos rumos para o carnaval. Juntos eles desenvolveram um violão eletrificado, batizado incialmente como Pau Elétrico, mais tarde aperfeiçoado e denominado como Guitarra Baiana. Alguns anos depois, em 1950, após assistirem o desfile do famoso Clube de Frevo Vassourinha, entidade carnavalesca de Pernambuco, restauraram um velho Ford Bigode 1929 sem capota e criaram a Fobica, com cornetas propagando o som. Era o prenúncio do que viria a se tornar o trio elétrico.

Com o tempo, a criação foi desenvolvida, com o pequeno Ford sendo abandonado e substituído por um veículo maior, agora com oito alto-falantes, corrente elétrica de geradores e iluminação com lâmpadas fluorescentes. Outros trios elétricos surgiram na sequência e consolidaram o formato no carnaval, normalmente levando o nome de empresas patrocinadoras. 

Neste período, entre os anos 1950 e 1970, surgem novas agremiações, as escolas de samba e blocos de índio, com um perfil mais popular e negro, e os blocos de trio, mais elitizados, criados em geral por pessoas da classe média alta. Estes, inicialmente animados por bandas de percussão e sopro, já na década de 1970 passaram a ser puxados por trios elétricos.

O trio Dodô & Ormar ficou ausente da festa por um período, retornando somente em 1975, agora como uma banda completa formada pelos irmãos Macedo: Betinho, Aroldo, André e Armandinho. Este último deu novos contornos à guitarra baiana e foi o responsável por levar Moraes Moreira para próximo da família. Moraes passou a compor, cantar, produzir e integrar o agora denominado Trio Elétrico Armandinho, Dodô & Osmar. Recém-saído dos Novos Baianos, se tornou rapidamente um dos principais compositores do carnaval. 

Naquele ano, o trio comemorava seus 25 anos e teve seu primeiro disco lançado. Até então, a música nos trios elétricos era instrumental, com os frevos eletrificados e congêneres dando o tom na festa. Moraes não só colocou voz pela primeira vez nos frevos baianos em disco, como foi também a primeira pessoa da história a cantar em um trio elétrico. Na ocasião, ainda de forma rudimentar, já que aproveitou o microfone sem tanta qualidade que servia para o velho Osmar se comunicar com o público. Entrou para história. 

Moraes ajudou a emplacar diversos sucessos com o Trio Elétrico Armandinho, Dodô & Osmar e criou alguns marcos e hinos da festa, como “Pombo Correio”, “Chão da Praça” e “Chame Gente”. Ele foi fundamental por revigorar a música carnavalesca em âmbito nacional e atrair a juventude para a festa, já que há tempos as marchinhas haviam feito sucesso e não haviam novidades no segmento. Caetano  deu uma enorme contribuição para isso com a clássica “Atrás do Trio Elétrico”.

Os Novos Baianos também foram pioneiros, foi em cima do trio da banda que Baby do Brasil (à época, Consuelo) se tornou a primeira cantora a se apresentar em um trio elétrico. Já Moraes seguiu levando para o violão as batidas dos blocos afro e as levada dos afoxés, abrindo novas possibilidades para a festa.

Os anos 1970 e 1980 foram de sucesso e domínio do frevo baiano dos trios elétricos, mais acelerados que os pernambucanos e com a guitarra baiana substituindo os sopros. Mas foi também nesse período que surgiram os blocos afros, dando outra reviravolta na festa. Criado em 1974, no bairro do Curuzu/Liberdade, o Ilê Aiyê, inspirado nos Panteras Negras, apareceu com enredos temáticos que exaltavam a cultura negra e falavam de racismo em plena Ditadura Militar. Além dos temas, o bloco levava as indumentárias e um ritmo novo, o samba reggae, baseado na percussão. Formado exclusivamente por negros, o bloco teve uma repercussão negativa na imprensa e sofreu com o preconceito das elites.

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O Ilê Aiyê inaugurou um espaço e, a partir dali, diversos outros blocos afro foram criados em vários bairros da cidade e ganharam as ruas, como Olodum (1979), no Pelourinho; Malê Debalê (1979), em Itapuã; Araketu (1980), em Periperi, Muzenza (1981), na Liberdade, e o afoxé pop Badauê (1978), no Engenho Velho de Brotas. Mesmo com essas novas atrações ocupando as ruas, a luta por espaço e reconhecimento permaneceu, mas, finalmente, a majoritária população negra soteropolitana deixou de ser mera coadjuvante e passou a ter mais protagonismo no carnaval. Eles seguiam enfrentando muito preconceito e mesmo sem a visibilidade merecida, serviram de matéria-prima para o surgimento de uma nova cena musical que viria a seguir.

Nos anos 1980, ocorreu uma grande transformação do carnaval de Salvador. Diversos novos nomes surgiram produzindo uma música que misturava tudo que tinha vindo antes, entre eles Luiz Caldas, Gerônimo, Ricardo Chaves e Sarajane e bandas como Mel, Reflexu’s, Chiclete com Banana e Beijo. Cada uma a seu modo, mesclavam o som do trio elétrico com os tambores, a música afro-baiana, samba reggae, ijexá com frevo elétrico, galope e com outros elementos da música brasileira, latina e caribenha, e mundial, passando por rock, reggae, pop e afins. Era o surgimento do que viria a ser denominado de Axé Music. 

Ao mesmo tempo, vários novos blocos de trio foram criados nesse período, de forma mais profissional, e consolidaram um novo formato no carnaval. Entre eles estavam Eva (1980), Cheiro de Amor (1981), Pinel e Tiete Vip’s (1982), Beijo, Mel e Traz a Massa (1983), Crocodilo e Frenesi (1985) e Pike(1986). Nesta época, os horários dos desfiles passaram a ser definidos de acordo com a data de fundação da entidade, e os principais blocos de trio vincularam-se aos cantores/banda que os puxavam.

O início dos anos 1990 é marcado pela explosão da Axé Music em todo país. Impulsionados pelo sucesso de Daniela Mercury e de seu álbum O Canto da Cidade (1992), vários artistas despontaram nacionalmente. A Axé Music colocou a música baiana em evidência e alterou os rumos do carnaval de Salvador. A explosão daquela música atraiu investimentos, aumentou o número de turistas e fez tudo crescer exponencialmente na festa. O potencial comercial e as altas cifras envolvidas fez empresários se articularem com o poder público e dominarem ainda mais a organização e os rumos do carnaval, num novo capítulo do carnaval de Salvador. 

Se já existiam blocos com cordas e segregação, o sucesso da Axé Music potencializou essa lógica ainda mais. O modelo, com milhares de associados, que pagavam valores elevados para desfilar com os abadás, se expandiu e passou a dominar a festa. Os altos preços e o condenável método de seleção dos associados, com critérios racistas e preconceituosos, a partir de análise de fotos, raça e endereços, promovia a classe média alta e branca novamente como protagonista.

Existiam blocos com perfil mais popular, como Tiete Vips e Papaléguas, mas aos poucos eles perderam força e protagonismo. Houve ainda uma forte retração dos trios independentes sem cordas e inibição dos blocos de matriz africana. Os anos 1990 viu ainda a consolidação de uma nova leva de artistas, como Ivete Sangalo, Timbalada e É o Tchan, este abria o caminho para explosão de uma nova sonoridade no carnaval de Salvador, o pagode baiano. No rastro da banda, várias outras do gênero fizeram sucesso, como Terra Samba, Harmonia do Samba, Parangolé, Psirico e cantores provenientes destes grupos, como Léo Santana.

Insatisfeito, Moraes passou um bom tempo longe da festa, se apresentando em outras praças. Fez músicas e dava entrevistas criticando fortemente o modelo da Axé Music e só voltou ao carnaval de Salvador anos depois. O Trio Elétrico Armandinho, Dodô e Osmar também sofreu consequências, obrigados a desfilar em horários ruins e até sofrendo constrangimentos nos circuitos da festa em algumas circunstâncias. Assim como diversos outros nomes, especialmente artistas e agremiações ligados à população negra.

Havia um modelo que beneficiava os blocos de trio e os artistas que surgiram e se consolidaram com ele. Os empresários negociavam os horários do desfile e compravam as melhores posições, ganhando visibilidade na mídia. Os blocos de trio cresceram e ocuparam boa parte do espaço das ruas, com cordas, seguranças e imensa estrutura, ofuscando e espremendo todo o resto.

A Axé Music reinou no país, exportou seu modelo para outras praças, mas com o tempo parou de se renovar artisticamente. Outras novidades surgiram no mercado musical brasileiro e o movimento baiano arrefeceu. As cifras diminuíram e vários blocos de trio foram perdendo a força, com muitos deles deixando de existir, enquanto os camarotes ganharam força. Com isso boa parte do público com mais recursos foi deixando de ocupar as ruas e voltando à antiga lógica de festas fechadas. Enquanto isso, nos circuitos da festa os trios sem cordas e os blocos afro voltaram a ganhar força.

Nos últimos anos, novos nomes surgiram e vem reforçando esta mudança, como o BaianaSystem, com seu Navio Pirata, e vários artistas do pagodão, enquanto outros, que se notabilizaram puxando blocos, baixaram as cordas de seus trios e passaram a puxar para os chamados foliões pipoca, remunerados agora com dinheiro público. As mudanças e as disputas seguem acontecendo e o futuro da festa segue em aberto.

Esta matéria foi publicada originalmente na Revista Noize #147 que acompanha o vinil “Moraes Moreira” (1975), lancado em 2024.

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28/02/2025

Luciano Viegas