
“Não há respeito pela memória negra no país. Acho um absurdo eu ter que ficar atrás das autoridades no Brasil. Pedindo e convencendo as pessoas, de que o Naná Vasconcelos e a sua obra precisam de um memorial”, diz Patrícia Vasconcelos, viúva do artista. “É fácil falar com quem entende a obra: jornalistas, fãs, quem vai relançar o disco na França, autor de um livro sobre Naná. Mas, ter que convencer o Estado que é necessário manter a obra fisicamente em um espaço cultural público é o meu pior desafio".
Após o falecimento do esposo, em março de 2016, Patrícia adotou os Estados Unidos como casa para acompanhar a filha na graduação e tentar novas parcerias para cuidar do acervo. Ela imaginou que teria mais contato com gravadoras e museus, já que o músico viveu fora durante quase 30 anos – e estava certa. Enquanto os convites para desdobrar a obra de Naná Vasconcelos chegam por chão estadunidense, em Recife, cidade natal e tão querida pela família, a proposta do memorial está longe de ser viabilizada.
No lado sul do mapa, Anelis Assumpção também se vê na particular situação de herdeira de um patrimônio cultural brasileiro. Desde que Itamar Assumpção faleceu em 2003, ela assumiu a missão de reverberar a obra do pai: publicou livros, lançou dois discos com composições guardadas — Petrobrás 2 e 3 —, remasterizou todos os discos e realizou o documentário Daquele Instante Em Diante (2011). “Percebemos uma procura cada vez maior de pessoas desenvolvendo teses acadêmicas sobre o Itamar, a Vanguarda Paulista ou o homem negro na música brasileira, temas que eram ligados a ele e com poucas fontes de pesquisa”, comenta Anelis.
Entretanto, havia a necessidade de centralizar todo o acervo, então Anelis viu uma oportunidade com o edital de preservação de memória digital da Petrobrás. Para realizar a empreitada, contou com a colaboração de Frederico Teixeira como diretor artístico, e as curadoras Ana Maria Gonçalves e Rosa Aparecida do Couto Silva. Lançado em 2020, o Museu Itamar Assumpção reúne textos, documentos, discos, fitas e fotos.

Totalmente interativo, apresenta seções como acervo, discografia e exposições. Na sala dedicada à obra de Serena Assumpção, há ainda trabalhos sobre religiões de matriz africana, nas exposições temporárias, propostas de diálogos entre a obra de Itamar e artistas contemporâneos, como o brasiliense Dalton Paula, e a sala Afro-Brasileiro Puro, terminação que Itamar tomou para si na faixa "Cabelo duro", presente no Isso Vai Dar Repercussão. Nela, o visitante encontrar uma timeline da vida do Itamar com links, muitas fotos e contextos históricos.
Além disso, é o primeiro museu brasileiro a ter textos traduzidos em iorubá. “A língua constrói ou estimula o pensamento como uma ponte”, elabora Anelis, enquanto conta sobre o resultado do teste de DNA, no qual descobriu que a sua ancestralidade vem da Nigéria. Da mãe, Zena, tem descendência italiana. “Definitivamente o Itamar não era europeu e infelizmente não soube em vida de onde ele veio. Iorubá era a língua que seus ancestrais falavam. Uma língua viva, falada praticamente no continente inteiro, mas da qual a gente desconhece. O museu ser traduzido em iorubá tem o papel de provocar esse lugar: para que parte dos nossos antepassados a gente dá mais atenção, foco e valor? Como a gente consegue reorganizar a história que foi contada?”.
A decisão de Anelis de ter o museu em iorubá dialoga com a persistência de Patrícia. Afinal, é tudo sobre memória. Como não permitir que a história da música brasileira seja lavada de branco? Naná foi um músico multidisciplinar – com investidas no jazz, maracatu, orquestras e trilhas sonoras – então seu memorial também precisa ser múltiplo. A viúva imagina uma casa no Recife antigo com salas dedicadas a vida e a obra, mas também com espaço para outros artistas e programação que dialogue com a cena cultural da cidade. Ela também gostaria que a casa da família fosse preservada e aberta ao público, um formato frequente, usado para a preservação do legado de artistas – como a Casa de Guimarães Rosa, em Minas Gerais, ou a Casa de Portinari, em São Paulo. Atualmente, boa parte do acervo de centenas de peças do percussionista está em um depósito.
No início do ano, Patrícia decidiu colocar a casa onde morou com Naná para alugar. Depois de anos sem resposta do poder público e nenhum interesse do setor privado, manter o espaço estava se tornando financeiramente inviável. Na ocasião, músicos a procuraram e fizeram uma visita que virou festa. "Foi um movimento incrível. Fiquei pensando, a gente poderia oferecer oficinas ou promover encontros. Nunca fui procurada para fazer um projeto na casa, nem uma proposta sobre o memorial ou o museu. Eu que estou provocando as instituições", conta Patrícia. Depois da repercussão, o Secretário de Cultura de Pernambuco, Ricardo Mello, se encontrou com Patrícia e afirmou que estão buscando uma casa para a construção do memorial. Ainda assim, uma pergunta paira no ar: “Se Naná fosse branco, já não teria uma proposta na mesa?”.
No caso de Anelis, os planos envolvem ocupar outros museus e manter o acervo digitalizado em acesso livre. “Adoraria ter uma sede fixa do MU.ITA, isso é muito importante, mas eu preciso ter uma casa própria. A minha mãe precisa ter uma casa própria porque ela mora na casa que alugou com meu pai em 1978 até hoje, de aluguel", conta a artista. Em agosto, a exposição Afro-Brasileiro Puro ocupava o Centro Cultural São Paulo e foi interrompida quando um óculos do acervo foi roubado. Itamar Assumpção tinha seis graus de miopia e, por isso, todas as lembranças de Anelis com o pai envolviam algum óculos, todos de grau. “Era mais do que um acessório. É claro que ele fez da sua própria deficiência uma forma de romper um padrão estético normativo, mas era bem mais que isso. O que foi furtado era um dos preferidos dele", explica.
Ainda que o roubo não pudesse ter sido evitado com mais segurança no Centro Cultural São Paulo, o MU.ITA poderia ter sido menos lesado se as obras contassem com seguro, mas o preço para segurar obras de arte é muito alto, um investimento fora do alcance da família. No cenário ideal, Anelis gostaria de receber a valorização e apoio das instituições de preservação, tanto das Secretarias de Cultura quanto das Secretarias de Patrimônio. “Se a gente conseguisse ter um aporte que sustentasse o museu, a gente poderia manter o acervo seguro, mesmo quando as peças estivessem à mostra", aponta.
Patrícia planeja uma viagem para Recife e está decidida a mobilizar mais pessoas em torno da sua causa para conseguir investimento e, enfim, dar início ao trabalho de catalogação e preservação do acervo de Naná Vasconcelos. “Emocionalmente, não consegui colocar a casa para alugar", desabafa. Ao mesmo tempo, a memória vem sendo desgastada, e em breve será financeiramente impossível de manter o espaço: “São seis anos, se a falta de interesse perdurar, eu não vou conseguir. A cada ano que passa, fica mais difícil segurar a casa. Eu quero um projeto amplo, aberto e vivo. Eu tive propostas para levar os itens do acervo para outros estados, mas não é isso que eu quero. É muito pouco perto da imensidão que foi Naná".










